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Artigo


Artilharia contra furacões

Por Diego Cevallos*

Dentro de cinco anos poderão surgir métodos para manipular furacões como Ivan e evitar seu desastroso impacto.

MÉXICO.- Até o momento, fracassaram todas as armas que os cientistas projetaram para enfraquecer os furacões, cuja força chega a igualar a da explosão de uma bomba nuclear de dez megatons a cada 20 minutos. Porém, as pesquisas prosseguem e, em cinco anos, poderão surgir novidades importantes. As armas contra esses fenômenos, que por esta época açoitam duramente a faixa tropical da América, incluem o uso de um líquido para evitar a evaporação da água marinha que os alimenta, a liberação de fuligem em seu entorno e o uso de iodeto de prata, que é o único procedimento testado em um cenário real.

"Há ceticismo sobre a possibilidade de se controlar efetivamente os furacões, mas dentro de cinco anos poderemos saber se esse ceticismo tem fundamento", disse ao Terramérica o especialista em furacões Ricardo Prieto, do estatal Instituto Mexicano de Tecnologia da Água. Na teoria e em testes de laboratórios se trabalha com "microfísica de nuvens", um campo do qual pode surgir, antes de 2010, alguma solução importante para a manipulação de furacões, explicou. Enquanto essas pesquisas prosseguem, há outras do governo norte-americano que incluem observações e medições in situ com aviões militares e satélites, para definir o comportamento desses fenômenos.

Graças ao avanço científico, nos últimos 30 anos houve um grande salto na pesquisa sobre tempestades tropicais e ciclones, que inclui a possibilidade de alertas precisos sobre sua formação. Entretanto, até agora não há como manipulá-los. As tempestades tropicais e seu parente maior, o ciclone, que na América é chamado de furacão e em outros continentes de baguio, tufão ou Willy-Willy, formam-se quando aumenta a temperatura dos oceanos em latitudes próximas dos trópicos, como ocorre na região americana entre maio e novembro. No ciclone convergem ventos e nuvens de diferentes temperaturas que giram a grande velocidade devido à própria rotação da Terra. Seus movimentos, com padrões quase sempre variáveis, provocam rajadas de vento e tempestades com grande capacidade de destruição.

Nos anos 60, a norte-americana Administração Nacional do Oceano e Atmosfera tentou enfraquecer os ciclones "injetando" neles, a partir do céu, iodeto de prata, o que teoricamente deveria fazer com que houvesse condensação da umidade existente dentro deles e se acelerasse seu ciclo de vida e declínio, que poder durar, em condições normais, até duas semanas. Esse plano, chamado Projeto Stormfury, foi aplicado no furacão Beulah em 1963 e no Debbie em 1969, com resultados insatisfatórios. Outro procedimento de neutralização, desenvolvido em nível experimental, objetivava criar um líquido que evitasse a evaporação da água dos oceanos onde os furacões se formam, e também fracassou. Nos anos 70, foi sugerido liberar milhões de partículas de fuligem, resultante da queima de petróleo, nos limites dos furacões, para que essas partículas absorvessem a radiação solar até gerar uma grande fonte de calor, que acabaria neutralizando o fenômeno. Essa idéia nunca foi posta em prática.

"Enquanto não existir alguma arma contra os ciclones, a única coisa que se pode fazer é continuar co-existindo com eles, em uma época em que sua frequência parece aumentar, pois, só no Caribe, seu número está acima da média”, disse ao Terramérica Ricardo Sánchez, diretor para a América Latina e o Caribe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Alguns cientistas acreditam que isso se deve ao aquecimento do planeta, fenômeno que, por sua vez, é atribuído em grande parte à queima de combustíveis fósseis. Porém, não existe consenso na matéria. Segundo Sánchez, no momento, o que devem fazer os países da América Central e do Caribe, os mais afetados pelos furacões, é trabalhar para reverter seu nível de vulnerabilidade, que se mantém alto devido à degradação de solos, ao desmatamento, à urbanização acelerada e à pobreza. Com um ambiente deteriorado e milhões de moradores em zonas inadequadas, os fenômenos naturais multiplicam sua capacidade de destruição, tal como ocorreu, por exemplo, em 1998 com o furacão Mitch, que causou quase dez mil mortes e danos materiais superiores a US$ 6 bilhões.

Entre 1970 e 2001, os desastres naturais provocaram, na América Latina e no Caribe, 246.569 mortes, além de prejudicarem de diversas maneiras outros 144 milhões de pessoas e causar prejuízos econômicos de aproximadamente US$ 68,6 bilhões. Com golpes de tragédia, nos últimos anos a região melhorou muito em matéria de defesa civil, o que lhe permite realizar rápidas evacuações e dar melhor atenção às vítimas. Cuba conseguiu evacuar, nos últimos dias, quase dois milhões de pessoas para protegê-las do furacão Ivan, um dos seis mais poderosos desde 1974. México, Jamaica e outros países fizeram esforços semelhantes, mas a capacidade destrutiva do fenômeno foi tamanha que sua passagem deixou mais de 60 mortos.

Para a escala das economias do Caribe e da América Central, ciclones como o Ivan causam danos enormes. Por exemplo, na pequena Granada, que tem pouco mais de cem mil habitantes, esse furacão destruiu quase 90% das edificações e reduziu enormemente a capacidade de resposta do governo e da sociedade organizada. Segundo especialistas, a passagem do furacão Mitch pela América Central no final dos anos 90 atrasou em dez anos o desenvolvimento econômico dessa região. Sánchez afirmou que a comunidade internacional deveria criar um "fundo mundial de estabilização" para ajudar os países que sofrem desastres naturais como furacões, terremotos, secas e inundações. Entretanto, ressaltou Sánchez, "a própria região precisa investir mais em prevenção e na recomposição de seu deteriorado ambiente". Dos empréstimos e doações que chegam à América Latina e ao Caribe para enfrentar desastres naturais, 90% se destinam a tarefas de auxílio e reconstrução, e apenas os 10% restantes para a prevenção.

* O autor é correspondente da IPS.




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Pnuma

Administração Nacional do Oceano e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA)

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