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Falta alerta sobre os riscos sob o Sol

Por Marcela Valente*

O buraco na camada de ozônio teve uma extensão recorde sobre o território austral argentino em setembro. Porém, não foram tomadas medidas especiais para alertar a população sobre as perigosas radiações ultravioleta.

BUENOS AIRES.- A redução da camada de ozônio sobre o hemisfério Sul e a Antártida atingiu novo recorde e revelou a passividade das autoridades argentinas para alertar a população mais exposta à radiação solar sobre o perigo. Segundo o Instituto Antártico Argentino, que mede a concentração do gás ozônio na estratosfera, a redução desse escudo que protege a Terra dos raios ultravioletas alcançou, em setembro, uma extensão de 28 milhões de quilômetros quadrados sobre a região austral, 8% maior do que o máximo registrado em setembro do ano passado.
A densidade da camada de ozônio, considerada no vermelho quando é menor que 220 unidades Dobson, caiu para 87 em meados de setembro. O registro mais baixo no ano passado foi de 95 unidades. “São valores recordes para setembro”, disse ao Terramérica Jorge Araújo, diretor do Departamento de Ciências da Atmosfera do Instituto Antártico. Por fatores climáticos, a redução da camada de ozônio sobre o pólo sul se manifesta especialmente durante a primavera austral, que acaba de começar. A ausência da camada protetora deixa a vida terrestre e aquática sem defesa diante das radiações solares mais nocivas, que podem causar nos seres humanos problemas de pele, vista e no sistema imunológico. As populações da Argentina e do Chile são as mais expostas à radiação, devido à localização austral de seus territórios.
Porém, o Ministério da Saúde parece não ter tomado nenhuma medida. A reportagem do Terramérica tentou, sem êxito e por várias vezes, obter material informativo sobre os perigos da exposição ao Sol, que essa pasta afirma ter. Tatiana Petcheneschsky, da Direção de Promoção e Proteção da Saúde do Ministério, se desculpou várias vezes pela impossibilidade de fornecer esse material. A pediatra María Vaccaro, delegada da Sociedade Argentina de Pediatria na austral província da Terra do Fogo, disse ao Terramérica que ali só são divulgados avisos pelo rádio para lembrar a população que deve se proteger do Sol.
“Aqui, na primavera ainda faz frio e as pessoas se expõem menos. Mas as crianças são sempre as mais vulneráveis porque saem para brincar e porque quando nasceram o buraco na camada de ozônio já existia, o que não aconteceu na infância de quem agora é adulto”, ressaltou a médica. O alerta pela televisão será transmitido em janeiro, quando a camada gasosa começa a se recuperar. Em uma pesquisa feita em Ushuaia, capital da Terra do Fogo, 81,6% dos consultados disseram conhecer o fenômeno do buraco na camada de ozônio. No entanto, diante da pergunta sobre o período de esgotamento, apenas 15% responderam que ocorre na primavera.
A mesma pesquisa indica que apenas 34% dos moradores dessa cidade conhecem a existência de filtros solares com graduações recomendados para proteção da pele exposta ao Sol. Entre os males cutâneos provocados pela exposição ao Sol estão eritema (inflamação e enrijecimento superficial da pele), envelhecimento prematuro e câncer. A predisposição para contrair essas doenças é maior em pessoas ruivas, de pele branca e olhos claros, que se expõem ao Sol sem proteção. A radiação também pode provocar catarata. Neste país, uma pele bronzeada continua sendo vista como “sinal de boa saúde, imagem estética e status social alto”, disse ao Terramérica o presidente da Associação Argentina de Medicina Ambiental, Alberto Tolcachier.
Este erro de percepção se deve em parte ao fato de a correlação entre a maior exposição ao Sol e seus efeitos mais graves nunca ser imediata. A catarata ou o câncer de pele têm um longo período de incubação, disse Tolcachier. Além disso, a composição da população que vive nas zonas mais vulneráveis da Argentina muda muito e os habitantes não estão expostos à radiação ao longo de toda sua vida. O maior risco está nas bases antárticas e na Terra do Fogo. Na Antártida, a população (principalmente militares e cientistas) faz um rodízio permanentemente, e na Terra do Fogo apenas 35% dos habitantes nasceram ali.
Apesar destas atenuantes, Tolcachier assegurou que o buraco na camada de ozônio “constitui um grave problema de saúde pública. Como a exposição nos primeiros cinco anos de vida produz os maiores problemas, o risco é para as crianças”, alertou. O agravamento do buraco na camada de ozônio surpreende se forem considerados os 16 anos de vigência do Protocolo de Montreal, ratificado por mais de 180 países. Esse tratado estabelece a obrigatoriedade de eliminar o consumo e a produção de substâncias que afetam a camada de ozônio, como os clorofluorcarbonos, os hálons e o brometo de metilo. Embora os países tenham avançado na substituição desses produtos contaminantes, estes permanecem muitos anos na atmosfera e continuam destruindo as moléculas de ozônio.


* A autora é correspondente da IPS.


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