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Montes Azuis, selva da discórdia

Por Diego Cevallos*

Ambientalistas têm posições contrárias sobre o que fazer com a reserva mexicana, açoitada por múltiplos conflitos, do desmatamento ilegal até a presença guerrilheira.

MÉXICO.- Sobre a Reserva da Biosfera Montes Azuis, no Estado mexicano de Chiapas, correm rios de argumentos e avaliações opostas. É que a região reúne uma explosiva mistura de assentamentos humanos irregulares, influência guerrilheira, desmatamento, queimadas, saque de espécies, financiamento internacional e visões sobre como manejar sua riqueza. Os 331,2 mil hectares de Montes Azuis representam para o México a região de maior conflito em matéria ambiental, e em seu manejo são conjugados muitos dos desafios presentes e futuros de outras reservas no mundo, disse ao Terramérica Julia Carabias, ex-ministra mexicana de Meio Ambiente, e premiada este ano com o prêmio Campeões da Terra, concedido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

A região e seu entorno, a selva Lacandona, constituem a mais importante reserva tropical úmida da América do Norte e o principal abastecedor de água doce do México. Ali está a maioria de árvores tropicais do país, bem como 33% dos répteis, 80% das espécies de borboletas e 32% das aves. “A região é saqueada por empresas estrangeiras e interesses ligados à bioprospecção, que prejudicam os indígenas assentados na área e por isso os expulsa”, disse ao Terramérica Miguel Angel García, coordenador da Madeiras do Povo do Sudeste, uma associação civil que trabalha na região. Entretanto, Carabias classifica esses argumentos de “falácias”.

São acusações que “usam termos como biopirataria e bioprospecção, que motivam e comovem, mas não sabem do que falam”, afirmou a ex-ministra, integrante de uma ong que administra uma estação de pesquisa na região, onde se capacitam administradores de reservas naturais. José Zuñiga, diretor da reserva, concorda: “Há muito ‘amarillismo’ (informações falsas ou exageradas) em torno de Montes Azuis, enquanto os resultados dos programas em andamento e a realidade crua e visível a quase ninguém interessa”. O funcionário garantiu ao Terramérica que na reserva 85% da vegetação está intacta e que os processos de recolocação, e não desalojamento, de populações nativas que chegaram ao lugar sem autorização são transparentes, enquanto os programas de pesquisa são profissionais e estão controlados. “Não há nada de bioprospecção”, enfatizou.

Na reserva, declarada como tal em 1978, trabalham diferentes organismos governamentais junto com quase uma dúzia de ongs, e há projetos de pesquisa que envolvem dinheiro da Organização das Nações Unidas, da União Européia e de universidades estrangeiras. “Há visões muito acentuadas e irredutíveis, e tudo é produto de posições políticas e interesses diversos”, disse ao Terramérica um pesquisador estrangeiro que trabalha na região e pediu que para não ser identificado, para “evitar que me ataquem”. Montes Azuis suporta, desde os anos 70, fortes pressões por problemas sociais, políticos e até religiosos, que se expressam em novos assentamentos humanos, agricultura não sustentável e destruição do entorno através de incêndios e desmatamento.

Este ano, cerca de 300 hectares da reserva foram queimados, depois que camponeses colocaram fogo para limpar suas terras. A situação de conflito na região disparou em 1994 quando fez sua aparição em Chiapas o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Parte das bases sociais desse grupo está na selva Lacandona, incluído Montes Azuis, aonde chegaram fugindo da violência ou por ordem de seu comandante. Também há nativos contrários aos zapatistas e muitos que chegaram simplesmente em busca de um pedaço de terra para sobreviver. Ambientalistas afirmam que as pressões sobre a reserva e a selva Lacandona, que no total tem extensão de aproximadamente 500 mil hectares, são imensas.

Essa selva tinha há um século cerca de dois milhões de hectares, e sua população passou, entre essa época e hoje, de menos de 20 mil para mais de 600 mil pessoas. A reserva e a área de selva “perdem, pouco a pouco, sua viabilidade", advertiu em 2002 o então secretário de Meio Ambiente, Victor Lichtinger. Rodeada hoje por vários quartéis militares instalados depois do surgimento em público do EZLN, a reserva atrai interesses de multinacionais farmacêuticas e produtoras de sementes. Além disso, “arrasta um grave e confuso problema agrário desde a década de 70, quando o governo de então entregou propriedades agrárias a grupos nativos, com o único interesse de saquear a madeira”, afirmou García.

Segundo o diretor da reserva, que até 2000 não contou com um plano de manejo integral, ali vivem 15 mil indígenas choles, lacandones, tzeltales, tzotziles e tojolabales, com direitos legalmente reconhecidos, e cerca de 500 pessoas consideradas invasoras. O funcionário contou que, graças aos processos de negociação realizados com populações nativas invasoras, há cinco anos seu número baixou de mil para a metade. Carabias atribuiu esse êxito ao atual secretário de Meio Ambiente, Alberto Cárdenas. Zúñiga indicou que as negociações continuarão para tirar os recém-chegados da reserva. Como na maioria das questões relacionadas com a reserva, não há acordo quanto aos números.

García afirma que aqueles que têm direitos em Montes Azuis não passam de 5,6 mil pessoas e que o outro grupo, chamado “invasores”, soma menos de dois mil. Em seu entender, as chamadas recolocações de nativos são na realidade expulsões. “Poderia haver uma reserva com gente e em mãos deles (nativos)”, afirmou o ativista. Mas este modelo se opõe “ao conceito de reservas de biosfera, sem pessoas e contra as pessoas, que é o que se conduz em Montes Azuis e foi imposto pelos países desenvolvidos”, disse. “Agora a biodiversidade se converte em bancos genéticos, de altos interesses para as indústrias de biotecnologia, agroalimentar e farmacêutica e para as engarrafadoras de água”, afirmou García.

Quando lhe foi pedido para indicar quem trabalha por interesse e faz a bioprospecção que denuncia, respondeu que é difícil fazer isso, “pois as multinacionais se escondem atrás de instituições e universidades locais”. Na lista oficial que maneja o diretor do parque sobre os trabalhos realizados em Montes Azuis não aparece nenhuma multinacional. Há dez projetos em marcha que incluem inventários de flores, situação de hábitat em zonas de cavernas, efeitos de “perturbação antropológica” sobre mamíferos, estudos de diversidade em espécies de baunilha e outros sobre aves e caça na região. As instituições que realizam esses trabalhos são basicamente mexicanas, embora também haja uma universidade norte-americana, do Estado da Califórnia.

* O autor é correspondente da IPS.



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