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Caça de focas se estende a placas de gelo flutuantes

Por Stephen Leahy*

O Canadá continuará a matança de milhares de filhotes de foca, a partir do dia 12 de abril, na península do Labrador. Ativistas dos EUA propõem um boicote.

Brooklin, CANADÁ.- A controvertida matança de focas para fins comerciais no Canadá se estenderá, a partir do dia 12 de abril, às placas de gelo flutuantes no sul da península do Labrador, enfrentando o rechaço unânime de ativistas em favor dos direitos dos animais. Nas duas últimas semanas, quase cem mil filhotes foram mortos a pauladas ou a tiros no golfo de San Lorenzo, sudeste do país, no início da temporada de caça comercial, na qual se prevê obter cerca de 319 mil focas arpa (phoca groenlandica), assim chamada pela forma de uma grande mancha negra sobre a pele branca dos animais adultos.

No dia 12, os caçadores se deslocarão para desolados gelos flutuantes, cerca de cem quilômetros mar adentro, onde não caçavam desde o início dos anos 80 devido à distância e ao perigo. Praticam “crueldades inimagináveis, com focas feridas que se afogam no próprio sangue ou são despeladas vivas”, destacou Rebecca Aldworth, da Sociedade Humana dos Estados Unidos (USHS), que defende um boicote a toda produção pesqueira canadense. “É a maior matança de animais marinhos no mundo”, afirmou ao Terramérica a ativista, que presenciou a caça este ano e em seis anteriores.

As vítimas da caça são exemplares desmamados, com idade entre 12 e 90 dias, que permanecem nas superfícies geladas perto do local onde nasceram até serem capazes de buscar alimentos sozinhas debaixo d’água. Os caçadores vão em busca de suas peles, que possuem uma camada impermeável de pelo curto. O governo canadense considera que se trata da legítima exploração comercial de um recurso natural relativamente abundante. Em 2002, calculou que havia em seu território cerca de cinco milhões de focas arpa, e autorizou para os três anos seguintes a caça de aproximadamente 950 mil exemplares. Este ano prevê-se uma nova autorização trienal, provavelmente para uma quantidade semelhante.

“Nossa meta é simples: manter nos próximos anos uma população de animais saudável, forte e sustentável”, afirmou em um comunicado o ministro de Pesca e Oceanos, Geoff Regan. Cientistas de vários países, junto com representantes do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (Ifaw) e do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), anunciaram que revisarão os cálculos governamentais sobre a população de foca arpa. “Os cálculos de organismos oficiais canadenses relativos à pesca foram considerados errôneos no passado, especialmente no caso do bacalhau (gadus morhua), mas sua avaliação da quantidade de focas arpa parece bastante certeira”, disse ao Terramérica o especialista Ransom Myers, biólogo da Universidade de Dalhouisie, em entrevista através de correio eletrônico.

Myers pensa que a atual caça é sustentável e que não se trata de um problema de conservação, mas de direito dos animais. No final dos anos 70, a divulgação internacional de imagens de filhotes recebendo pauladas até morrerem levou ao colapso o mercado de peles de foca, mas naquele momento a população da espécie havia caído bruscamente para menos de dois milhões. Ativistas como Aldworth questionam a sustentabilidade da caça, mas sobretudo a rechaçam por considerá-la extremamente cruel. Os paus utilizados para matar as pequenas focas, chamados hakapiks, têm um prego na extremidade com que se golpeia os animais na cabeça, quando não são alvejados a partir dos barcos.

Em 2002, a Associação Médica Veterinária do Canadá investigou o uso de hakapiks e concluiu que, apesar da aparência, eram uma ferramenta eficaz e tão piedosa quanto os métodos de matadouros comerciais, sempre que manejados corretamente. Entretanto, Aldworth argumentou que a utilização correta do hakapik é difícil sobre o gelo e com mau tempo. “Também é difícil matar os filhotes quando atiram contra eles de um barco, e muitas vezes jazem feridos e agonizantes durante horas”, afirmou. O Ifaw, que documenta a matança de focas há três décadas, sustenta que poucos caçadores se preocupam em verificar se o filhote está morto, antes de começar a tirar a pele. Em certas ocasiões, um só caçador abate e junta até oito animais e vai arrancando-lhes a pele alternadamente, daí o coro de gritos e lamentos indescritíveis.

“O que aconteceu com a piedade, a beleza, o valor de um coração que pulsa?”, este é um dos slogans do Ifaw em sua campanha para salvar as focas. O governo canadense afirma que menos de 5% dos animais caçados sofrem desnecessariamente, e assegura que funcionários supervisionam de perto o trabalho dos caçadores, para que cumpram as normas sobre o assunto. “Este ano, vi vários grupos de caçadores, que somavam cerca de 800 pessoas, mas nenhum funcionário”, garantiu Aldworth. Ativistas apresentaram provas de mais de 660 violações das normas de caça, sem que ninguém tenha sido processado, ressaltou. A Bélgica proibiu a venda de qualquer produto elaborado a partir da caça de focas,e é provável que Grã-Bretanha, Itália e outros países da União Européia sigam esse mesmo caminho.

Aproximadamente mil pessoas se dedicam a caçar focas no Canadá, em sua maioria pescadores da região, que dessa maneira conseguem alguns milhares de dólares adicionais em duas ou três semanas. Em 2000, cerca de 40% dos canadenses disseram concordar com essa caça. Por outro lado, uma pesquisa recente feita nos Estados Unidos mostrou que 79% dos entrevistados disseram estar contra e dispostos a apoiar um boicote à produção pesqueira do Canadá, como propõe a USHS. As exportações canadenses de produtos pesqueiros para os Estados Unidos somam cerca de US$ 3 milhões por ano. O destacado ativista Paul Watson, da Sociedade de Conservação Pastro Marino, anunciou que observará e registrará nos próximos dias a caça na península do Labrador de seu barco, o Farley Mowat, apesar de ter sido proibido pelo governo. “O Canadá não quer que vejamos e documentemos o que acontecerá nessas desoladas e solitárias placas de gelo”, afirmou Watson em uma carta aberta.

* O autor é colaborador do Terramérica.




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Enlaces Externos

Para unir-se à campanha do Ifaw entre no site

Ministério de Pesca e Oceanos do Canadá

Sociedade Humana dos Estados Unidos, sobre caça de focas

Sociedade Humana dos Estados Unidos, sobre o boicote

Sociedade de Conservação Pastor Marino

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