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Escrevendo a história dos mares |
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Por Stephen Leahy*
Novos registros mostram como o modelo comercial esgota os locais de pesca em uma ou duas décadas.
TORONTO, Canadá.- Novos dados sobre a história do mar revelam que os oceanos do mundo estão em uma grave crise, em grande parte pela pesca excessiva, e podem não se recuperar. “Os oceanos são hoje drasticamente diferentes do que eram há 150 anos”, disse o cientista Poul Holm, do Centro para Estudos Marinhos e Regionais da Universidade do Sul, da Dinamarca. Naquela época, havia “muitos predadores maiores, como o atum, e quase todos os peixes eram muito maiores e encontrados em áreas mais extensas do que hoje”, disse Holm ao Terramérica.
Centenas de historiadores e oceanógrafos de todo o mundo investigaram por mais de cinco anos como eram os oceanos 150 e até 300 anos atrás. Esta semana, suas descobertas foram apresentadas na conferência Oceanos Passados - História das Populações de Animais Marinhos, em Kolding, na Noruega. Os registros históricos revelam, por exemplo, que as populações de bacalhau da espécie lingue (Molva molva), do Mar do Norte, haviam dado sinais de esgotamento antes de 1920, embora até agora se creia que a redução da espécie começou na década de 70.
Os dados sobre pesca só existem desde poucas décadas atrás, o que torna difícil conhecer o verdadeiro alcance da crise ou administrar as que restam, sem informação da era anterior à pesca industrial, ressaltou Holm. “Necessitamos saber como mudaram os ecossistemas marinhos tanto quanto conhecer as modificações das populações de peixes”, acrescentou. Ainda sem uma pressão direta por pesca excessiva, o lingue, bem como o bacalhau do Ártico (Eleginus gracilis) e outras espécies, não se recuperaram, sugerindo que ocorreram mudanças ecológicas fundamentais.
A nova informação sobre a história dos oceanos registra claramente o modelo comercial, que esgota esgota os locais de pesca em uma ou duas décadas e, então, passa para outro. Esse padrão resulta evidente na coleção de 200 mil cardápios de restaurantes norte-americanos, de 1860 em diante. Na década de 1870, as lagostas americanas (Homarus americanus) de nove quilos eram tão comuns que eram vendidas enlatadas e raramente encontradas nos cardápios. “Era considerada um prato sem valor, ninguém gostava de ser visto comendo lagosta”, disse Glenn Jones, da Universidade Texas A&M, na localidade marítima de Galveston.
Na medida em que outras espécies preferidas diminuíram, a lagosta foi introduzida nos pratos oferecidos pelos restaurantes. Por volta de 1920, cobrava-se US$ 24 por meio quilo dessa espécie, quase o mesmo preço de hoje, disse Jones. Os exemplares se reduziram notavelmente até um quarto de quilo, o peso mínimo autorizado para sua captura, mas as populações não estão ameaçadas. “A lagosta é um dos recursos marinhos melhor manejados que temos”, acrescentou. Exemplares maiores, de três ou quatro quilos, apareceram nos cardápios da última década, sinal de que as capturas se moveram para zonas mais profundas da plataforma marinha exterior, 200 milhas mar adentro, afirmou o especialista. “Em mais dez anos, esses exemplares grandes terão desaparecido”, previu.
O abalon (Haliotis rufescens), um tipo de crustáceo, seguiu caminho semelhante. Muito popular nos anos 20, quando um prato dessa espécie custava US$ 7, a pesca excessiva o tornou mais e mais raro. Seus preços aumentaram entre sete e dez vezes mais do que a inflação, por volta de 1950. O Estado da Califórnia proibiu sua pesca comercial em 1997. A maioria dos que hoje são consumidos nos restaurantes californianos é importada da Austrália ou Nova Zelândia, e custa entre US$ 50 e US$ 70.
A importância de contar com informação de longo prazo é ilustrada por um estudo feito com pescadores mexicanos no Golfo da Califórnia. Quem tem mais de 55 anos poderá mencionar cinco vezes mais locais esgotados e igual proporção de espécies desaparecidas do que quem tem 30 anos, afirmou Andréa Sáenz-Arroyo, da Universidade de York, na Grã-Bretanha. Os pescadores mais jovens não sabem que nos mares onde pescam abundaram alguma vez os tubarões, enormes meros, pargos, tartarugas verdes, ostras de rocha e caracóis. “Houve uma drástica mudança na percepção humana do que constitui o estado natural do meio ambiente”, disse Sáenz-Arroyo ao boletim Oceans Update, publicado pela organização não-governamental SeaWeb, com sede em Washington.
Trezentos anos antes de nascerem os pescadores mais velhos, o Golfo da Califórnia era notavelmente diferente do que é hoje. Havia montes de madrepérolas no leito marinho, segundo as crônicas dos exploradores espanhóis. Os meros gigantes eram um alimento comum e preferido, mas nenhum pescador atual, nem mesmo os mais velhos, sabem deles. As pessoas não conseguem perceber a amplitude da degradação ambiental que ocorre em suas próprias vidas. E isso reduz as expectativas humanas do que constitui um ecossistema “saudável”, acrescentou o especialista. “A compreensão das condições ambientais do passado é essencial para uma efetiva conservação”, acrescentou.
A memória escassa e os mitos da abundãncia e dos mares sem fim, com peixes em contínuo aumento, ainda persistem, apesar das grandes evidências da crise. Inclusive, espécies como o atum (Thunnus thynnus), que era abundante desde o norte da Noruega até o Mar Negro e desde Newfolundland, no leste do Canadá, até o sul do Brasil, desapareceram em quase a metade dessas vastas regiões. Embora fosse pescado durante vários séculos, a declinação do atum é conseqüência do desenvolvimento de novas artes e técnicas de pesca durante o século XX. Mais ainda, as modernas práticas e normas (captura intencional ou não-intencional de exemplares muito jovens, perdas ou sub-registros) estão reduzindo as possibilidades de o atum se recuperar, disseram especialistas na conferência da Noruega.
A produção mundial de pescados e moluscos vem diminuindo há vários anos, apesar da sempre crescente atividade pesqueira, afirmou Holm. “A atual demanda de pescado e marisco está muito além do que os oceanos podem fornecer atualmente”, ressaltou. A prática de perseguir novas espécies quando as populações de outras diminuem agora ameaça a merluza negra, ou bacalhau de profundidade (Dissostichus eleginoides), da austral Patagônia, de lento crescimento. Barcos piratas pegam em suas redes cargas que valem milhões de dólares e as vendem no mercado negro. “Faz muita falta um gerenciamento global sobre as regiões de alto mar”, concluiu Holm.
* O autor é correspondente da IPS.
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