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Canaima enfrenta mineradores e meio ambiente

Por Humberto Márquez*

Mais de mil mineradores do povoado venezuelano de Las Claritas exigem seu direito de trabalhar. O governo emite sinais confusos sobre como desativará o conflito, que já deixou vários feridos.

CARACAS.- Canaima, deus do mal nas lendas da Guiana Venezuelana, a região amazônica da Venezuela, é o nome de uma novela, de 1935, de Rômulo Gallegos (1884-1969), que explora esse mito, e de um parque nacional em cujas fronteiras, como se foseem empurrados pela divindade telúrica, os humanos voltam a se enfrentar pela sobrevivência e a riqueza, pelo ouro e o meio ambiente. Mais de mil mineradores artesanais do povoado Las Claritas, 800 quilômetros a sudeste de Caracas, interromperam, em setembro, a estrada que liga o leste venezuelano com o Brasil e mantiveram durante dias um protesto contra o governo, exigindo seu direito ao trabalho, e contra a concessão aurífera entregue à multinacional canadense Crystallex. Na segunda quinzena do mês, entretanto, o conflito cedeu, pois não aconteceram bloqueios de estradas, embora os últimos sinais sobre a estratégia governamental para responder aos protestos são sejam claros.

Os enfrentamentos com o exército deixaram vários feridos, veículos incendiados e ativistas presos. “Vivemos da mina, nossos filhos nasceram aqui e não vamos permitir que nos tirem de onde trabalhamos. O presidente Hugo Chávez disse que a terra é de quem trabalha”, afirmou o ativista Luis Almeda, da pró-oficialista Frente Bolivariana de Mineiros. O sudeste da Venezuela, na fronteira com Brasil e Guiana, tem zonas auríferas exploradas desde o século XIX e pode abrigar as maiores reservas da América Latina. Só a mina Las Cristinas, entregue à Crystallex e ainda não explorada, conteria mais de 16 milhões de onças, em 462 milhões de toneladas de areia aurífera com 1,1 grama por tonelada.

Cerca de três mil pequenos mineradores “reclamam seu direito de explorar essas areias porque a Crystallex não o fez em quatro anos, pois recebeu autorização por não apresentar em tempo os estudos de impacto ambiental”, disse o vereador de oposição na região, Carlos Chancellor. A prefeita Marlene Vargas, oficialista, disse ao Terramérica que “os mineradores artesanais não podem operar essa grande mina sem capital e tecnologia. O que propomos é que se faça uma co-gestão entre eles e a grande empresa, seja a multinacional ou a estatal Minerven”. A mina e o foco do conflito estão na bacia do Rio Cuyuní, que leva águas para El Esquibo, na Guiana, mas os mineradores atuam em todo o sudeste, onde se localiza o estado de Bolívar, de 238 mil quilômetros quadrados.

O Parque Nacional Canaima e a bacia do Rio Caroní estão dentro de seus limites. O Caroní, principal afluente do Rio Orenoco, de 750 quilômetros de extensão, é uma potência hidrelétrica, com capacidade estimada em 24,2 mil megawatts/hora. Cerca de 12 mil megawatts são aproveitados no Baixo Caroní em várias represas, sendo a principal delas a Guri, com dez mil megawatts/hora de capacidade instalada, proporcionando 65% da eletricidade consumida pelos 26 milhões de venezuelanos. A contaminação com mercúrio, a sedimentação e o desmatamento são alguns dos efeitos nocivos da atividade de mineração na bacia do Caroni, documentados há duas décadas, segundo o especialista da Universidade de Los Andes, Julio Centeno.

De acordo com a vice-ministra do Meio Ambiente, Nora Delgado, o governo lançou um plano, em aliança com as comunidades, para erradicar a mineração de toda a bacia do Caroní. Em todo o Estado de Bolívar “operam cerca de 70 mil mineradores reconhecidos por nós e 70% deles são favoráveis a acordos de remanejamento para zonas onde possam realizar sua atividade sem afetar a bacia, além de exploração da floresta, reflorestamento, agricultura ou turismo, em cerca de 90 mil hectares que identificamos”, disse Delgado. A vice-ministra acrescentou que “vamos ao encontro das comunidades com programas, para um reassentamento gradual. Não podemos tirar todos de um dia para outro nem preparar as soluções dentro de um escritório em Caracas”, afirmou.

A proibição em Las Claritas, na zona do Cuyuní, mas às portas do Canaima, seria um primeiro passo para que a estratégica bacia do Caroní “alcance progressivamente um status como o do Estado do Amazonas” ao sul, onde a mineração está proibida até 2050, embora mineradores ilegais incursionem com freqüência. De imediato, a disputa entre ouro e ambiente acontece em Las Claritas, e o governo parece inclinar-se pela reclamação dos mineradores, que na região lhe serve de apoio político e eleitoral. Entretanto, os sinais são confusos. O presidente Chávez disse, em um ato em Caracas, que “se formos escolher entre meio ambiente e mineração, deixaremos o ouro e ficaremos com a água e o ar”. Mas em outro discurso, em Guayana, anunciou que o Estado não aprovaria mais concessões a empresas estrangeiras e revisaria as já concedidas porque criaria uma “empresa nacional de mineração” para associar-se com os pequenos mineradores e trabalhar na zona de Las Cristinas.


* O autor é correspondente da IPS.



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