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Exploração de gás afeta serra boliviana

Por José Luis Alcázar*

Ambientalistas denunciam ameaças à Serra do Aguaragüe, na Bolívia, a segunda potência em matéria de gás da América do Sul.

TARIJA, Bolívia.- Um forte impacto ambiental é provocado pela extração de gás e petróleo na Serra do Aguaragüe, no Chaco de Tarija, no sul boliviano, e as nove empresas responsáveis não conseguem minimizar os danos, denunciou a organização não-governamental Proteção do Meio Ambiente Tarija (Prometa). Nos últimos anos, a exploração de reservas de gás, que somam 48 trilhões de metros cúbicos, converteu o país na segunda potência nessa área da América do Sul. A Petrobras, considerada a mais importante das nove empresas que operam na Bolívia, informou ao Terramérica que realiza uma “política de gestão de eco-eficiência nas operações, reduzindo a níveis mínimos os impactos”. Entre as outras companhias, estão a espanhola Repsol, a britânica British Gas e a francesa Total.

“O conceito de eco-eficiência inclui conservação de ecossistemas, preservação e redução do uso dos recursos não renováveis. Educa, capacita e compromete com o meio ambiente empregados e empresas contratadas”, afirmou José Fernando de Freitas, presidente da Petrobras-Bolívia, que iniciou suas operações em 1996 no contexto de acordos bilaterais de integração. Entretanto, Arnaldo Wayer, diretor da Prometa, expressou ao Terramérica dúvidas sobre a eficiência das companhias de petróleo e afirmou que falta muito para que cumpram todos os requisitos de preservação ambiental e responsabilidade social diante das comunidades.

A Serra do Aguaragüe tem duas potencialidades: as enormes quantidades de gás que proporcionarão nos próximos 20 anos importantes divisas à Bolívia, e a provisão de água para as três cidades mais importantes do Chaco (Willamontes, Yacuiba e Carapari) e as comunidades originárias, indicaram em um informe as organizações Prometa, Fundação Argentina Yuchán e o Programa de Conservação e Desenvolvimento. Este estudo prevê que a exploração de hidrocarbonos alterará a qualidade da paisagem e reduzirá a riqueza da floresta com o desmatamento, incêndios, modificação ou perda de hábitat e poluição do ar. A qualidade da água superficial também seria afetada por causa da erosão de solos em razão da alteração de rios e o tráfego por eles.

As empresas de mineração “estão afetando o regime hídrico ao desviarem cursos, destruírem as correntes de água subterrâneas e a cobertura vegetal, reduzindo significativamente sua capacidade de absorver e distribuir a água”, afirmou Wayer. Outros impactos indiretos são abertura de caminhos que provocam assentamentos humanos não desejados e uma ampliação da fronteira agrícola para a parte alta da Serra, que coloca em risco a biodiversidade dessa área, declarada Parque Nacional e Área Protegida de Manejo Integrado, em maio de 2000, acrescentou.

A Serra do Aguaragüe, onde a exploração de petróleo data de 1867, se estende de norte a sul com média de oito quilômetros de largura e superfície de 118,7 mil hectares. Se caracteriza pelas yungas andinas (selvas de montanha ou selvas nubladas, protegidas pelo Parque Nacional) e a selva pedemontana e savanas do Chaco na Área de Manejo Integrado. São registradas na zona mais de 130 espécies de plantas pertencentes a 48 famílias, 408 espécies de aves, pouco mais de 20 espécies de mamíferos classificadas de aproximadamente cem existentes, e anfíbios e répteis ainda não quantificados.

No parque e suas imediações habitam cerca de cem comunidades indígenas guaranis e weenhayek (matacos), que somam não mais de oito mil pessoas. Dedicam-se à pesca e, quando ela está proibida, à produção de mel, frutas, milho e hortaliças. “A lama de perfuração lançada pelas empresas de petróleo em piscinas contaminam a água, sob o efeito do represamento pela chuva e da infiltração”, explicou ao Terramérica Cecília Cortéz, engenheira agrônoma da Prometa. Freitas garantiu que a Petrobras-Bolívia “otimiza o uso dos recursos naturais na perfuração dos poços, reutilizando as águas dos afluentes e reduzindo o consumo de energia elétrica”.

Essa empresa “cumpre rigorosamente a legislação boliviana” e inclusive reduz e supervisiona a emissão de dióxido de carbono, "como determina o Protocolo de Kyoto”, afirmou Freitas. O Protocolo, cujo objetivo é controlar a mudança climática, entrou em vigor em fevereiro. Wayer não nega a importância da exploração de recursos energéticos, mas pede que seja feita “com responsabilidade ambiental e social”. O “Estado tem que obrigar as empresas a minimizarem os impactos ambientais, mas, até agora, apesar das recomendações e normas legais, não existe um acompanhamento sério para o reflorestamento e regeneração das áreas afetadas”, afirmou.

Segundo Freitas, a Petrobras-Bolívia cumpre sua responsabilidade social e no período 2000-2004 investiu US$ 4 milhões em obras no entorno comunitário de suas explorações, fornecendo água potável e energia elétrica, melhoria de escolas, construção de hospitais, alfabetização, moradia e estradas. “Evidentemente, houve melhoria, algo foi feito do ponto de vista das empresas, mas não podem fazer obras sem planejamento nem coordenação com o governo, os municípios e as comunidades”, respondeu Wayer, ressaltando, por exemplo, que foram construídos postos de saúde, mas não há médicos para atender. Os ativistas advertem que, antes que os danos sejam irreversíveis no Aguaragüe, os organismos de governo e as comunidades afetadas devem estabelecer uma aliança estratégica com o setor petrolífero para prevenir e controlar a contaminação, o desmatamento, a erosão e a sedimentação, e proteger flora, a fauna e a paisagem.

* O autor é colaborador do Terramérica.




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Links Externos

Proteção do Meio Ambiente Tarija (Prometa)

Petrobras-Bolívia

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