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Agricultura em harmonia com o cosmos

Por Francesca Colombo*

Sem fertilizantes e sob o comando dos astros, as plantações biodinâmicas florescem na Itália.

MILÃO.- Maçãs mais suculentas, alface mais verde e leite mais puro; mel sem açúcar e vinho que não embriaga nem causa acidez; cenouras que se mantêm frescas por mais de duas semanas. Estes são alguns dos produtos da agricultura biodinâmica, que crescem sem degradação do solo nem fertilizantes ou pesticidas sintéticos, procurando adequar-se aos ciclos naturais do cosmos. Na Itália existem cerca de 400 empresas dedicadas a essa atividade, em cinco mil hectares e com faturamento anual de aproximadamente US$ 27 milhões, modesta quando comparada com a da agricultura convencional. Sua produção é apenas 5% do total italiano, entre outras coisas, por ter custos mais altos.

Os que a praticam utilizam húmus para fertilizar a terra e se inspiram em antigas técnicas. “Se trabalha em ciclo fechado, porque as plantas são organismos auto-suficientes e sãos. Isto ajuda a recuperar a fertilidade da terra e a entender a estrutura do húmus. O agricultor biodinâmico vive em harmonia com a natureza”, explicou ao Terramérica Marcelo Lo Sterzo, agrônomo e consultor dessa técnica. A agricultura biodinâmica, que começou a se desenvolver na Alemanha em 1924, se baseia na antroposofia, filosofia holística do austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), que inclui a influência do cosmos em plantas e animais, bem como orientações para a relação do ser humano com o restante da natureza.

Entre os métodos típicos estão a rotação no uso de solos e o ordenamento de semeadura e cultivos de acordo com os calendários lunar e planetário. Neste tipo de agricultura, ”prepara-se fertilizantes com substâncias naturais, que são mais nutritivas para as plantas e favorecem tanto a absorção pelas raízes quanto a fotossíntese”, disse ao Terramérica Mario Bavio, representante da Associação Biodinâmica para a região da Lombardia, norte da Itália. A empresa agrícola Cascine Orsine, com sede na cidade lombarda de Paviam, cultiva 350 hectares com este método. Produz leite, carne, queijo, cereais, arroz e farinhas, com máquinas especiais e cinco vezes mais mão-de-obra do que os produtores convencionais.

“Nosso produto principal é o leite. Cuidamos do solo e das vacas, não tiramos seus chifres, lhes damos uma alimentação especial e se ficam doentes as tratamos com homeopatia. Dormem sobre palha porque isso é o natural”, explicou Aldo Paravini, proprietário da Cascine Orsine. Os agricultores biodinâmicos afirmam que se respeitam o terreno, a qualidade das sementes e certos ciclos de cultivo, o cosmos influi positivamente em sua atividade. Por exemplo, entendem que a semeadura dá melhores resultados se realizada quando a órbita solar leva nosso satélite para mais longe da Terra.”Nossa atividade, que iniciamos há 15 anos, corresponde à nossa filosofia de vida”, afirmou Marco Rossi, dono da Verdeallogio, pequena empresa de apicultura biodinâmica em seis hectares de Giove, no centro da Itália, que produz mel e cosméticos a partir dele.

Aqui as abelhas não se alimentam com açúcar e não estão obrigadas a terem superprodução. A colméia é um lugar especial, afastado do barulho e das pessoas, segundo Rossi. Os defensores da agricultura biodinâmica asseguram que é a expressão mais avançada de um modelo de desenvolvimento ambientalmente sustentável e que supera a agricultura orgânica, também chamada biológica ou ecológica. Noventa e cinco por cento dos produtos biodinâmicos são vendidos frescos, e o restante são cosméticos, fibra de algodão e cânhamo. A agricultura biodinâmica passa por três controles para garantir sua qualidade, feitos pela Associação Demeter, organização ecológica que reúne três mil produtores de 40 países; a associação biotecnológica suíça Swissbio, e a União Européia no contexto de sua norma 2092/91, sobre agricultura biológica.

Dois terços da produção italiana são vendidos no norte da Europa, nos Estados Unidos, Canadá e Japão. Os preços são, em média, 50% mais altos do que os da agricultura convencional. Isso porque os custos iniciais são três ou quatro vezes maiores, mas os produtores biodinâmicos asseguram que depois de dois ou três anos de trabalho a relação muda drasticamente, já que por não utilizar produtos sintéticos o custo cai 40%.


* A autora é colaboradora do Terramérica.




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