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Ressuscitam rios e mangues |
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Por Katherine Stapp*
Especialistas destacam histórias de sucesso na conservação da água doce ao redor do mundo. Existe “uma mudança de atitude sobre o modo de conseguir conservação”, afirmam.
NOVA YORK.- Quando os ornitólogos franceses entraram no Parque Nacional Diawling da Mauritânia, em janeiro de 1994, descobriram com horror “um poeirento deserto com algumas poucas vacas que pareciam doentes” e apenas três pássaros. A área, em algum tempo povoada por vastos bandos de pelicanos e flamingos, sofreu devastadoras conseqüências da construção da represa Diama, perto da desembocadura do rio Senegal, no Oceano Atlântico, verdes pântanos foram substituídos por uma extensão de argila ressecada e com rachaduras, apenas interrompida por pequenas dunas e manchões de ervas daninhas. Essa represa é chamada de “uma tragédia africana do desenvolvimento”, disse Olivier Hamerlynck, um consultor sobre mangues a quem a União Mundial pela Natureza (IUCN) pediu ajuda para reparar os danos.
“Concordamos que o melhor era acrescentar eclusas à represa para inundar novamente a zona, mas estávamos assustados quando as abrimos pela primeira vez, porque não é uma solução comum”, explicou em uma conferência sobre preservação de ecossistemas de água doce, patrocinada pelo Museu Norte-americano de História Natural, em Nova York. A inundação artificial funcionou maravilhosamente. A pesca foi recuperada de forma impressionante, de menos de um quilo em 1992 para mais de 112 mil em 1998, e o delta é atualmente o lugar de mais de 35 mil aves aquáticas. Moradores locais também se envolveram no projeto de Diawling, um tipo de cooperação habitualmente crucial para o sucesso das tentativas de revitalizar ecossistemas de água doce, segundo especialistas de 21 países reunidos no encontro realizado nos dias 7 e 8 de abril.
O biólogo marinho Edward Allison, da Universidade de East Anglia, na Grã-Bretanha, destacou que houve uma importante “mudança de atitude sobre a maneira de conseguir conservação”. A meta já não é simplesmente recriar um ambiente imaculado, mas conseguir seu maior valor possível para os seres humanos que nele vivem e devem ser seus principais protetores, afirmou o especialista. Isso significa construir uma rede com todos os envolvidos, sejam governantes, proprietários de terras ou pescadores, para discutir periodicamente e com um mínimo de viés científico e com ênfase em questões locais. Na África do Sul há “boas leis de conservação, mas não contávamos com pessoas que controlassem sua aplicação, retirassem amostra da água e fizessem outras tarefas-chave”, disse Pierre de Villiers, que foi contratado pelo governo sul-africano para avaliar a saúde da bacia do rio Orange-Vaal, de 941 quilômetros quadrados, e começou com um orçamento ridiculamente pequeno acompanhado unicamente por dois cientistas.
Villiers buscou aliados entre agricultores e pescadores da região, bem como na comunidade acadêmica. “Deve-se conseguir pessoas do lugar se a intenção é conservar. Criamos valor em torno de nossos peixes locais e também um sentimento de propriedade das espécies. E quando se salva uma espécie, também se salva outras do ecossistema”, explicou. Seus esforços deram resultado e se formou um grupo de aproximadamente 500 pessoas que cooperam para fazer cumprir leis contra pesca ilegal de peixes autóctones. Ecossistemas de água doce como o da bacia do Orange-Vaal são o lar de dezenas de milhares de espécies de peixes, répteis, aves e mamíferos, sitiados em todo o mundo pela contaminação, introdução de espécies exóticas e ações humanas associadas com o desenvolvimento, como a construção de represas.
São considerados os habitat terrestres mais ameaçados, mas também mostram notável resistência. Às vezes uma modificação simples mas criativa poderia fazer voltar à vida inclusive os mais degradados. Assim ocorreu no rio Duck, no Estado norte-americano do Tennessee, talvez o curso de água mais biodiverso da América do Norte, com 652 espécies nativas. Uma enorme represa despejava nesse rio, periodicamente, grandes volumes de água muito fria e com pouco oxigênio, e isso havia dizimado sua população de mexilhões, um problema freqüente em todo os Estados Unidos, onde se extinguiram 36 espécies de moluscos e mais de um terço das que restam estão em perigo crítico.
Em busca de alguma ferramenta para deter esse processo, os cientistas idealizaram o simples procedimento de instalar mangueiras para bombear ar para o fundo da represa, para que as descargas de água do rio se tornassem ricas em oxigênio, relatou Paul Johnson, diretor do Instituto Aquário do Tennessee. Em 10 anos, o rio Duck mostrava uma notável recuperação e em trechos de seu percurso a população de mexilhões havia se multiplicado por 10. Os especialistas concordaram que os governos devem dedicar mais recursos materiais e atenção aos mangues para que as histórias de sucesso se multipliquem.
* Editora para a América do Norte e Caribe da IPS.
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