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Peruanos pedem a privatização da água |
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Por Abraham Lama*
“Queremos
água agora” é o lema em bairros pobres da capital do Peru, onde
se paga até US$ 20 por cinco metros cúbicos vendidos por caminhões-pipa.
LIMA.- Um setor da população dos bairros mais
pobres de Lima, reunidos na Frente dos Sem-Água, pede a privatização
dos serviços de água potável e saneamento, diante da incapacidade
do Estado de fornecê-los. Grupos de moradores dos bairros Lomo de
Corvina, Puente de Piedra e Huaycán participaram nas últimas três
semanas de marchas pela privatização da água, carregando cartazes
com a inscrição “queremos água agora”. Eles foram convocados pela
Frente, que é liderada por Abel Cruz, dirigente de Puente de Piedra.
Ali em muitas áreas as casas têm luz elétrica, telefone até televisão
a cabo, mas nenhuma conta com fornecimento de água potável encanada.
Os moradores têm de comprar de caminhões-pipa.
A situação é pior em Lomo de Corvina, uma “ampliação”, como são
chamados os bairros recém-surgidos através de invasões, no extremo
sudeste de Lima. Suas casas, a maioria feita de junco e carentes
de energia elétrica, se espalham na ladeira oriental de uma montanha
de pedra e areia nos confins do distrito operário Villa el Salvador.
Ali vive Rosaura Dávila, de 38 anos, mãe solteira de três filhos
e vendedora ambulante. Sua casa não tem água potável, e para preparar
a comida, para asseio e lavar a roupa compra a cada dois dias um
recipiente de cem litros de água por quatro soles (US$ 1,25). A
esse preço, dez vezes mais caro do que pagam os afortunados moradores
de bairros pela ligação domiciliar, a água para Rosaura e seus vizinhos
de Lomo de Corvina é um bem escasso, que deve ser consumido com
cuidado.
“As condições de salubridade nas áreas sem água são quase catastróficas:
a maioria dos caminhões-pipa é de propriedade privada e não há controle
sanitário da água que transportam, de modo que abundam parasitas
e a conseqüente desnutrição. Não é de se estranhar que a mortalidade
infantil nessas zonas seja o dobro da média do restante da cidade”,
afirma a pediatra Irmã Morales. Nos bairros urbanizados de classe
média e pobre de Lima, cada família consome de 15 a 20 metros cúbicos
de água por mês e paga por isso cerca de US$ 8, diz a socióloga
Patrícia Teullet. Nos bairros paupérrimos, as famílias têm que pagar
até US$ 20 por mês por apenas cinco metros cúbicos de água, acrescenta.
A exigência de privatização, potencializada pela próxima concessão
de serviços hídricos em outras cidades do país, é rejeitada por
sindicatos e organizações de usuários de áreas abastecidas, que
temem demissões em massa e aumento de tarifas. As autoridades calculam
que é necessário investimento de US$ 4,1 bilhões para dotar de água
potável e saneamento 19% das moradias urbanas do país que carecem
desses serviços. Segundo o ministro da Economia, Pedro Pablo Kuczynski,
“em vista da falta de recursos fiscais e da urgência de outras necessidades
sociais, a única solução rápida possível para este problema é abrir
caminho para o investimento privado”.
“Na década de 90 se investia no Peru de US$ 200 milhões a US$ 400
milhões anuais na expansão dos serviços de água e esgoto, mas atualmente
o investimento público nesse setor não passa dos US$ 50 milhões,
e não há recursos orçamentários para aumentar essa quantia”, admitiu
em conversa com o Terramérica Sergio Salinas, presidente da Superintendência
Nacional de Serviços de Saneamento (Sunass) e firme defensor da
abertura ao setor privado. A proposta é rejeitada por alguns congressistas
de centro e de esquerda, e também por analistas independentes, como
o sociólogo Edgar Quintanilla, do Instituto Peruano de Economia.
O especialista afirma que a experiência internacional de privatização
desses serviços na Inglaterra, África do Sul, Argentina e Bolívia
foi negativa e derivou em aumento de tarifa. Nos dois países latino-americanos
mencionados houve protestos populares.
A questão pode ser central na campanha para as eleições gerais do
próximo ano. Dois pré-candidatos presidenciais, o neoliberal Kuczynski
e o congressista populista Luis Guerrero, anunciaram que o eixo
de suas campanhas eleitorais será o tema da privatização da água,
o primeiro a favor e o segundo contra. Guerrero anunciou a criação
de uma Comissão Nacional em Defesa da Água e da Vida, que está convocando
para o dia 3 de junho uma marcha simultânea em várias cidades do
país contra os projetos de privatização. Mas em algumas áreas carentes
de água potável, muitos diretamente envolvidos se mobilizam com
a intenção contrária.
Moradores de dez assentamentos de Tumbes caminharam pelo centro
dessa cidade costeira do norte, no dia 23 de maio, com baldes e
garrafas vazias, em uma mobilização denominada “A marcha dos sedentos”.
Nessa cidade, os serviços de água potável e saneamento serão entregues
em concessão no dia 11 de julho, e entre os interessados está uma
empresa chilena, outra colombiana e quatro peruanas associadas a
multinacionais. Este ano também haverá privatizações em Piura, perto
de Tumbes, e em Huancayo, cidade da serra central onde há mobilização
popular contra essa medida. Segundo a Sunass, no próximo ano haverá
concessões de serviços em outras duas cidades da costa norte e uma
da selva central.
* O autor é colaborador do Terramérica.
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