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O planeta aquecido e suas vinganças

Por Leonardo Padura Fuentes*

As respostas traiçoeiras e incontroladas da natureza (como o Katrina) podem nos atingir em qualquer lugar onde estivermos.

HAVANA.- Afinal, quem o enviou: Alá ou Yavé?... É que enquanto um indignado clérigo muçulmano assegura que o furacão Katrina é uma vingança de Alá contra um povo infiel, e para provar recorre às profecias irrefutáveis do Alcorão (“O desastre continuará golpeando os infiéis pelo que fazem, ou golpeará em terras próximas de seu território até que se cumpra a promessa de Alá, porque na verdade Alá não deixará sem cumprir sua promessa”, 13:31), um rabino judeu argumenta, contextualizando muito mais suas palavras, que “O furacão Katrina é a vingança de Deus pelo apoio da América ao plano de Sharon para expulsar os judeus de Gaza (...). Ontem vimos, em Israel, como os funcionários americanos, incluindo o presidente George W. Bush, ordenavam a evacuação forçada de New Orleans (...). Vemos em nossa televisão um milhão de pessoas obrigadas a abandonar suas casas. As pessoas choram diante das câmeras (como na evacuação de Gaza) porque vão perder 'tudo o que temos, tudo aquilo pelo qual trabalhamos' (...). Trata-se de uma coincidência? Não para os que crêem no Deus da Bíblia e na imutabilidade de sua Palavra”, conclui o rabino.

Não deixa de ser no mínimo curiosa esta coincidência entre dois deuses em guerra eterna e por trás dos quais se amparam algumas das idéias mais extremistas e irreconciliáveis dos últimos dez séculos. No entanto, o Katrina, obra do mal para muitos, foi capaz deste e muitos outros “milagres”, como o de apagar cidades com um clássico estilo bíblico que inevitavelmente faz evocar o desaparecimento de Sodoma e Gomorra. O que não me convence é que a predestinação divina tenha tido tão macabro sentido de seletividade, e que, entre os mais atingidos, os mais feridos (física e espiritualmente), entre os mortos, a maioria seja de gente pobre (além de muito mais negros do que brancos), culpados, se for o caso, de pecados como fornicação, blasfêmia, ingestão de álcool e outras pequenas coisas (em comparação com outros pecados que conhecemos) e, inclusive, muitos deles bons cristãos, que a cada domingo iam às suas igrejas cantar rítmicos elogios ao Senhor.

Entretanto, mais do que uma maldição celestial já escrita nos livros sagrados, está demonstrado cientificamente (pelo menos para os que ainda crêem na ciência) que a desgraça, a destruição e a morte de milhares de pessoas registradas no sul norte-americano nas últimas semanas é, sem dúvida, resultado de obras humanas. Já há vários anos, começou-se a ouvir os primeiros gritos de alarme por causa de um processo desconhecido no planeta, ao menos desde que o homem o habita, o chamado “aquecimento global”, provocado desta vez não pelas mudanças climáticas geradas por fatores cósmicos ou telúricos e que afetam a Terra desde sua formação. O motivo das alterações climáticas e meteorológicas desta vez é muito mais visível e fácil de identificar: tudo se deve à ação do homem sobre o meio ambiente.

Se o caso do Katrina, como o do tsunami no Pacífico, comoveu tanto a opinião pública, não se deve apenas aos seus efeitos espetaculares e à possibilidade de vê-los quase ao vivo nas telas de nossos televisores. Também se deve ao fato de que, depois de muito anunciar, a natureza está demonstrando quase diariamente aos inquilinos deste planeta, seja qual for o local que habitem, que um vazamento de petróleo no Cantábrico, uma fábrica contaminante em um descampado norte-americano, um ar-condicionado que deixa escapar seu gás na Austrália, um carro que expele sua fumaça no Cairo ou um ônibus que polui o céu em Havana, são ações que dizem respeito a toda a humanidade, pois agridem nossa casa comum. E as respostas traiçoeiras e incontroladas da natureza podem nos atingir onde quer que estejamos.

Em um recente artigo científico, Ross Gelbspan recordava, com nome e sobrenome, uma série de recentes catástrofes naturais que, em diversas partes do mundo, se apresentavam como resposta ao crescente e incontrolável aquecimento global: uma tempestade com ventos de 200 km/h que arrasou o serviço de energia elétrica na Escandinávia, as secas e as ondas de calor no Arizona, na Espanha, França e Portugal, com os inevitáveis incêndios florestais, isso em paralelo com as intensas chuvas e inundações em Bombaim e na Alemanha. E advertia, em sua fundamentação, que o verdadeiro nome destes fenômenos não é outro além de Aquecimento Global.

Buscando razões para a atitude mantida até hoje por muitas indústrias, instituições e inclusive governos frente a uma “pandemia” climática planetária, Gelbspan alertava que para reverter o processo seria necessário colocar em prática algo aparentemente tão impossível como reduzir em 70% o consumo de petróleo e carvão que hoje são queimados no mundo. Sabedoras do que fazem e dos efeitos do que fazem, as companhias que enriqueceram esquentando o planeta chegam ao extremo de pagar a equipes de pesquisadores e comissões científicas para que alterem as previsíveis conclusões sobre suas práticas produtivas, em subornos milionários capazes de lhes permitir os lucros multimilionários com os quais, além de enriquecerem, escancaram o caminho do aquecimento global.

Enquanto isso, muitos governos do mundo, em um ato de irresponsabilidade criminosa, fecham olhos e ouvidos às evidências e advertências, tornando-se cúmplices da espiral de devastação natural e contaminação ambiental que causam os efeitos climáticos que, na forma de furacões, tsunamis, ondas de calor, secas, inundações ou tornados arrasam com uma freqüência cada vez mais cerrada os quatro pontos cardeais do planeta. Nada humano me é alheio, diz o velho ditado. Nada do clima me é alheio, poderia acrescentar hoje, de minha casa em Havana, pois como qualquer habitante da Terra me sinto à mercê das vinganças de uma natureza que, aparentemente, chegou aos limites de sua resistência.

Cada homem é hoje parte de um problema que afeta todos os homens. Porém, há alguns que são mais parte do problema, inclusive, são o próprio problema, e para os quais os milhares de mortos no sul dos Estados Unidos não parecem ser um grande problema. E, como disse José Martí se referindo à poesia, ou nos salvamos juntos ou nos perdemos os dois. Assim está hoje o jogo “global”, no qual já não se está dirimindo a riqueza e o conforto de alguns, mas a vida de todos, em Cuba, Burundi, Ceilão e em Venice, Estados Unidos.


* O autor é escritor cubano. Suas narrativas foram traduzidas para uma dezena de idiomas e ganharam numerosos prêmios em Cuba e no exterior. Sua obra mais recente é A Neblina de Ontem.




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