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“Lula frustrou nossas expectativas”

Por Mario Osava*

Faltou pulso político ao presidente do Brasil para cumprir seus compromissos com os indígenas, disse ao Terramérica o líder das etnias amazônicas, Jecinaldo Barbosa Cabral.

RIO DE JANEIRO.- Aos 28 anos de idade, Jecinaldo Barbosa Cabral é líder da Coordenação de Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), o maior grupo de seu tipo no país. Como professor, defendeu e espalhou o ensino bilíngüe, começando por sua comunidade sateré-mawé. Depois criou um movimento educacional, passou a presidir o Conselho de Educação Indígena do Amazonas e finalmente chegou a coordenador-geral da Coiab, que reúne 75 organizações representativas de 165 etnias e mais de 200 mil pessoas, cerca de 50% da população indígena do Brasil.

Os sateré-mawé se destacam por sua “experiência intercultural” ao falarem o português além de sua língua própria, e também pelo cultivo sustentável do guaraná (Paullinia cupana), fruto da Amazônia usado na fabricação de refrigerantes. Cabral conversou com o Terramérica sobre os desafios dos povos indígenas, sobretudo o acesso à terra, no momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta exaltadas reclamações de camponeses pela aceleração da reforma agrária.


P- Por que a Coiab apóia o Movimento do Sem-Terra, que chegou a Brasília no dia 17 de maio, para pedir a reforma agrária?

R- O MST não existiria se já estivesse solucionado o problema da concentração de terras e renda no Brasil. Parte das pressões sobre as terras indígenas tem origem nessa injustiça, questionada pelos trabalhadores rurais sem-terra organizados. A reforma agrária pode sem dúvida permitir uma nova ordenação territorial que gere justiça social e convivência harmoniosa entre camponeses e indígenas, ao democratizar o acesso à terra.

- O governo Lula responde às expectativas que gerou?

- Em geral, frustrou as expectativas. Faltaram a ele pulso e vontade política para cumprir seus compromissos com os indígenas, suas promessas eleitorais. Isto ficou claro na demarcação de terras, na desarticulação de ações de saúde, educação e sustentabilidade, entre outras, e na exclusão dos povos indígenas do processo de elaboração e implementação da política indigenista.

- Como acredita que evoluirá a situação dos indígenas brasileiros, sobretudo da Amazônia, na próxima década?

- Dependerá da soma de vários fatores, entre eles a consolidação do processo de organização interna, a conciliação entre formas tradicionais de vida e o modo adquirido no contato com a sociedade que nos cerca, e a eficiência das políticas públicas que buscam regularizar o registro das terras indígenas, e das ações dirigidas às nossas comunidades em matéria de sustentabilidade econômica, saúde, educação, revitalização da identidade cultural. Tudo isso significará fortalecer o protagonismo dos povos indígenas como sujeitos políticos, demandantes e depositários do direito á autonomia, no contexto institucional definido no acordo com o Estado brasileiro.

- Quais metas a Coiab pretende alcançar no futuro próximo?

- Queremos consolidar a Coiab política e institucionalmente para que atenda às demandas de suas bases, diante das pressões externas do mundo globalizado e ao cerco das forças políticas e econômicas sobre os territórios indígenas e seus recursos naturais.

- Acredita que todas as terras indígenas estarão demarcadas em dez anos?

- Lutaremos por isto. É um objetivo que depende do avanço do movimento indígena. Não queremos demarcação apenas no papel, mas que as áreas não sofram mais invasões e que nelas sejam desenvolvidos projetos sustentáveis. Então, sim, poderemos falar em garantias de território.

- Quais são os inimigos e os aliados para atingir tais metas?

- Continuarão opostos os setores hegemônicos que, em nome do desenvolvimento, consideram os indígenas como expressão de desprezo, primitivismo e inviabilidade econômica, como uma cultura anacrônica que deve ser assimilada, isto é, extinta, em favor da unidade nacional. São setores que vêem na demarcação de terras indígenas e nossa organização como ameaças à soberania e integridade territorial do país, esquecendo que foram os indígenas que garantiram a proteção das fronteiras e das imensas reservas de riquezas naturais e biodiversidade do Brasil. Aliados serão aqueles que reforçarem o avanço organizacional, o fortalecimento do protagonismo indígena e a criação de condições dignas para a continuidade física e cultural dos povos indígenas.

- Que articulação o movimento indígena pode ter com os ambientalistas?

- Será uma articulação de sucesso se houver convergência de expectativas, sobretudo com os setores que apóiam as propostas dos movimentos indígenas e têm uma visão ampla e integrada do universo, da natureza, que inclui a diversidade social, e não somente vegetais e animais.

- O movimento indígena mostrou sua força política em países como Bolívia e Equador. E no Brasil?

- A força do movimento indígena brasileiro se reflete em suas ações locais e em iniciativas de articulação nacional que incidem na política governamental, especialmente na relacionada com os indígenas. Queremos agora construir um Parlamento indígena onde todos os povos indígenas estejam representados. Constituiria um marco de novas relações entre o Estado brasileiro e as comunidades. Essa força, articulada com experiências de outros países, poderia desenhar uma nova era, onde a diversidade, a plurietnia e o multiculturalismo não seriam vistos como obstáculos, e sim como riqueza da nação.

* O autor é correspondente da IPS.




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