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Stan atingiu os pobres, mas não o PIB

Por Diego Cevallos*

Especialistas fazem um balanço um mês depois da passagem do furacão pelo istmo centro-americano: Apesar de milhares de pessoas terem perdido tudo, a macroeconomia foi preservada.

MÉXICO - Embora o golpe representado pela tormenta tropical Stan aos pobres de El Salvador e Guatemala tenha sido severo, as principais variáveis macroeconômicas desses países mostraram apenas arranhões.Um mês depois da passagem do furacão, os governos podem respirar tranqüilos. Seu crescimento econômico, a inflação anual de seus países, o equilíbrio fiscal e os níveis da dívida externa estão relativamente a salvo.

Mas a história é outra para as pessoas afetadas, cujo futuro imediato pressagia mais pobreza, assim como para o meio ambiente, que sofreu danos gigantescos que podem levar décadas para serem recuperados, segundo avaliações de cerca de trinta especialistas coordenados pela Organização das Nações Unidas. Os efeitos do Stan, que cruzou o istmo centro-americano e o sul do México nos primeiros dias de outubro, foram analisados minuciosamente por uma equipe liderada pela Comissão Econômica Para a América Latina (Cepal) nos casos da Guatemala e El Salvador. Entre 26 de outubro e 8 de novembro, mais de 30 especialistas trabalharam na análise.

Uma das conclusões centrais do estudo foi que o impacto do Stan será relativamente pequeno no âmbito macroeconômico, mas variará de severo a grave entre as comunidades afetadas, disse Ricardo Zapata, um dos especialistas que lideraram a investigação."Por que essa diferença? É que os afetados, que são os mais pobres, contribuem muito pouco para a economia de seus países", explicou Zapata. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da Guatemala, onde as chuvas torrenciais, inundações e deslizamentos causados pelo Stan levaram lama para as zonas rurais, matando cerca de 700 pessoas, cairá neste ano apenas de 3,2% para 3% ou 3,1%. No caso de El Salvador, onde morreram 69 pessoas, o PIB baixará de cerca de 2,5% para 2,2%.

Em ambos os países centro-americanos, as perdas econômicas diretas provocadas pela tormenta chegaram a US$ 331 milhões, sendo que a Guatemala ficou com a pior parte, US$ 976 milhões. Grupos não-governamentais que se movimentaram para ajudar os prejudicados pelo Stan, sustentaram que o acontecido em El Salvador e Guatemala teve dimensões de catástrofe entre os pobres, que levarão vários anos para retornar aos seus níveis anteriores de desenvolvimento.

"Continua o perigo de fome extrema e a situação continua grave, mas a macroeconomia não tem problemas, o que confirma que em nossos países existe um estilo de desenvolvimento injusto e sem igualdade", disse Eduardo de León, diretor da Fundação Rigoberta Menchú da Guatemala. Sobre o caso guatemalteco, a Cepal informou que "além do valor econômico dos danos e perdas, o efeito do Stan recaiu sobre todo o âmbito social, com conseqüências difíceis de quantificar no conjunto social, nas redes comunitárias, e efeitos diferenciados entre homens e mulheres, e com relação aos diversos grupos étnicos e culturais".

Algo parecido é apontado para El Salvador: "O impacto social, o maior em termos quantitativos, tem por sua vez um impacto qualitativo sobre os distintos grupos populacionais, em particular os mais vulneráveis: a população rural, as mulheres camponesas e pequenos comerciantes, em cuja economia de campo os danos e perdas são pouco visíveis."

A agência internacional acrescenta que serão restringidas as melhorias nos índices de desenvolvimento humano e será elevada a dependência de remessas por parte de imigrantes, especialmente dos Estados Unidos.Em matéria ambiental, adverte que foram registrados danos severos, com perdas de terra cultivável, que foram acrescentados aos já existentes. E adverte que o Stan e outros fenômenos naturais similares seriam menos danosos se fossem protegidos e aproveitados de maneira melhor os bosques e as coberturas vegetais.

Mas nas finanças macroeconômicas dos governos, tema que tanto preocupa seus credores e organismos financeiros internacionais, há uma relativa tranqüilidade. Zapata observou que as autoridades desses países preferem não contratar novos empréstimos nem alterar seus equilíbrios fiscais para atender ao golpe social desferido pelo Stan. O especialista prevê que os programas sociais oficiais que já estavam em andamento se voltarão para as comunidades afetadas. "O que acontece é que se deixará de ajudar a alguns para atender a outros", disse ele.

Na América Central vivem 43,2 milhões de pessoas e mais da metade é pobre. Os piores graus de desenvolvimento social correspondem a El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, países em que a população que vive abaixo da linha da pobreza, medida pela impossibilidade de satisfazer necessidades básicas, flutua entre 30% e 60% do total. Mesmo antes de avaliar o impacto do Stan, a Cepal advertiu que seria improvável que vários dos países centro-americanos cumprissem a projetada redução da pobreza extrema nos prazos previstos nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, acordados em setembro de 2000 pela Organização das Nações Unidas.

O primeiro objetivo relacionado à erradicação da pobreza extrema e da fome, propõe reduzir à metade, entre 1990 e 2015, o percentual de pessoas cuja renda seja inferior a um dólar por dia e que padeçam de fome.Embora na América Central o PIB tenha crescido desde o final dos anos 90 em percentuais entre 4,5% em 1999 e 3,8% em 2004, esse ritmo não se traduziu em uma redução significativa na pobreza e em melhorias em matéria de emprego e educação.

"Em nossos países o que importa é a macroeconomia e não a microeconomia, que é a que pode verdadeiramente nos tirar da pobreza", opinou o diretor da Fundação Menchú.

* O autor é correspondente da IPS.


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