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Caça às aves, de binóculo

Por Yensi Rivero*

Observadores de todas as idades ajudam a identificar aves na América Latina. Cerca de 649 espécies podem desaparecer na região até 2020..

CARACAS.- A esperança de ver um papagaio-campeiro pode ser motivo suficiente para os observadores de aves que de binóculo em punho empreendem a missão de identificar a maior quantidade possível de espécies em uma jornada, para conhecer seu habitat, costumes e fatores de ameaça. Na América Latina, a observação de aves ganha adeptos de todas as idades e profissões. Com orientação de especialistas e apoio de grupos locais ou coalizões ambientalistas, como Birdlife International, estes apaixonados admiradores das aves as procuram em parques, rios, savanas, mangues e florestas.

Colômbia e Venezuela, primeiro e quinto lugar em diversidade biológica da América Latina, organizam contagens periódicas de aves como forma de obter informação para sua base de dados e assim definir linhas de ação na recuperação de espécies. “A Rede Nacional de Observadores de Aves (RNOA) tomou a iniciativa de coordenar os censos destas espécies na Colômbia há quatro anos. Antes, as associações e grupos ornitológicos realizavam estas atividades por conta própria, o que não permitia unificar e padronizar a informação”, explicou ao Terramérica a coordenadora da rede, Camila Gómez.

Os censos ajudam a saber quantas espécies existem, bem como conhecer a permanência de certo número de indivíduos em distintas localidades através do tempo. “Conhecer quantas espécies existe em um país é útil para a conservação. Como saber o que se deve conservar se não se sabe o que existe?”, questionou a especialista. Nove por cento das 1.800 espécies de aves da Colômbia sofrem algum grau de risco. “A redução do habitat, seu uso inadequado e a falta de conhecimento são as principais ameaças”, afirmou. Os habitat mais vulneráveis são os mangues de terras altas, os pântanos, as florestas úmidas, secas e andinas e as savanas naturais. “As espécies mais ameaçadas são as endêmicas, as que apresentam indícios de distribuição reduzida e as vítimas da caça ou comércio ilegal de espécies”, disse Camila.

No caso venezuelano, a observação de aves remonta à década de 70. Mais tarde, começaram a se realizar avistamentos de nascimentos, seguindo a tradição de países como os Estados Unidos. “Mais recentemente, seguimos também a iniciativa da Birdlife International, que organiza uma contagem conjunta de vários países no mês de outubro”, disse ao Terramérica a integrante da organização não-governamental Audubon da Venezuela, Clemência Rodner. Este país conta com 1.490 espécies de aves, e entre as mais ameaçadas estão as que habitam as florestas. A extensão da fronteira agrícola e de atividades de mineração representa um sério perigo para a vida de muitas aves, disse Rodner, cuja organização lidera a atividade de avistamentos na Venezuela.

A arara verde e o papagaio-campeiro foram identificados como “em perigo” durante a última contagem feita em outubro de 2004. Em outros casos, a pressão humana se fecha sobre espécies procuradas por sua carne, como as pertencentes à família dos tinamídeos (inhambu-de-cabeça-vermelha e inhambu-de-perna-vermelha, entre outras galináceas), não só na Venezuela, mas em toda a América do Sul. Em países como Brasil e Colômbia, líderes em biodiversidade, a extinção ameaça 114 e 77 espécies, respectivamente. Na Venezuela foram identificadas pelo menos 40 espécies endêmicas com risco de desaparecerem. Dados da Birdlife International estimam que das 9.170 espécies de aves no mundo, 4.500 (45%) se encontram na América. Desse total, 649 correm risco de extinção antes de 2020.

A América Latina abriga “nichos representativos que nos tornam privilegiados. O caso do Equador é emblemático, pois sendo um país pequeno se coloca entre os primeiros quanto à biodiversidade, devido às mudanças de altitude que apresenta”, disse Rodner. Tal riqueza gera dificuldades na hora de estabelecer as categorias das espécies, daí a importância dos censos para orientar certas investigações. Muitas aves “se encontram sob um alto grau de ameaça simplesmente porque não se conhece quase nada sobre seus hábitos, distribuição, abundância e história natural”, garantiu Gómez. Os especialistas não consideram que os avistamentos de aves possam ser um indicador científico. Porém o acúmulo de contagens permite perceber tendências do ciclo vital das aves.

O balanço pode ser negativo, quando se nota redução no número de indivíduos, ou positivo, em caso contrário. “Há alguns anos era possível observar em parques de Caracas aves como o cardeal bandeira alemã (paroaria gularis). Hoje em dia, é quase impossível e isso nos mostra a forte pressão que ameaça essa espécie”, explicou Rodner. Iniciativas com as da Audubon da Venezuela são reproduzidas com sua colaboração a partir de empresas privadas. A fazenda Hato Piñero, nas planícies centrais venezuelanas, abriga todas as espécies de fauna das planícies do Orenoco e ganhou fama como observatório de aves, algumas ameaçadas. Nessa propriedade de 80 mil hectares “se concentram 27% das aves que habitam o país”, disse ao Terramérica o diretor-executivo da Fundação Hato Piñero, Edgar Useche.

“Organizamos visitas com turistas nacionais e estrangeiros em áreas destinadas à observação. Os visitantes se divertem aprendendo e se mantém a expectativa de observar alguma espécie em extinção”, explicou Useche. A Fundação Hato Piñero realiza um inventário de espécies de flora e fauna cujos dados serão usados para a realização de projetos de conservação. A informação obtida pela Audubon em suas contagens é enviada à sede regional da Birdlife International em Quito e dali para outras instâncias que determinam se é preciso algum tipo de financiamento para planos especiais.

“Queremos fazer o maior inventário de aves do país e assim realizar uma contagem de espécies que não se repetem”, garantiu Marieta Hernández, presidente da Audubon da Venezuela, durante uma caminhada de avistamento em outubro de 2004. Na Colômbia, existe uma base de dados de livre acesso alimentada anualmente com informação dos censos realizados. Em pouco tempo estará pronta uma grande base de dados chamada DaTaves, com a contribuição de experiências de pessoas comuns em todo o país. No mundo existem cerca de 70 milhões de observadores de aves, e especialistas estimam que esse número corresponde a 35% do total do ecoturismo internacional.

* A autora é colaboradora do Terramérica. Com apoio de Yadira Ferrer (Colômbia).




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