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A fé também afeta o meio ambiente |
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Por Francesca Colombo*
Especialistas dizem que as religiões falharam por não defenderem a natureza.
MILÃO.- A religião pode ter um papel central no desenvolvimento sustentável, seja para incentivá-lo ou freá-lo, afirmaram especialistas reunidos na Itália, onde ressurgiu a velha controvérsia sobre o papel alienante ou liberador que tem a fé. É claro que “as religiões não fizeram o suficiente no passado e que fracassaram em incentivar os seres humanos a defenderem a natureza”, disse ao Terramérica Antje Heider-Rottwilm, representante da igreja evangélica alemã. “Religiões e Culturas: a Coragem de um Novo Humanismo”, encontro realizado na cidade italiana de Milão, entre 5 e 7 de setembro, foi o cenário onde Antje e outros religiosos e acadêmicos discutiram o assunto.
Para Andrea Masullo, diretor de Meio Ambiente da filial italiana do Fundo Mundial para a Natureza, não há dúvidas de que “as religiões têm um papel fundamental para incorporar princípios éticos no estilo de vida e nas decisões científico-técnicas e políticas que podem levar a humanidade para o desenvolvimento sustentável”. O desenvolvimento da comunidade depende de uma ação integrada, que não considere apenas o acesso a serviços básicos, como também o meio ambiente e a ética, disse, por sua vez, Daniele Bassi, catedrático da Universidade de Estudos de Milão, que participou da mesa-redonda “Religião e Degradação Social e Ambiental”. Chega-se à degradação “quando faltam homens educados para conceber a realidade como uma relação e não como uma apropriação”, afirmou.
Essa relação adequada com o entorno também pode chegar a ser degradante quando se mantém posições conservacionistas em extremo, que beiram a rejeição à tecnologia para não molestar a natureza, disseram alguns participantes do encontro. Essas posturas surgem de uma lógica de elite e em círculos exclusivos da ideologia “neomaltusiana”, que negam aos povos com menos vantagens o acesso ao bem-estar, explicou Bassi. Chama-se maltusianismo (por Thomas Malthus, 1766-1834) a teoria de que a população mundial não deve superar um número adequado à disponibilidade de meios de subsistência.
O catedrático da Universidade de Estudos de Milão acredita que “é melhor voltar à tradição judaico-cristã da profecia feita a Abraão, que lhe prometeu ser “pai de uma multidão de povos”, com descendência numerosa como as estrelas. Judeus e cristãos concebem o meio ambiente como “uma casa para os seres humanos”, enquanto alguns conservacionistas “reduzem a questão, como se a natureza devesse se defender da ameaça do homem”, acrescentou. Porém, o professor Lynn White, da Universidade da Califórnia, escreveu em seu livro “As Rotas Históricas de Nossa Crise Ecológica” que o mundo ocidental, apoiado na cultura judaico-cristã, concebe o planeta como algo criado apenas para benefício dos seres humanos, e, assim, os separa da natureza.
Por outro lado, religiões como o budismo vêem o ser humano como parte da natureza e outras acreditam que há espírito em cada árvore ou montanha, que por isso devem ser respeitadas. Para o Islã, que tem uma visão integral da matéria e do espírito, preservar os recursos naturais é “o dever da comunidade, em escala nacional e mundial”, porém, isso não basta, já que antes de tudo “deve-se impulsionar o desenvolvimento e uma vida melhor para todos”, explicou ao Terramérica a catedrática Nadia Mahmoud Mostafa, da Universidade do Cairo.
Para os hindus, os seres humanos não devem tentar dominar a natureza ou se aproveitar dela, mas devem se manter em unidade com a mesma, porém, é difícil cumprir esse preceito na Índia devido aos problemas sociais e econômicos que o país enfrenta, afirmou Swami Amaranandaji, presidente do Centro de Estudos Sociais e Religiosos Ramakrishna Vedane. Durante centenas de anos, os dominadores coloniais do ocidente “não respeitaram nada e trataram de destruir nossa cultura. Então, a questão para nós foi a sobrevivência, e depois da independência (1947) estamos procurando encontrar nossas raízes”, disse Amaranandaji. Uma forma de recuperar a harmonia com a natureza é a festa da floresta, ato religioso no qual são plantadas árvores e flores, acrescentou.
Nas religiões, a escolha final pode ser “mudar nosso estilo de vida e gozar com o que nos dá a natureza, ou nos tornarmos mais consumistas e destruir a criação”, afirmou Heider-Rottwilm.
* A autora é colaboradora do Terramérica.
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