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Fogo fora de controle |
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Por Franz Chávez*
Os habitantes de Santa Cruz, na Bolívia, sofrem os efeitos da poluição produzida por mais de dois mil incêndios florestais.
LA PAZ.- O uso desenfreado de incêndios, para ampliar terras de cultivo e de pastagem para o gado, leva os habitantes da cidade boliviana de Santa Cruz a respirem um ar com mais do que o dobro do nível de partículas suspensas aceitáveis, e a que tenham os olhos freqüentemente irritados. Nos dias 16 e 17 de setembro, a equipe do projeto Ar Limpo da SwissContact determinou nessa cidade a existência de até 400 microgramas de partículas suspensas por metro cúbico de ar, quando a norma assinala como limite 150 microgramas.
As partículas suspensas são líquidos ou sólidos invisíveis ao olho humano que podem percorrer grandes distâncias no ar, permanecer muito tempo nele e provocar transtornos respiratórios. Imagens de satélite identificaram 2.383 pontos de incêndios florestais em regiões semi-tropicais e planícies em uma superfície de 167.343 hectares, e motivaram um enérgico chamado da Liga de Defesa do Meio Ambiente (Lidema) no sentido de proibir-se completamente a prática das "queimadas" (queima de ervas daninhas e arbustos para avançar a fronteira agropecuária).
Integrantes das Forças Armadas e da Defesa Civil se mobilizam por terra e ar, junto com voluntários, na tentativa de deter o avanço das chamas e resgatar famílias afetadas pelo fogo descontrolado. Pelo menos uma criança e um idoso morreram devido a esses incêndios, que afetam os departamentos de Santa Cruz, Beni, Cochabamba, La Paz e Tarija. Densas nuvens de fumaça dificultam os vôos comerciais e causam atrasos de até duas horas nos embarques.
A saúde dos habitantes da zona oriental é a mais afetada, pela aspiração de partículas suspensas e seu depósito nos pulmões, o que causa problemas respiratórios, segundo Orlando Vásquez, assessor da Ar Limpo. Nos dias em que há mais fumaça, as dores de cabeça aumentam na população exposta à presença maciça de óxidos de carbono, bem como as irritações nos olhos e as conjuntivites, explicou ao Terramérica.
A Lidema, coalizão de organizações não-governamentais, alertou sobre efeitos a longo prazo das queimadas, com incidência direta na mudança climática, na seca e na erosão do solo. O coordenador do programa de Capacitação da Lidema, Edwin Alvarado Terrazas, lamentou o risco de perda de biodiversidade, em um país que está entre os dez de maior riqueza natural. Junto com os arbustos também são queimados microorganismos que ajudam a fertilizar a terra, explicou ao Terramérica. Ao contrário da região ocidental andina, onde as queimadas são uma prática antiga sob controle, no leste a expansão das zonas pecuárias e de cultivos de soja levam a uma queima indiscriminada de grandes extensões de florestas, que afeta dezenas de famílias, ressaltou o ativista.
Em geral, um típico camponês da região andina queima extensões de aproximadamente meio hectare, mas os criadores de gado e plantadores de soja eliminam pelo fogo centenas de hectares, assegurou Alvarado. A legislação boliviana permite a queima controlada, mas o ativista aleg que o Estado não controla eficazmente essa prática e que seria preferível deixar sem efeito as autorizações para as queimadas. A Lidema sugere a criação de um Sistema Nacional de Prevenção com recursos financeiros adequados, formado por instituições especializadas e organizações da sociedade civil, que tenham autoridade para aplicar medidas preventivas e de controle.
A Lei do Meio Ambiente pune com quatro anos de reclusão as pessoas que provocarem incêndios em propriedade alheia, campos de cultivo ou pastoreio, por negligência ou intencionalmente. A Lidema reclama a aplicação rigorosa dessa e de outras normas ambientais, com julgamentos e sanções exemplares para os responsáveis por essas práticas nocivas.
* O autor é colaborador do Terramérica.
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