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Em busca dos primeiros cubanos

Por Patrícia Grogg*

Novas escavações arqueológicas poderiam provar que a presença humana em Cuba e nas Antilhas é muito mais antiga do que se crê.

Saga La Grande, CUBA.- “Estamos no início de tudo”, diz cauteloso o arqueólogo alemão Jean Weining, após seis semanas de um paciente trabalho topográfico para determinar futuras escavações que poderiam dar uma reviravolta nas teorias atuais sobre os seres humanos mais antigos de Cuba e das Antilhas. Seu colega cubano Raúl Villavicencio apenas sorri ao seu lado. Seguramente, por sua cabeça passa, em rápida sucessão, mais de uma década de dedicação quase absoluta ao rastreamento minucioso de qualquer possível sinal que completasse, com o devido rigor científico, o quebra-cabeça de suas descobertas arqueológicas. Sua obsessão começou em 1987, quando estreou como diretor do Museu de Sagua La Grande, cidade de 60 mil habitantes na parte norte da província central de Villa Clara.

“Saí a campo, com um grupo de amadores, em busca de peças para o museu”, conta. Em um dia de 1992, uma enorme pedra de sílex (pedernal) talhada, comparável por sua forma ao assento de uma bicicleta e encontrada de maneira quase fortuita, ficaria registrada em seus arquivos como a primeira de várias ferramentas presumivelmente usadas por seres primitivos encontradas na região. “São machados de mão, que pesam de oito a 10 libras (entre 3,6 e 4,5 quilos), confeccionadas com uma técnica semelhante a instrumentos utilizados no Velho Mundo há cerca de 35 mil anos”, afirma Villavicencio, destacando que a antiguidade provada dos primeiros habitantes de Cuba não passa, até agora pouco, de pouco mais de cinco mil anos. “Estes instrumentos são um fenômeno único na América, semelhantes aos europeus por seu estilo e forma. Vemos isto como a margem externa da difusão do paleolítico no mundo. Podem ser remanescentes do paleolítico, que chegaram a este continente”, afirma.

As descobertas incluem facas, pontas de flechas e raspadores feitos também com sílex, abundante na cordilheira da parte noroeste de Villa Clara. “Este mineral é uma variedade de quartzo, muito duro e próprio do homem antigo para enfrentar o medo”, afirma o especialista. Villavicencio associa essas ferramentas com restos de fauna de uma época em que abundavam animais de grande porte e aves gigantes, encontrados em diferentes sítios, alguns distantes entre si cerca de 40 quilômetros. “Cavamos de 10 em 10 centímetros e junto com os ossos íamos encontrando ferramentas do homem”, contou ao relatar uma dessas descobertas.

Segundo o especialista, esse aspecto interessou especialmente a Hansjürgen Müller-Beck, professor de Pré-História e História Contemporânea da Universidade Tübingen, na Bavária (sudeste da Alemanha), que lidera a equipe de seu país em um projeto de pesquisa realizada com especialistas cubanos. Müller-Beck diz que a contemporaneidade dos restos de fauna e as ferramentas “é irrefutável, porque se o homem tivesse vivido posteriormente a essa fauna, as ferramentas estariam por cima”, comenta Villavicencio. Mas Weining, que trabalha na empresa privada alemã de pesquisas arqueológicas Pro-Arch, afirma que prefere pensar “no todo, e não nas partes. Os machados são um ponto. Os ossos de uma fauna distinta são outro ponto, e os artefatos outro ponto. A datação (rádio-carbônica) outro ponto. Tudo isso é como um mosaico formado por pedacinhos pequeninos que devem ser pesquisados”, explica.

O projeto em conjunto com os especialistas alemães, denominado “O povoamento mais antigo de Cuba”, terminou uma primeira fase na qual foram avaliados os locais para novas escavações em Villa Clara e na província de Holguín, também incluída no plano. Segundo Weining, em janeiro devem começar as escavações em campo aberto e grutas, mediante técnicas e métodos reconhecidos internacionalmente, para recopilar grande quantidade de material que permita avançar para a meta maior: averiguar quando o ser humano chegou à América.

Sabe-se que comunidades de caçadores-coletores se estabeleceram em Holguín na região do rio Levisa há cerca de 5.150 anos, disse a Uruguai Lílian de Moreira, professora de história da Universidade de Havana. Essa data é a mais antiga comprovada do povoamento caribenho nas Antilhas Maiores. Na República Dominicana, comunidades semelhantes se estabeleceram há cerca de 4.550 anos. Entretanto, muitos arqueólogos cubanos ainda pensavam, antes das descobertas de 1992, que pela tipologia do trabalho em sílex encontrado em Cuba, as populações responsáveis teriam chegado á ilha há sete ou 10 mil anos.

Essas descobertas poderiam provar que a presença humana é muito mais antiga, e gerar dúvidas sobre a procedência dos primeiros povoadores, que segundo as teorias mais difundidas até agora, teriam chegado ao Caribe há cerca de 10 mil anos, vindos do sudoeste da América do Norte, por passagens surgidas durante o final do quarto período glacial. O projeto de pesquisa tem apoio da Fundação Fritz Thyssen, uma organização não-governamental alemã criada para o fomento da ciência. Por Cuba participam o Departamento Centro-Oriental de Arqueologia de Holguín e o Centro de Estudos e Serviços Ambientais de Villa Clara.

* A autora é correspondente da IPS




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Links Externos

Santa Clara - dados arqueológicos

Fundação Fritz Thyssen

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