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Artigo


Os peixes voltam a Havana

Por Patricia Grogg*

Funcionários garantem que está sendo restabelecida a vida marinha na baía de Havana, uma das mais poluídas do mundo. Diminuíram os níveis de poluição por esgoto e hidrocarbonos, segundo um documento ao qual o Terramérica teve acesso.

HAVANA.- “Quero uma baía limpa e sã, com muitos pelicanos se alimentando em suas águas”, disse María Luisa Pérez, resumindo o sonho de muitos moradores da capital cubana para essa baía, que no final do século XX ainda figurava entre as dez mais contaminadas do mundo. Já não parece um sonho, a julgar pelo regresso dessas enormes aves que buscam seu sustento diário no meio marinho. “Se elas estão por aqui é porque há peixes”, diz Manuel, enquanto acomoda seus apetrechos de pesca para tentar a sorte em um setor do qual se pode avistar os navios que se aproximam do porto de Havana.

Manuel se diz pescador ocasional, mas não longe dele se instala Yosvani, que afirma ir diariamente ao local e costuma capturar chicharros (Trachurus trachurus) e sábalos (família Megalopidae), entre outros. “São peixes que entram e saem, e não creio que vivam na baía, ainda há muito petróleo e também sujeira que vem dos rios”, acrescentou. Em meados dos anos 80, a falta de oxigênio, devido à carga orgânica que o ecossistema recebia, tornava impossível a sobrevivência de fauna marinha. “Chegava todo tipo de substância contaminante, era uma situação caótica”, admite Antonio Villasol, diretor do Centro de Engenharia e Manejo Ambiental de Baías e Zonas Costeiras (Cimab).

Villasol e Jesús Beltrán González, chefe do departamento de contaminação e do projeto de qualidade de água da baía de Havana no Cimab, concordam em que o panorama é diferente hoje em dia, como comprova a análise de águas e sedimentos feita em 2004. “Hoje podemos dizer que é uma baía contaminada, mas com níveis muito semelhantes aos de outras regiões do Caribe e com problemas menos sérios do que muitas do Grande Caribe e inclusive de fora da região”, afirmou Villasol. O Grande Caribe inclui as ilhas caribenhas e todo o litoral desse mar, desde o México até a Guiana Francesa, além de El Salvador.

Segundo o mais recente relatório do projeto Avaliação Global de Águas Internacionais (Giwa, sigla em inglês), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), a baía de Havana é um “caso bem documentado” de como a poluição oriunda de fontes terrestres pode afetar o ecossistema marinho com efeitos em toda a região. Segundo o Giwa, o acelerado crescimento econômico nas décadas de 70 e 80 em Cuba provocou um descontrolado desenvolvimento da baía, que tem 5,2 quilômetros quadrados de superfície e 47 milhões de metros cúbicos de água.

O relatório qualifica de “antiquada” a legislação cubana na matéria e de “fragmentado” o manejo da baía, e assinala que a adoção de novas tecnologias para controlar a poluição marinha foi freada durante as últimas três décadas, devido à importação de máquinas russas altamente poluentes e às restrições do embargo norte-americano. Entretanto, as medições mais recentes indicam melhorias na qualidade da água da baía, que recebe diariamente mais de 300 mil metros cúbicos de água poluída através de rios, drenagem pluvial, dejetos industriais e eventuais descargas de esgoto da cidade.

Um informe, ainda não oficial, entregue por Villasol e Beltrán ao Terramérica indica que a variação média de oxigênio dissolvido na superfície subiu de 4,02 miligramas por litro (mg/l), entre 1991 e 1995, para 6,34 mg/l em 2004, enquanto no fundo aumentou de 2,94 mg/l para 4,35 mg/l, respectivamente. “Estima-se que acima de dois miligramas já pode haver vida em qualquer sistema aquático, e o valor mínimo recomendado em normas internacionais para dizer que há boa qualidade das águas é de cinco”, explicou Beltrán. Os níveis de oxigênio no fundo são os que demoram mais para se recuperar, acrescentou.

Por outro lado, diminuiu a carga de hidrocarbonos, graças a uma série de medidas tecnológicas aplicadas na antiga refinaria Ñico López e na usina de gás da capital. Segundo estudos, a refinaria despejava na baía menos hidrocarbono do que o resto da cidade através de drenagens de lixo, postos de gasolina, estacionamentos e escritórios. Em meados dos anos 80, a baía recebia cerca de 30 toneladas diárias de petróleo. As estatísticas do Cimab para 2004 indicam que a média total de hidrocarbonos em águas superficiais caiu de 3,35 mg/l, entre 1981 e 1985, para 0,21 no ano passado.

A conservação da baía está a cargo do Grupo Estatal de Trabalho da Baía de Havana (GTE), criado em 1998 e que, entre outras coisas, cobra imposto por serviços portuários para revertê-los em benefício do ecossistema e controla o cumprimento de medidas aplicadas às indústrias próximas para eliminar substâncias contaminantes. A entidade surgiu por recomendação de um projeto regional com aporte financeiro do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e do Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF), que avaliou as condições do ecossistema e as necessidades de investimento para saneá-lo. O programa recomendou o estabelecimento de uma autoridade portuária na baía, que está em “processo de criação”, segundo Villasol.

Do programa do GEF também derivou o financiamento para a construção de uma usina de tratamento de esgoto no curso médio do rio Luyanó, um dos principais transportadores de substâncias contaminantes para a baía de Havana. Uma obra semelhante, na desembocadura do afluente e construída com apoio da Itália através do Pnud, deve entrar em funcionamento no final do ano, permitindo resolver até 60% do problema da carga orgânica e em 100% o de resíduos industriais, segundo o Cimab.

* A autora é correspondente da IPS.




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Enlaces Externos

Relatório deo Giwa sobre a baía de Havana

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