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Turismo excessivo em Machu Picchu |
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Por Abraham Lama*
O governo peruano prepara novo plano para proteger a legendária cidade inca. Setores ligados ao turismo se opõem à redução de visitas.
LIMA .-O governo do Peru prepara um novo plano
de conservação para sua atração arqueológica mais importante: a
cidade inca de Machu Picchu, ameaçada pela afluência excessiva de
turistas. Entretanto, setores da indústria local do turismo são
contra qualquer tentativa de reduzir as visitas. Construída no final
do século XIV, Machu Picchu é a mais extraordinária edificação do
império inca, que se espalhou pelo território que hoje está dividido
entre Peru, Equador, Bolívia Chile e parte da Argentina. Nas altas
temporadas, quando não chove, cerca de 2.500 turistas entram diariamente
na cidade, descoberta em 1911 pelo explorador norte-americano Hiram
Bingham.
A maioria dos visitantes utiliza a via férrea para chegar a Machu Picchu, localizada no alto de uma montanha no Estado de Cuzco, mas aproximadamente 400 fazem um percurso de dois dias a pé pelos “caminhos do Inca”, atravessando paisagens de incrível beleza e acompanhados por porteadores (camponeses que carregam sobre os ombros equipamentos e utensílios para cozinhar), na média de quase dois por turista. Essas visitas e os deslizamentos de terra nas encostas das montanhas foram apontadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como um grave risco para o local, que é patrimônio cultural da humanidade. A passagem descontrolada de milhares de turistas deixa sinais claros de desgaste na zona arqueológica, que possui 31 mil hectares de área.
O trânsito pelos caminhos do Inca contamina e ameaça a rica biodiversidade da região, onde se calcula existir cerca de 350 variedades de orquídeas e diversas espécies de fauna em extinção, como o urso-de-óculos (Tremarctos ornatus). Em 2000, a Unesco pediu urgência ao governo peruano a elaboração de um plano de controle de visitas e de manejo de deslizamentos de terra. Em resposta, o governo do presidente Alejandro Toledo, através do Instituto Nacional de Cultura (INC) e do Instituto de Recursos Naturais (Inrena), preparou um Plano Piloto de Preservação do Santuário Histórico de Machu Picchu, que em breve será apresentado à consideração da Unesco. O plano prevê até 2006 coordenar ações e projetos orçamentários para a região, e entre 2006 e 2010 executar investimentos de US$ 132,5 milhões em projetos que incluem um sistema de controle por satélite dos deslizamentos de terra e trabalhos de prevenção e manutenção da cidadela e dos caminhos do Inca.
As diretrizes da proposta foram expostas em dezembro a representantes de municípios, organizações ambientalistas, grupos de arqueólogos, hoteleiros e pessoal dos transportes, agências de turismo e inclusive a Associação dos Porteadores. “É óbvio que os setores ligados à indústria turística não querem nem ouvir falar em reduzir a massa de visitantes. Não pudemos chegar a nenhuma conclusão nessa assembléia desordenada, da qual participaram 280 pessoas que representavam diversos interesses, alguns deles contraditórios”, disse ao Terramérica o engenheiro Marco Pastor, coordenador da Intendência de Áreas Protegidas do Inrena. Assim, o município de Águas Calientes, um povoado que surgiu em torno do lugar onde os turistas descem do trem para se dirigir a Machu Picchu, se prepara para enfrentar qualquer tentativa de redução das visitas.
Maria Elena Córdova, diretora de Gestão do INC, antecipou que o Plano Piloto não pretende reduzir a média máxima atual de visitantes, mas deseja apenas regulamentar a afluência para eliminar ou atenuar os impactos negativos. Consultas públicas sobre o projeto acontecerão nos dias 11 e 12 de maio, com a participação de representantes da sociedade civil, do governo regional, dos municípios, das comunidades camponesas, associações profissionais e agentes de viagens. “É preciso ouvir todos, e embora saibamos que será difícil satisfazer a todos, devemos incentivar a maior participação possível para aprovar o Plano Piloto”, disse ao Terramérica Jorge Pacheco, gerente da Unidade de Gestão de Machu Picchu.
O aumento das tarifas de acesso à zona; regulamentação da afluência para, entre outras coisas, melhorar o manejo do lixo que os turistas deixam em sua passagem, bem como a promoção de outros sítios incas no país, são algumas das propostas em estudo. O diretor do escritório em Cuzco do INC, David Ugarte Vega Centeno, propôs aumentar em 50% as tarifas de acesso a Machu Picchu, “para conseguir maiores recursos e limitar parcialmente a afluência de turistas”. Luis Antonio Mendoza e Walter Valderrama, ambos integrantes da Associação Peruana de Turismo de Aventura e Ecologia, consideram inevitável reduzir o fluxo de visitantes para proteger esse patrimônio e propõem estudar medidas de regulamentação semelhantes às existentes em sítios turísticos no Nepal, na Ásia.
“Agora passa pelos caminhos do Inca uma procissão de pessoas que, sem querer ou sem se importar, depredam o ecossistema à sua passagem”, disse Mendoza ao Terramérica. “No Nepal, os visitantes têm de aceitar que seja feito um inventário do que carregam ao entrar, e depositar uma quantia em dinheiro como garantia para cobrir as altas multas se deixarem abandonados vasilhames, plásticos ou qualquer outra coisa no local que visitaram”, explicou. Valderrama afirmou que para descongestionar o caminho para Machu Picchu pode se promover outras rotas, também incaicas porém, mais largas ou complexas, “e, por conseguinte, com maior desafio, que é o que se busca no turismo de aventura”.
* O autor é colaborador do Terramérica.
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