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A água volta ao Éden iraquiano

Por Katherine Stapp*

A reabilitação dos mangues da Mesopotâmia poderia beneficiar quatro milhões de pessoas

NOVA YORK.- Quinze anos depois de o extinto regime iraquiano ter utilizado velhos projetos do império britânico para secar os vastos mangues da Mesopotâmia, a região está lentamente voltando á vida. Durante milhares de anos essa zona foi um isolado oásis no deserto, com mais de 20 mil quilômetros quadrados de lagos, restingas e pântanos interconectados. Para alguns, ali ficava o Édem bíblico. Mas depois da Guerra do Golfo, realizada contra o Iraque em 1991 por uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, os nativos dessa região parcialmente localizada no que é o sul iraquiano – o povo ma’dan – se viram envolvidos em um falido levante de grupos xiitas contra o regime de Saddam Hussein (1979-2003).

Os pantanais, relativamente inacessíveis, se converteram em um paraíso para dissidentes e desertores do derrotado exército de Hussein. Para acabar com a rebelião, além de uma firme repressão, Bagdá construiu um elaborado e extenso sistema de drenagem e canais, utilizando planos de engenharia feitos pelos britânicos nos anos 50, durante o período de dominação colonial, mas nunca colocado em prática. Em apenas dois anos, os pântanos ficaram quase completamente secos. “A investida foi tão devastadora que, só por milagre, se salvou menos de 10% das áreas pantanosas originais”, disse o ministro iraquiano de Recursos Hídricos, Asan Janabi, em uma reunião sobre terras úmidas realizada no último dia 20 na sede das Nações Unidas, em Nova York.

Entretanto, os danos haviam começado antes. O centro da bacia mesopotâmica, delimitada pelos rios Eufrates e Tigre – os principais fornecedores de água e vasos comunicantes do mangue – é compartilhado por Iraque, Irã, Síria e Turquia. Turquia e Irã, nações localizadas corrente acima da bacia, começaram a represar lagos e pântanos para conseguir água e energia elétrica nos anos 50. Mas o problema ganhou proporções catastróficas no início dos anos 90. A área já foi o maior ecossistema de terras úmidas do Oriente Médio.Para as Nações Unidas, sua dissecação constitui um dos maiores desastres ambientais do mundo, comparável com a destruição da selva amazônica.

Também foi uma tragédia humanitária. Organizações de direitos humanos afirmam que as obras de drenagem combinadas com a repressão direta sobre a comunidade mad’dan, de cinco mil anos de antiguidade, literalmente apagaram a economia árabe dos mangues e reduziram a população local – que vivia em ilhas artificiais feitas com barro e canas – de 250 mil para 40 mil pessoas. A paisagem ressecada se manteve durante 15 anos, até março de 2003, quando os Estados Unidos iniciaram sua invasão militar do Iraque, sendo destruídos diques do rio Messhab, ao norte da cidade de Basra. Até agora, 20% da área original voltou a ser inundada, embora se desconheça o alcance exato da recuperação dos pântanos.

O Ministério de Recursos Hídricos coordena o trabalho de muitas organizações não-governamentais, agências das Nações Unidas e outras entidades, com apoio financeiro do Canadá, Itália, Japão e Estados Unidos. Janabi espera que cerca de quatro milhões de iraquianos recebem os benefícios econômicos da reabilitação final dos mangues mesopotâmicos, em setores como pesca, agricultura, turismo e educação. “Quando começamos, havia um grande vazio de informação, pois os dados (sobre o estado dos pântanos) haviam sido declarados segredo de Estado” pelo regime do deposto presidente Saddam Hussein, explicou Azzam Alwash, diretor do Éden Again Project, com sede nos Estados Unidos, que encabeça os trabalhos de recuperação.

A tarefa de Alwash se centrou em criar um modelo hidrológico para determinar quanto água se necessitaria para recuperar várias áreas dos pântanos. Os resultados iniciais sugerem que existe água suficiente no sul do Iraque para uma restauração parcial, se for desmontado o sistema de canalização instalado nos anos 90. O engenheiro, nascido no Iraque, explicou que o desenvolvimento da bacia vai requerer cerca de cem novas usinas de tratamento de água e um fornecimento centralizado de energia. Uma idéia é aproveitar a energia de bocas acesas de gás natural que agora é desperdiçada nessa região de grande riqueza em petróleo. Isto ajudaria inclusive a que o Iraque cumprisse a redução de emissões de gases causadores do efeito estufa contemplado no Protocolo de Kyoto, o tratado internacional obrigatório que entrou em vigor em fevereiro para combater a mudança climática.

Se conseguir-se aproveitar 4.500 megawatts de eletricidade dessa maneira, seria possível reduzir a emissão em 30 milhões de toneladas de dióxido de carbono (principal gás que provoca o efeito estufa), além de melhorar significativamente a qualidade de vida dos habitantes pobres dos pântanos, disse Alwash. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o primeiro a notar em imagens de satélite que os mangues desapareciam, está promovendo o desenvolvimento sustentável da região. Para isso criou a Rede de Informação de Mangues, que compreende o Fórum de Mangues Árabes, vários ministérios e a Fundação Iraque, que dirige o Éden Again Project. “Nos dirigimos a pequenas comunidades com planos de água potável, saneamento e tratamento da qualidade hídrica”, disse Chizuru Aoki, do Pnuma. “A intenção é apoiar tecnologias ambientalmente sustentáveis”.

* A autora é editora regional da IPS para a América do Norte e o Caribe.




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