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Artigo


Outro camponês ecologista atrás das grades

Por Diego Cevallos *

Felipe Arriaga, defensor das florestas no Estado mexicano de Guerrero, é acusado de assassinato por um madeireiro. “Sou inocente”, disse ao Terramérica da prisão.

MÉXICO.- Ser camponês pobre e opor-se ao desmatamento no México podem ser razões suficientes para se acabar na prisão. Assim indicam cinco casos desde 1999. O último é o de Felipe Arriaga, detido em novembro, acusado de assassinato. Logo outros 13 poderão somar-se a ele. “Meu problema se deve ao fato de defender as florestas. Não em vão meu acusador é um madeireiro”, disse Arriaga ao Terramérica, de uma prisão em Guerrero, Estado do sudeste mexicano onde colabora com a Organização Camponeses Ecologistas da Serra de Petatlán e Coyuca de Catalán.

O testemunho de Arriaga é uma cópia quase idêntica dos apresentados em seu momento por outros quatro camponeses ambientalistas, pobres e semi-analfabetos. Nesses casos, os acusados denunciaram que por combaterem o desmatamento foram vítimas de provas fabricadas e torturas por parte de autoridades. Organizações de direitos humanos locais e internacionais os consideraram presos de consciência. Posteriormente foram libertados.

No México, “usa-se o sistema judicial para silenciar ou desanimar as vozes dissidentes e a oposição da sociedade civil, recorrendo a acusações falsas ou sem fundamento”, afirmou a Anistia Internacional, com sede em Londres, a propósito dos reiterados depoimentos de camponeses presos.

Rodolfo Montiel e Teodoro Cabrera, companheiros de Arriaga na Organização de Camponeses Ecológicos de Guerrero, deixaram a prisão em 2001 por intervenção do presidente Vicente Fox que, alegando problema de saúde de ambos, ordenou o perdão de suas penas de até dez anos de prisão e o encerramento do processo contra eles. Montiel e Cabrera, detidos em 1999 sob acusação de posse de armas e cultivo de maconha, processaram o Estado mexicano no Tribunal Interamericano de Direitos Humanos, pedindo reparação de danos, punição dos militares que os detiveram e torturaram, e ainda uma declaração plena de inocência. Hoje, ambos vivem semiclandestinamente e longe de Guerrero, pois temem atentados por parte dos responsáveis pelo corte de árvores que combateram.

“O caso de Arriaga é muito semelhante ao de Montiel e Cabrera. Trata-se de acusações suspeitas, dirigidas contra quem se opõe ao desmatamento”, disse ao Terramérica Mario Patrón, coordenador jurídico da Tlachinollan, uma organização de direitos humanos de Guerrero. Patrón foi um dos advogados de Montiel e Cabrera e é possível que assuma o caso de Arriaga, acusado de participação no assassinato, em 1998, de um filho de Bernardino Batista, líder de organizações de cortadores de árvores. Por esse crime estão pendentes 13 ordens de prisão, todas contra camponeses contrários ao desmatamento em Guerrero. “Vou ser claro com você, alguém se intromete em certos interesses e esse é o problema, por isso estou aqui (na prisão). Mas tenho a certeza de que terão de me libertar por que não fiz nada, assim como meus compadres Montiel e Cabrera, que já estão livres”, disse Arriaga.

Com menos de 28% de seu território coberto por florestas, o México perde a cada ano mais de 500 mil hectares de árvores. Grande parte dessa destruição se dá por mãos de grupos ligados ao crime organizado. Na prisão, Montiel e Cabrera receberam de organizações norte-americanas o prêmio Goldman, considerado o Nobel da ecologia. no valor de US$ 125 mil, e também o prêmio Chico Mendes, criado em memória do camponês, sindicalista e ambientalista brasileiro assassinado em 1988. Patrón afirma que a destruição da floresta nas serras de Guerrero parou quando seus clientes estavam presos, mas recomeçou nos últimos dois anos.

Cerca de 40% da mata das serras de Petetlán e Coyuca de Catalán, em Guerrero, onde Montiel e Cabrera viviam, foi destruído entre 1992 e 2000, afirma a organização ambientalista Greenpeace. Imagens obtidas por satélite provam que em oito anos se perderam 86 mil dos 226.203 hectares de florestas existentes nessas regiões. Semelhante destruição se registra em Coloradas de la Vigen, zona de mais de 50 mil hectares localizada no Estado de Chihuahua, local ancestral dos indígenas Rarámuris, onde vivem cerca de 360 famílias.

Dessa localidade são Isidro Baldenegro e Hermenegildo Rivas, indígenas que também combatem o desmatamento. Libertados em junho por decisão judicial, permaneceram pouco mais de dois anos presos acusados de posse de armas e drogas. “Me comprometi a continuar com a luta e agora me sinto ainda mais comprometido, pois muitas pessoas e organizações apoiaram minha liberdade”, disse Baldenegro ao Terramérica, por telefone de sua comunidade em Sierra Tarahumara. Baldenegro, filho de um dirigente rural assassinado em 1986, aparentemente por enfrentar cortadores de árvores, conta com proteção policial, pois teme ser assassinado. “No momento não sinto muito próximo o perigo nem as ameaças. Mas se finalmente conseguirmos nos tribunais o fim do desmatamento, creio que aí sim se sentirão muito ofendidos (os grupos que cortam árvores) e tratariam de eliminar algumas pessoas”, disse o camponês.

Segundo se soube durante o processo contra Baldenegro e Rivas, as acusações eram infundadas e vários policiais plantaram provas contra eles. Apesar disso, os culpados por esses crimes, bem como os militares que os torturaram e acusaram Montiel e Cabrera, estão livres e nunca foram punidos.

* O autor é correspondente da IPS.


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Campanha pelos camponeses ecologistas

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