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Atrás das pegadas dos dinossauros |
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Por José Luis Alcázar*
Uma rocha ao sul da Bolívia revela segredos de 294 espécies destes fabulosos animais, desaparecidos há 65 milhões de anos.
LA PAZ, Bolívia.- Mais de cinco mil pegadas de dinossauros descobertas em Cal Orko, ao sul da Bolívia, obrigam a reconstruir a pré-história do planeta e a corrigir erros científicos sobre esses imensos animais que dominaram a paisagem há cerca de 65 milhões de anos, quando desapareceram da face da Terra. Essa é a principal conclusão da equipe internacional de cientistas liderada pelo paleontologista suíço Christian Meyer, diretor do Museu de História Natural da Basiléia e decano da Faculdade de Paleontologia da Universidade dessa cidade, que em 1998 certificou a existência das pegadas a três quilômetros de Sucre, sede do Poder Judiciário da Bolívia. O jazigo paleontológico, encontrado em uma pedreira de uma fábrica de cimento, é “de longe o maior sítio com pegadas de dinossauros até agora conhecido”, afirmou.
A descoberta é uma enorme contribuição para a humanidade e a ciência, que revela dados não conhecidos até agora sobre o final do período Cretáceo e o início do Terciário, há cerca de 66 milhões de anos, “documentando a alta diversidade de dinossauros melhor do que qualquer outro sítio no mundo”, enfatizou Meyer, que há mais de 15 anos percorre o mundo procurando e encontrando pegadas de dinossauros. Até este achado, o maior sítio conhecido era Khjoda-Pil-ata, no Turcomenistão, e há outros grandes em Portugal, Grã-Bretanha, Espanha e Suíça, “mas Cal Orko é muitas vezes maior do que qualquer um deles”, explicou o especialista. Em outras partes do mundo foram encontradas no máximo 220 pegadas de duas espécies.
O imenso sítio boliviano fica em um escarpa com inclinação de 73 graus, 80 metros de altura e 1,2 quilômetro de comprimento. Ali há pegadas de 294 espécies diferentes de dinossauros, impressas no Cretáceo Superior (segunda metade desse período). A primeira constatação de sua existência remonta a 1985, mas foi entre 1994 e 1998 que uma equipe de 25 paleontologistas bolivianos, europeus e norte-americanos, encabeçados por Meyer, estudou e certificou o local. Cal Orko era parte, no Cretáceo, de um imenso lago raso. No Terciário, quando se formou a Cordilheira dos Antes, os movimentos tectônicos levaram esse antigo leito para uma posição vertical. Não muito longe foram descobertos, nos últimos anos, mais oito sítios, atualmente em estudo.
Meyer, vice-presidente da Associação de Paleontologistas da Europa, explicou ao Terramérica que antes da descoberta afirmava-se que os dinossauros foram desaparecendo paulatinamente, entre o período Jurássico e o Cretáceo, e que ao fim deste as poucas espécies sobreviventes sucumbiram de forma maciça. Entretanto, “a dino-diversidade é muito alta em Orko e alimenta o debate sobre o desaparecimento gradual até o fim do Cretáceo. Descobrimos que neste último período, quando ocorreu sua extinção em massa, a existência dos sáurios era muito alta e sua variedade muito maior do que se supunha até agora. Todo o mostruário está ali”, afirmou o cientista.
Uma das descobertas que o assombrou foi a de pegadas de anquilossauro, um quadrúpede herbívoro que se julgava inexistente na América do Sul. Esse animal era representado como um torpe e gigantesco tatu, pesando cerca de oito toneladas, mas “o estudo de suas pegadas deixadas no Orko nos descreve um sáurio muito mais alto e esbelto, de pernas mais longas e mais ligeiro”, afirmou Meyer. Agora é preciso inclusive reconstruir modelos de esqueletos que são exibidos nos museus do mundo, refazer fichas explicativas e criar novas, acrescentou.
Em Cal Orko também foram encontrados rastros de herbívoros saurópodes, incluindo o gigante titanossauro, de 25 metros de altura e pegadas de 70 centímetros de comprimento, e de grandes predadores como os terópodes, com pegadas de 35 centímetros. Também foram encontrados restos de tartarugas, crocodilos, peixes e algas do Cetáceo Superior, que permitirão aos paleontologistas estudos mais precisos a respeito dessa época, sobre a qual se dispunha de dados relativamente escassos. Acredita-se que os dinossauros chegaram à América do Sul vindos da América do Norte no final do Jurássico (há cerca de 145 milhões de anos) ou, segundo outra teoria, procedentes da África, antes da separação dos continentes, há 235 milhões de anos.
Para a conservação deste sítio, está prevista a abertura, em março de 2006, de um espetacular Parque Cretáceo, onde réplicas de dinossauros de diferentes espécies darão as boas-vindas aos visitantes, além de um museu audiovisual para transportá-los à pré-história. Os responsáveis por esse projeto informam que serão feitos trabalhos para proteger a rocha, mas Meyer adverte que “antes de se construir o parque, é essencial garantir a escarpa, porque no meio dela existe uma grande falha tectônica ativa, que, se não for estabilizada, causará a queda do muro, o futuro parque ficará sem sua maior atração e a humanidade perderá uma parte da história do planeta”.
* O autor é colaborador do Terramérica.
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