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“Na Argentina há maquiagem ambiental”

Por Francesca Colombo*

O biólogo argentino Raúl Montenegro, premiado como o Nobel Alternativo, conversou com o Terramérica sobre suas pesquisas ambientais.

BUENOS AIRES.- O argentino Raúl Montenegro receberá em dezembro o prêmio Right Livelihood, concedido pelo parlamento sueco e conhecido como Nobel Alternativo, “por seu destacado trabalho com as comunidades locais e povoados indígenas, em defesa do meio ambiente e da conservação dos recursos naturais, dentro e fora da América Latina”. O prêmio, cujo nome se refere a ganhar a vida de maneira ética, distingue pessoas que dão respostas práticas exemplares para grandes problemas contemporâneos. Foi criado em 1980 e vem acompanhado de US$ 268 mil.

Montenegro é professor de biologia evolutiva da Universidade de Córdoba, no centro do país, e presidente da Fundação Ambientalista (Funam) dessa província. Dedicou sua vida às atividades antinucleares, à criação de áreas protegidas, ao combate contra a contaminação química e o desmatamento, e à proteção de recursos hídricos. Trabalhou em outros países da América Latina, África e na Índia, e diz ter aprendido em suas viagens que a sabedoria está mais próxima do barro do que das luzes das grandes cidades.

O ativista recebeu, em 1992, o prêmio austríaco Futuro Livre da Nuclear, em 1989, o Global 500 da Organização das Nações Unidas, e em 1971 o prêmio de Pesquisa Científica da Universidade de Buenos Aires.



P.- O que significa para o senhor receber o Nobel Alternativo?

R.- É um carinho internacional para a alma. Quando se vive tantas lutas, muitas delas duras e infrutíferas, e se recebe tantas ameaças e pressões, o prêmio é como um escudo que se agradece e se desfruta.



P.- Quais são os principais problemas ambientais na Argentina?

R.- A corrupção, a incapacidade dos funcionários e o egoísmo das empresas e de muitos cidadãos. O resultado é um país que tem cada vez menos ambientes naturais e cada vez mais poluição. Mais de 80% das florestas nativas foram destruídos. Não existe gestão ambiental, há maquiagem ambiental.



P.- As comunidades mbya tekoa yma e tekoa kapii yuate foram despojadas de suas terras na reserva Yabotí, na província de Misiones, por empresas privadas que extraem árvores centenárias e destróem seu hábitat. O que a Funam conseguiu em defesa dessas comunidades?

R.- Muito, mas é insuficiente. Mostrou os quatro principais responsáveis por esse genocídio silencioso: a empresa Mocomá Florestal; o governador de Misiones, Carlos Rovira; o ministro da Ecologia, Luis Jacobo, e o diretor de Assuntos Guaranis, Arnulfo Verón. Conseguiu uma moratória de um ano para a extração de árvores, que não é rigidamente cumprida, e estabeleceu que as comunidades devem ser proprietárias do território onde vivem.



P.- É possível frear esse genocídio e as motoserras com campanhas por e-mail e via fax, com faz a Funam?

R.- Sim, pois seu impacto é tremendo. Os governos temem essa pressão internacional e a divulgação de suas responsabilidades.



P.- Outra campanha da Funam pede que seja proibida a caça e o comércio ilegal de iguanas (Iguana iguana). Que resultado está sendo obtido?

R.- Conseguimos que parasse por tempo indeterminado a possibilidade de caçar sem cota. Também divulgamos vinculações sobre o assunto, entre o então governador de Córdoba, Eduardo Angeloz, e o curtume La Union. O escândalo e a posterior falência da empresa fizeram com que diminuísse drasticamente a caça de iguanas.



P.- Em 1994, estiveram na Guatemala para rechaçar a entrada de um reator nuclear canadense. Como foi essa experiência?

R.- Excepcional. Explicamos ao organismo nacional ambiental os riscos representados por esse reator e conseguimos uma posição contrária à sua entrada naquele país. Anos mais tarde fizemos uma campanha semelhante no Zimbábue e conseguimos fazer com que fosse arquivada a iniciativa de comprar um reator argentino.



P.- Por que diz que a Funam é “bem terceiromundista”?

R.- Porque trabalhamos sem cobrar salários e com orçamentos ridiculamente baixos. Em 23 anos, quase não usamos fundos externos. Apesar dessa diminuta capacidade financeira, somos uma dor de cabeça para muitos governos e empresas, e a comunidade nos respeita.



P.- Um acadêmico deve ter os pés no barro para conseguir mudanças?

R.- É importante, tanto quanto saber tirá-los quando se está sempre no barro. Levo ferramentas técnicas para a comunidade, e obtenho do trabalho de campo idéias e conhecimentos valiosos para a academia. São tão perigosas as torres de marfim quanto as de barro. O desafio é ter humildade e não deixar de aprender.

* A autora é colaboradora do Terramérica.




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Prêmio Right Livelihood

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