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Garrafas versus fontes |
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Por Stephen Leahy*
O negócio de água engarrafada incentiva a privatização, afirmam ativistas. A água engarrafada é segura e amigável com o meio ambiente, responde a indústria.
BROOKLIN, Canadá.- Quatro grandes corporações controlam a maior parte do mercado mundial de água engarrafada e constituem uma ameaça para as empresas públicas que fornecem o líquido, segundo informe do não-governamental Instituto Polaris, do Canadá. O negócio movimenta cerca de US$ 50 bilhões por ano, e as empresas que predominam são Nestlé, PepsciCo, Coca-Cola e Danone, de acordo com o estudo “Dentro da Garrafa”. Essas empresas “conseguem enormes lucros a partir da água que obtêm grátis ou a preço muito baixo de fontes públicas”, disse ao Terramérica Tony Clarke, autor do estudo. Cerca de 20% dos norte-americanos e 17,5% dos canadenses somente consomem água engarrafada, acrescentou. De acordo com fontes da indústria, as vendas mundiais do setor aumentaram 40% entre 2000 e 2003, quando o consumo por pessoa chegou a 90 litros nos Estados Unidos e 51 litros na América Latina. “O mercado das engarrafadoras aproveita os temores sobre a qualidade da água de fontes públicas”, argumenta Clarke, sugerindo que a água engarrafada também está relacionada com problemas de saúde. Em 2004, meio milhão de litros da marca Dasani, que é filtrada, tratada e engarrafada pela Coca-Cola, tiveram de ser retiradas do mercado britânico porque apresentavam altos níveis de bromatos cancerígenos, acrescentou. “Pode haver casos semelhantes de contaminação, mas ninguém examina a água engarrafada com a freqüência necessária”, ressaltou.
Stephen Kay, porta-voz da Associação Internacional da Água Engarrafada, assegurou ao Terramérica que o produto dos membros desse grupo de empresas cumpre as normas da norte-americana Administração de Alimentos e Medicamentos, são inspecionadas pelas autoridades correspondentes de cada país, e anualmente por especialistas independentes. “Não tentamos desestimular o consumo de água comum, mas as pessoas preferem a engarrafada por comodidade e pelos benefícios em matéria de segurança e saúde”, afirmou. Além disso, a água engarrafada é mais saudável do que as gasosas açucaradas, e “isso pode ajudar a resolver o problema de obesidade da América Latina”, argumentou Kay.
As empresas que deveriam estar preocupadas pelo rápido crescimento da indústria da água engarrafada são as que produzem refrigerantes, acrescentou. Mas Coca-Cola e Pepsi não estão, porque são duas das quatro companhias que predominam no mercado da água engarrafada. “A Coca-Cola prevê que esse será o seu produto mais vendido em poucos anos”, destacou Clarke. A Danone, com sede na França, produz as marcas Evian, Volvic, Aqua e Crystal Springs, entre outras. A porta-voz da filial canadense da Nestlé, Catherine O´Brien, disse ao Terramérica que nenhum empregado da companhia estava disponível para falar sobre o assunto antes do término desta reportagem. Representantes da Coca-Cola e da PepsiCo não responderam aos telefonemas.
A preocupação real entre os ativistas parece ser a mudança cultural que representa conceber a água como uma mercadoria pela qual se deve pagar muito, afirmou Clarke. “Existe um enorme interesse corporativo na venda de água, e o produto engarrafado tem papel fundamental no condicionamento das pessoas com vistas à privatização das instalações públicas de água”, destacou. A oposição pública a essa privatização na América do Norte é forte, segundo Wenonah Hauter, diretora da campanha Água Para Todos, da ong norte-americana Public Citizen. Menos de 15% das instalações de água dos Estados Unidos estão em mãos de particulares, e a maioria delas fornece serviços de saneamento, não de água potável, disse Hauter ao Terramérica.
Hauter acredita que o setor de água engarrafada também prejudica o serviço público, pois desvia fundos e atenção da necessidade de melhorá-lo. “Em lugar de insistir na necessidade de água comum mais pura, as pessoas gastam seu dinheiro com a engarrafada”, afirmou. Se os consumidores se preocupam legitimamente quanto ao serviço local de água, é muito mais barato e supõe menos desperdício instalar um filtro de água em cada tubulação da casa, afirmou a ativista. As dezenas de milhares de milhões de vasilhames de água engarrafada criam um grande problema de desperdício de plástico. Embora os recipientes possam ser reciclados, somente uma fração dos utilizados nos Estados Unidos passa por esse processo. O restante acaba nos aterros sanitários.
“No mundo em desenvolvimento essas garrafas estão por toda parte, inclusive espalhadas na paisagem e no oceano”, mas em todo o mundo a indústria investe enormes quantias de dinheiro para se opor a qualquer sistema que permita aos usuários vender as garrafas de plástico usadas, disse Hauter. No entanto, Kay afirma que os sistemas de depósitos são caros e sobra para o varejista a tarefa de armazenar os vasilhames vazios. “Os programas de reciclagem são melhores e mais simples para os consumidores”, acrescentou. Quanto às localidades e aos países que carecem desses programas, é “dever” deles implementar “a reciclagem em benefício do meio ambiente para (satisfazer) a demanda de material reciclável”, acrescentou. “Sinto que todos estes grupos que se preocupam com a saúde e o meio ambiente deveriam aceitar o que fazemos na indústria para fornecer água segura e de qualidade, com o manejo ambiental como prioridade”, concluiu.
* O autor é colaborador do Terramérica.
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