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A paz é o caminho

Por Deepak Chopra*

O nacionalismo dos Estados Unidos deveria deixar de ser tóxico e começar a ser curativo.

CARLSBAD, ESTADOS UNIDOS.- Vivemos em um país que está a favor da paz? Milhões de norte-americanos acreditam piamente que sim, e nenhum fato repreensível os faz mudar de idéia. Eles dão as costas aos danos que os Estados Unidos produzem, quase irrefletidamente, ao redor do mundo. As grandes companhias norte-americanas que não toleram se submeter a regulamentações em seu país vão para o exterior, onde podem amontoar o cancerígeno amianto em enormes montanhas sobre os quais jogam crianças asiáticas; vender fortes produtos farmacêuticos nas vitrines da Tailândia sem necessidade de receita médica; provocar vazamento de gás letal em Bhopal, na Índia, e em geral causar danos ao meio ambiente da melhor maneira que lhes convier. Todas estas coisas são obra de norte-americanos.

Os Estados Unidos também são o maior produtor de armas no mundo e o país que manda seus soldados à luta para que sejam mortos com essas mesmas armas em mãos do inimigo. Além disso, é norte-americana a promoção do livre mercado, qualquer que seja seu custo. Henry James disse tempos atrás que ser norte-americano constitui um destino complicado. Ainda é assim. Alguém dizia que somos o único país odiado por todos e para onde todos querem se mudar. No ano passado assisti a um documentário sobre o sistema de livre mercado, que se converteu na nova religião tanto dos economistas quanto dos políticos conservadores. Um economista após outro elogiou os esforços dos Estados Unidos para introduzir em todos os países o “American way of life”.

Atribuiu-se ao livre comércio ter causado o fim do comunismo, o resgate do Chile das garras de ferro do general Augusto Pinochet e a liberação do mundo dos sufocantes monopólios e dos privilégios de classe. Em meio a este quadro adulador pintado no documentário, a câmara captou um vendedor de rua na Tailândia que vendia sanduíches em um carrinho. Seguimos este homem quando deixou Bangkok para trás e se dirigiu para o Norte até umas exuberantes áreas de veraneio freqüentadas por turistas ocidentais. A viagem terminou em um estranho e fantasmagórico local. Era um grande hotel em ruínas. Caminhando através de quartos em meio à construção, o vendedor explicou que fora o dono de todo o complexo, agora abandonado. Ele tinha sido um próspero empresário que reunira milhões de dólares para realizar seu sonho.

O ambulante havia conseguido o dinheiro no início dos anos 90 durante o “boom” da moeda tailandesa criado inteiramente por investidores norte-americanos. Uns poucos financistas sentados diante de seus computadores em Nova York levaram a economia tailandesa a um vertiginoso crescimento. Depois, tão rapidamente quanto antes, ficaram nervosos com a marcha do mercado monetário asiático e quase da noite para o dia o “boom” se converteu em uma queda catastrófica e o homem, que na segunda-feira estava construindo um luxuoso complexo hoteleiro, na terça-feira se viu vendendo sanduíches. A dupla face dos Estados Unidos como o melhor amigo do mundo e, ao mesmo tempo, seu pior inimigo, então me foi revelada de modo nítido.

Uma primeira alternativa é que os Estados Unidos se convertam em uma fortaleza isolada das realidades que existem fora de suas fronteiras. Nesse futuro ignoraremos a disparidade existente entre ricos e pobres que já causaram tanto dano. Os Estados Unidos possuem cerca de 5% da população mundial, mas consome aproximadamente um terço de seus recursos naturais. Emitimos a metade dos gases causadores do efeito estufa que, como o dióxido de carbono, estão ligados ao aquecimento global. Entretanto, na fortaleza norte-americana nada disso importará tanto quanto continuar sendo ricos e vivendo confortavelmente.

A segunda alternativa leva à verdadeira globalização. Os Estados Unidos se dedicarão a tudo o que atualmente está sendo ignorado. Assumirá a posição de reverter o aquecimento global, proteger outras economias, fechar a brecha entre nações ricas e pobres e acabar com a devastadora pandemia de aids. Para que tudo isto ocorra, entretanto, nosso tipo de nacionalismo deveria deixar de ser tóxico e começar a ser curativo. O caminho da paz está vinculado à segunda alternativa. Se o futuro dos Estados Unidos é o de se converter em uma fortaleza isolada do resto do mundo, então a paz não tem uma verdadeira oportunidade. Seguir na direção de um nacionalismo tóxico é uma receita para o desastre.


* Médico e autor de best-sellers sobre temas espirituais. Esta coluna é parte de seu mais recente livro Peace is the way, que será lançado dia 18 de janeiro. Direitos reservados IPS.




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