 |
|
|
Os belos dormentes |
|
Por Gustavo González*
A substituição de madeira por concreto em dormentes chilenos preocupa pequenos proprietários florestais.
SANTIAGO.- A Empresa das Ferrovias do Estado (Efe) do Chile pretende substituir 200 mil dormentes de madeira por peças de concreto, uma iniciativa bem recebida por organizações ambientalistas e criticada no setor florestal, onde se diz que prejudicará pequenos proprietários de florestas nativas. “Parece-me excelente e aplaudo a idéia”, disse ao Terramérica a bióloga Adriana Hoffman, presidente da organização Defensores da Floresta Chilena e secretária-executiva da Comissão Nacional do Meio Ambiente no início do governo do atual presidente Ricardo Lagos, que assumiu em 2000.
“Se as ferrovias chilenas embarcarem em uma política de expansão isso deve ser amistoso com o meio ambiente”, disse ao Terramérica o presidente do Instituto de Ecologia Política (Iep), Manuel Baquedano, que elogiou a iniciativa da Efe, considerando, entretanto, que deve ser mais ampla. A licitação nacional e internacional aberta pela empresa, no dia 4 de outubro, prevê a compra de 200 mil dormentes de concreto para as linhas entre Santiago e Chillán, que fica 400 quilômetros ao sul da capital. De Chillán a Puerto Montt, mil quilômetros mais ao sul, serão substituídos outros 250 mil dormentes, mantendo peças de madeira. A licitação para os 450 mil dormentes levará a Efe a desembolsar cerca de US$ 26 milhões.
Segundo Baquedano, para uma completa manutenção e renovação das vias férreas a estatal necessitaria de 1,2 milhão dessas peças, que se fossem de madeira significaria a destruição de 3,6 mil hectares de florestas. Os volumes de peso e tráfego ferroviário que os dormentes devem suportar determinam que sejam fabricados com madeira muito dura, que são espécies de crescimento muito lento. No caso do Chile, são o carvalho vermelho (Quercus rubra), o coigüe (Nothofagus dombeyi), o ulmo (Eucryphia cordifolia) ou a tepa (Laureliopsis philippiana), todas autóctones e ameaçadas pela superexploração ou corte ilegal.
O Instituto Florestal (Infor), um organismo técnico estatal, propôs à Efe aplicar uma “discriminação positiva” a favor dos dormentes de madeira em suas licitações, com o argumento de que sua qualidade é semelhante aos feitos de concreto e que resistem a um tráfego ferroviário intenso por 30 a 45 anos, quando se trata adequadamente a madeira nativa. A fabricação de dormentes de madeira “contribui para o desenvolvimento de um grande setor de pequenos proprietários florestais”, comprometidos em planos de manejo e exploração racional de mata nativa, segundo Rodrigo Ipinza, diretor do Infor.
Para Baquedano, os relatórios técnicos com que o Infor avalia estas demandas “são parte da pressão que faz a indústria madeireira para não perder este mercado”. O ambientalista afirmou que não se opõe aos dormentes de madeira, se forem certificados ambientalmente por organismos técnicos, independentes e altamente qualificados, condição que a seu ver não existe no Chile. “Deve ser um certificado internacional e crível, porque o Chile está tentando criar um “auto-selo” (verde). Isto é, que a indústria florestal quer ter um selo próprio, o que não é uma garantia de nada para nós”, afirmou Baquedano.
Hoffman qualificou de “inaceitável” a posição do Infor diante das condições do país, onde a falta de controle da exploração da floresta nativa, mais do que favorecer pequenos proprietários, beneficia “alguns perversos traficantes de madeiras finas”, como ficou demonstrado este ano ao ser descoberta uma organização que contrabandeava alerce (Fitzroya cupressoides). Há “alguns bons produtores que se preocupam em fazer um bom manejo de florestas nativas”, mas são exceção, do mesmo modo que as empresas que fabricam dormentes de madeira de alta qualidade, acrescentou. “Os dormentes de concreto são muito mais duráveis, mais sólidos, possibilitam ferrovias muito mais estáveis, não se perdem e evitam o corte de florestas”, destacou.
O argumento do Infor de que a compra de dormentes de madeira poderia contribuir para estimular o manejo sustentável de florestas nativas foi considerado “uma falácia” por Baquedano, que assegurou que na Europa já não são usados dormentes de madeira e que “tudo está sendo substituído por concreto”. Baquedano destacou que o Iep também se opõe a que a Efe adquira dormentes de madeira em outros países. “Há cinco anos, a empresa quis importar dormentes de madeira da Bolívia, o que implicaria a destruição de florestas nativas naquele país”, comentou. Na localidade de Yumbel, 480 quilômetros ao sul de Santiago, proprietários de florestas nativas, que vendem suas madeiras para o maior fabricante de dormente,s expressaram, no dia 5, seu repúdio às peças de concreto, argumentando que utilizá-las prejudicaria cerca de mil pequenos produtores de madeira.
* O autor é correspondente da IPS.
|