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Doce experiência com açúcar orgânico

Por Alejandro Sciscioli*

O Paraguai é o maior exportador de açúcar processado sem agrotóxicos, um negócio que nesse ano movimentará US$ 26 milhões.

ASSUNÇÃO.- Em 1994, um engenho paraguaio decidiu melhorar suas alternativas comerciais ocupando nichos de mercado no exterior para o açúcar orgânico (sem agrotóxicos). Onze anos depois, o Paraguai é o maior produtor e exportador mundial desse produto. Desde o tímido começo da Açucareira Censi & Pirotta nesse negócio, aumentou o número de empresas dedicadas a ele, os hectares cultivados, as toneladas produzidas, os trabalhadores contratados e a entrada de divisas no país. Hoje, o engenho pioneiro voltou ao açúcar tradicional, mas outras sete empresas participam da produção orgânica, cujo coração está, como o de toda a indústria açucareira, no Departamento de Guairá, sudeste do país.
O Paraguai foi a primeira nação envolvida na produção industrial de açúcar orgânico. Depois vieram Cuba, Colômbia e Brasil, mas a queda nos preços tornou o negócio menos atrativo, provocando a deserção dos dois primeiros e uma drástica redução da produção brasileira. A indústria do açúcar orgânico “é uma forma de competir nos mercados internacionais com o açúcar barato produzido pelo Brasil”, disse ao Terramérica Raúl Hoeckle, presidente da Açucareira Paraguaia (Azpa), o maior engenho do país e a segunda companhia a entrar nessa atividade, em 1999. O negócio é “tentador”, apesar dos custos e das exigências internacionais de certificação, comentou Hoeckle.
A tonelada do açúcar orgânico é cotada a US$ 330, enquanto a do açúcar comum está em US$ 260. Além disso, Hoeckle destacou a importância do aspecto ambiental e que o ciclo produtivo demanda grande quantidade de operários, “o que ajuda a dar emprego à população rural”. No primeiro ano de produção de açúcar orgânico, foram obtidas 379 toneladas, até chegar a 40 mil toneladas em 2004, que significaram exportações no valor de US$ 20 milhões. Para este ano espera-se produzir 20% a mais e alcançar US$ 26 milhões.
As exigências dos compradores de açúcar orgânico foram aumentando ano a ano. Atualmente, exigem certificados independentes do cumprimento dos princípios da agricultura orgânica e de uma série de normas de produção, segundo protocolos de verificação, embora as exigências variem de acordo com o país. A Azpa conta com 14 certificados de diferentes tipos, entre os quais o norte-americano QAI (sigla em inglês de Garantia de Qualidade Internacional). Também iniciou um Programa de Segurança Alimentar baseado nos padrões do Instituto Norte-Americano de Panificação (American Institute of Baking - AIB), que incluem análises de riscos e controle de pontos críticos, bons hábitos na produção e controle de pragas. Os compradores mais importantes de açúcar orgânico paraguaio são Estados Unidos, Alemanha, Israel, Itália, Nova Zelândia, Espanha, Austrália, Malásia e Cingapura.
Segundo um documento fornecido pelo Centro Açucareiro Paraguaio, para uma produção orgânica utiliza-se terrenos onde não tenham sido empregados, por três anos, produtos químicos, fertilizantes, herbicidas, inseticidas, fungicidas ou reguladores de crescimento, entre outros produtos. Além disso, se deve contar com um histórico de cinco anos do uso do terreno. Não são regulamentadas práticas de lavoura, mas se defende a proteção das minhocas e outros organismos do solo, e, em geral, a preservação de sua riqueza. É admitida a rotação de cultivos se não forem usados agrotóxicos, e, embora seja permitida a utilização de sementes convencionais, os especialistas recomendam as orgânicas.
“De um hectare bem manejado pode-se colher até 70 mil canas doces orgânicas, como no cultivo tradicional”, explicou ao Terramérica Jorge Bonzi, engenheiro agrônomo especializado no setor açucareiro. Para o açúcar tradicional são utilizados fertilizantes químicos no momento em que a terra é arada. Depois os sulcos são fechados e é aplicado herbicida, prosseguiu. Para o açúcar orgânico, durante a aragem são aplicados fertilizantes naturais, como esterco bovino ou de ave, e um subproduto da industrialização da cana doce orgânica, conhecido como torta de filtro, disse Bonzi.
O controle de ervas daninhas é feito à mão, bem como o corte da cana para ser levada ao engenho, o que, ao mesmo tempo, confere à produção orgânica um valor social, pela grande quantidade de trabalhadores necessária. A média de ocupação é de 6,5 pessoas por hectare para um processo que dura todo o ano, e inclui retirada do mato, corte, “alinhamento de palha” (acomodar as folhas caídas depois da safra) e aplicação de fertilizante orgânico, entre outros trabalhos. Outro aspecto destacado por Bonzi é que 90% dos agricultores são pequenos produtores rurais independentes, que depois vendem sua produção aos engenhos. “Já no Brasil, toda a produção orgânica pertence a empresas”, ressaltou.

* O autor é colaborador do Terramérica.




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