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Psicose na Europa por causa da gripe aviária |
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Por Julio Godoy*
Na
França deixa-se de comer frango e teme-se, inclusive, as pombas
que pousam em suas varandas. Na Alemanha, sugere-se cancelar o Mundial
de Futebol.
PARIS.- A multiplicação de casos de aves selvagens
infectadas com o vírus da gripe aviária, em pelo menos sete países
da União Européia, está provocando uma psicose no continente, com
uma drástica redução no consumo carne de aves domésticas e numerosos
registros de novos focos. Na França, as vendas de produtos avícolas
caíram mais de 30% desde o dia 13 de fevereiro, quando se registrou
o primeiro caso de um pato selvagem infectado com o vírus H5N1,
em Joyeux, cerca de 500 quilômetros a sudeste de Paris.
“A queda no consumo se tornou notável durante o fim de semana de
18 e 19 de fevereiro”, disse ao Terramérica Jérôme Bédier, presidente
da federação francesa de comerciantes, que reúne as principais redes
de supermercados do país. “O produto mais afetado é o frango inteiro,
mas o baixo consumo também afeta pratos preparados com base em aves
domésticas”, acrescentou. A Organização Mundial da Saúde procurou
acalmar os ânimos, explicando que, segundo a evidência científica
atual, a carne de ave doméstica devidamente cozida não é perigosa,
porque o cozimento deixa o H5N1 inativo.
Os ovos, que também podem conter o vírus em sua casca e em seu interior,
tampouco devem ser consumidos crus ou passados por água nas zonas
afetadas por um foco. O mais perigoso é manipular aves enfermas,
vivas ou mortas. A maioria dos contágios em humanos aconteceu por
este tipo de contato direto com aves infectadas, sobretudo durante
o sacrifício. “Desde 17 de fevereiro, nossos serviços recebem mais
de três mil ligações por dia, de pessoas informando sobre aves mortas
ou preocupadas com as pombas que pousam em suas varandas”, disse
o ministro francês da Saúde, Xavier Bertrand. “O normal é recebermos
cerca de 30 alarmes por dia”, acrescentou.
Bertrand insistiu em que a França, que registrou aves infectadas
junto com Áustria, Alemanha, Eslovênia, Grécia, Hungria e Itália,
dispõe de um sistema de precaução eficiente e que o risco de transmissão
da doença para o ser humano é pequeno. Até hoje, a OMS identificou,
em todo o mundo desde que a epidemia começou no Vietnã, em 2003,
170 casos de contágio em seres humanos, dos quais 92 mortais. O
verdadeiro temor da organização é que o vírus sofra mutação para
outro capaz de favorecer o contágio entre humanos.
A União Européia já autorizou, no dia 22 de fevereiro, França e
Holanda a vacinar suas aves domésticas contra o vírus, em regiões
específicas e em condições estritas. Porém, a vacinação generalizada
é considerada perigosa, pois a vacina, embora iniba o desenvolvimento
da doença nos animais imunizados, impede diferenciar os sãos dos
infectados. Por isto a União Européia proibia a vacinação até essa
data. “Animais vacinados que foram infectados permanecem sãos, mas
levam o vírus no organismo e podem transmiti-lo facilmente”, disse
ao Terramérica Thomas Mettenleiter, diretor do Instituto Friedrich
Loeffler para a pesquisa virológica e veterinária da Alemanha. “O
vírus, confrontado com anticorpos, reage e muta. Por isso a vacinação
em massa de aves seria um erro”, afirmou.
A França também instalou centros de observação em regiões específicas
do país, onde a criação de aves é particularmente alta, e intensificou
os controles nos aeroportos e portos internacionais, para evitar
a entrada de aves procedentes de países não-europeus afetados pela
gripe do frango. No outono passado, a França suspendeu a importação
de aves e derivados como penas, destes mesmo países. Medidas semelhantes
foram adotadas em outros países da Europa, especialmente nos sete
onde o vírus foi identificado.
A Alemanha é hoje o país europeu mais afetado pela infecção de aves
selvagens com o vírus H5N1. Na ilha de Rügen, no Mar Báltico, nordeste
do país, as autoridades identificaram mais de cem aves selvagens
mortas infectadas, como cisnes, gansos, patos e, inclusive, uma
águia-de-asa-redonda (Buteo buteo). Outras foram encontradas no
continente, no litoral do Báltico. Toda a região foi declarada de
catástrofe. No total, as autoridades alemãs recuperaram mais de
dois mil cadáveres de aves selvagens. O H5N1 foi identificado em
6% deles. Como precaução, o governo alemão ordenou o sacrifício
de mais de três mil aves. Centenas de soldados com roupa de proteção,
continuam patrulhando o litoral do Mar Báltico em busca de cadáveres
de pássaros selvagens.
A descoberta dos animais infectados em Rügen reabriu na Alemanha
a discussão sobre os riscos de uma pandemia gripal no ser humano.
De acordo com dados do Instituto Roberto Koch para doenças pulmonares,
a mesma provocaria até 160 mil mortes apenas na Alemanha. O pânico
é tal que personalidades políticas alemãs sugeriram a suspensão
do campeonato mundial de futebol, programado para o meio do ano.
O diretor do programa contra a gripe aviária da OMS, Klaus Store,
apoiou essa idéia. “Se uma pandemia chegar a explodir até o verão,
o governo alemão deveria ter a coragem de suspender o campeonato”,
afirmou.
* O autor é correspondente da IPS.
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