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Armadilhas debaixo das metrópoles |
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Por Stephen Leahy*
A crescente rede subterrânea de meios de transporte, centros comerciais e estacionamentos em metrópoles é vulnerável a desastres naturais, alertam especialistas.
Brooklin, CANADÁ.- O crescimento da população urbana determina a expansão subterrânea das metrópoles e acrescenta uma nova dimensão à sua vulnerabilidade diante de desastres naturais como inundações, terremotos e tsunamis. Atualmente, cerca da metade da população mundial é urbana, e há previsões de que a proporção chegará a 65% em 2030. Uma das vulnerabilidades ocultas das cidades quanto a desastres naturais é a relacionada com a rede subterrânea de transportes, centros comerciais, estacionamentos e instalações de serviços públicos, disse ao Terramérica Srikantha Herath, da Universidade das Nações Unidas, com sede em Tóquio. Quase todas as grandes cidades do mundo, incluindo muitas de países em desenvolvimento, têm amplas redes desse tipo, já que “em áreas urbanas densamente povoadas não há outro espaço disponível”, ressaltou.
Esse problema foi um dos examinados pela Conferência Mundial sobre a Redução dos Desastres Naturais, que aconteceu na semana passada na cidade japonesa de Kobe, 10 anos depois de um terremoto que a devastou e causou prejuízos de US$ 100 bilhões, e apenas três semanas depois do maremoto no oceano Índico do dia 26 de dezembro, que provocou a morte de mais de 220 mil pessoas. “As cidades são as mais vulneráveis e a mudança climática aumenta os riscos”, afirmou Gordon McBean, do Instituto de Redução de Perdas Catastróficas da canadense Universidade de Ontário Ocidental. O aquecimento do planeta determina a elevação do nível do mar e aumenta a força e a freqüência de furacões, tornados e tempestades, bem como a intensidade das chuvas em algumas regiões, acrescentou em uma entrevista.
Nem mesmo as cidades mais ricas dos Estados Unidos e da Europa consideraram seriamente o perigo de inundações dessas áreas, destacou Herath. A extensa rede de espaços subterrâneos de Tóquio sofreu 17 inundações no período de dois anos, devido a tempestades e intensas chuvas, com perda de algumas vidas, ressaltou. Algumas infra-estruturas subterrâneas contam sistemas de alarme e contensão de incêndio muito bons, mas não para inundações, ressaltou.”É muito comum que as entradas para áreas subterrâneas sejam as zonas mais perigosas durante uma inundação”, e “outro problema habitual é que faltam mapas das áreas abaixo do solo, com indicação das ligações pelas quais a água pode chegar de uma a outra”, lamentou.
Como muitas das maiores cidades do mundo, a capital japonesa está abaixo do nível do mar. Outras foram construídas sobre planícies alagadiças e são especialmente vulneráveis a tempestades, chuvas intensas e tsunamis. Muitos dos urbanistas dos últimos 50 anos ignoraram ou esqueceram a possibilidade de acontecimentos extremos que ocorrem de forma tão freqüente como uma vez por século, assinalou Herath. Um exemplo foi a série de enxurradas de lama perto de Caracas que causou a morte de 30 mil pessoas em 1999, destacou McBean. “Lembro que percorri assentamentos nas encostas da montanha, uma semana antes das intensas chuvas que causaram a tragédia e pensei que um desastre estava para ocorrer”, contou.
Esses assentamentos estavam sobre sedimentos depositados muitos anos antes por outras enxurradas de lama. Os mais pobres são sempre os mais vulneráveis a desastres e os países em maior risco são Honduras, Guatemala e Filipinas, propensos a terremotos, fortes tempestades e carentes de recursos para enfrentar seu impacto, segundo uma pesquisa do Instituto da Terra da Universidade de Columbia, dos Estados Unidos. México, Bogotá, Manágua, Santiago, Lima, Quito, San José e Guatemala são as cidades da América Latina mais vulneráveis, segundo o especialista em terremotos e redução de risco, Omar D. Cardona, da colombiana Universidade de Manizales, ganhador em 2004 do prêmio Sasakawa de Redução de Desastres Naturais concedidos pela ONU. Segundo McBean, é importante desenvolver sistemas de alerta, mas somente se existem meios eficientes para que seus avisos alcancem a população e esta saiba o que fazer.
A redução de riscos em grandes cidades requer esforços econômicos, sociais e educativos, entre outros, disse Cardona ao Terramérica de Kobe, em entrevista por e-mail. O maior auge da construção na história se desenvolve atualmente debaixo do solo, para incluir nas cidades mais dois bilhões de pessoas nos próximos 25 anos, e “temos uma grande oportunidade de construir moradias adequadas para essa gente”, afirmou Brian Tucker, presidente do GeoHazards International, uma organização sem fins lucrativos dedicada a minimizar o impacto de terremotos, sobretudo na Ásia. Os edifícios de concreto com muitos andares se tornam “armadilhas mortais” durante um terremoto, enquanto as casas rurais de madeira, palha e barro são muito menos perigosas, explicou.
A maioria dos países possui normas de construção adequadas para reduzir riscos, mas não agem no sentido de serem cumpridas, “por corrupção, porque os funcionários não estão capacitados ou porque os baixos salários não permitem manter os mais aptos”, afirmou Tucker. É necessário algum tipo de padrão internacional para que as multinacionais não invistam em países que não seguem boas normas de construção, assim “os governos seriam recompensados por fazerem o que é certo”, argumentou.
* O autor é colaborador do Terramérica.
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