 |
|
|
Kerry leva os votos verdes |
|
Por Katherine Stapp*
Ativistas acreditam que o candidato democrata é mais sensível às questões ambientais internacionais.
NOVA YORK.- Grupos ambientalistas dos Estados Unidos apóiam a candidatura à presidência do senador John Kerry, por suas propostas e seu acentuado contraste com a política do atual presidente, George W. Bush, que buscará sua reeleição em 2 de novembro. Os ativistas afirmam que o governo Bush, do Partido Republicano, se caracteriza, desde seu início, em janeiro de 2001, por apoiar interesses de grandes corporações em detrimento do meio ambiente. Ao contrário do atual presidente, Kerry, do Partido Democrata, se opõe a explorar jazidas de petróleo na Reserva Natural do Ártico, no Estado do Alasca, e apóia o rígido cumprimento de normas vigentes contra a contaminação do ar e da água, que, segundo os críticos, o atual governo procura enfraquecer.
Os ambientalistas também aprovam as posições de Kerry no campo internacional, entre elas o compromisso de priorizar relações com o México que atendam “questões ambientais e sociais de interesse mútuo”, como a preservação de recursos naturais na região de fronteira. O candidato democrata, “busca fazer com que os Estados Unidos encabecem os esforços internacionais para reduzir a poluição, reverter a diminuição da camada de ozônio, proteger as florestas úmidas tropicais, preservar a biodiversidade e pressionar por desenvolvimento sustentável”, disse ao Terramérica Kerry Glover, do não-governamental Sierra Club.
Kerry apóia o uso de motores que utilizem o combustível de modo mais eficiente, para reduzir a emissão de dióxido de carbono e outros gases que causam o efeito estufa, ao reter calor na atmosfera, culpados pelo aquecimento do planeta. Também promete “reinserir” o país em acordos internacionais para proteger o meio ambiente, como o Protocolo de Kyoto, de 1997, que busca reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa por parte do mundo industrializado, e do qual Bush retirou a assinatura norte-americana em março de 2001, por considerá-lo prejudicial para os interesses econômicos do país.
Porém, deve ser assinalado que Kerry, participante da Cúpula da Terra realizada em 1992, no Rio de Janeiro, e da negociação do Protocolo de Kyoto, sustenta que Washington deveria ratificar esse acordo se fossem incluídos nele compromissos para os países em desenvolvimento. Também incentiva a troca de emissões, um mecanismo compensatório para que os países que emitem mais gases que causam efeito estufa do que lhes destina o Protocolo possam comprar parte de sua cota de outros que estejam abaixo dela.
Por outro lado, Kerry defende a destinação de mais recursos à implementação do Protocolo de Montreal, de 1989, assinado por mais de 150 países, para limitar a produção de substâncias que debilitam a camada de ozônio. Bush pediu que os Estados Unidos fossem liberados de várias limitações estabelecidas nesse tratado.
Os eleitores norte-americanos de origem latino-americana preferem, historicamente, os candidatos democratas, e essa tendência se mantém nesta campanha, entre outras coisas pelo apoio de Kerry a dois projetos de lei para legalizar a situação de imigrantes irregulares, um sobre trabalhadores rurais e outro sobre jovens. As questões mais importantes para a comunidade latino-americana são “as leis de imigração e a proteção de seus próprios empregos”, comentou ao Terramérica o diretor de Políticas do Centro Inter-Hemisférico de Recursos, Tom Barry. Porém, as reformas nesse campo “serão viáveis somente se estiverem acompanhadas por um firme apoio a políticas de desenvolvimento nos países de origem, especialmente no México, para que a migração rumo aos Estados Unidos deixe de ser uma válvula de escape”, afirmou Kerry.
Uma incerteza associada a uma eventual vitória do candidato democrata é a de que este vota sistematicamente a favor de acordos de livre comércio com a região, mas seu candidato a vice, John Edwards, é um fervoroso protecionista, que se opôs ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte, assinado com Canadá e México, e a projetos semelhantes com países caribenhos, centro-americanos e andinos.
Além disso, Kerry insiste em que não reduzirá a entrada nos Estados Unidos de produtos latino-americanos, mas também deseja renegociar a Área de Livre Comércio das Américas e um tratado de livre comércio com Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, para que incluam normas mais severas em matéria trabalhista e ambiental. Alguns críticos alegam que essas normas servirão somente para limitar o comércio, se não forem acompanhadas de outras que se contraponham às desigualdades internacionais e impulsionem o desenvolvimento sustentável.
Por outro lado, os comentários hostis de Kerry sobre os presidentes de Cuba e Venezuela, Fidel Castro e Hugo Chávez, respectivamente, podem lhe custar votos entre eleitores progressistas interessados na América Latina, afirmou Larry Birns, diretor do não-governamental Conselho de Assuntos Hemisféricos. Esse grupo de eleitores inclui, entre outros, integrantes de grupos religiosos, sindicalistas, acadêmicos e ativistas pelos direitos dos imigrantes, e soma "vários milhões de pessoas", que podem votar pelo candidato independente Ralph Nader se as posições de Kerry não os satisfizerem, ressaltou. Nader, que conta com menos de 5% de apoio nas pesquisas de intenção de voto, não expressa com clareza seu programa em relação à região, mas é visto como alternativa à esquerda de Kerry para os desencantados com este.
* A autora é colaboradora do Terramérica.
|