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Reforma agrária sob a lupa |
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Por Jacques Diouf*
A
falta de terra provoca fome e pobreza em todo o mundo, alerta a
FAO. Em março, no Brasil, uma conferência discutirá sobre a redistribuição
deste recurso vital.
ROMA.- Se fosse possível fotografar “a pobreza”,
a imagem que se obteria seria a de uma família de camponeses sem-terra.
São eles, homens e mulheres, os mais pobres entre os pobres do mundo.
Nesta triste classificação, em seguida estariam aqueles que possuem
parcelas tão pequenas e exaustas que não conseguem lhes dar de comer.
O valor desta imagem reside em sua clara mensagem: a falta de terra
é uma das causas principais de fome e pobreza no mundo. Custa crer,
que no século XXI ainda há milhões de lares que vivem na miséria
por falta de acesso ao recurso produtivo mais básico, que é a terra.
As razões desta situação têm a ver com o valor da terra ao longo
dos séculos.
A terra é, foi e será, um ativo econômico essencial nas sociedades
rurais, mas seu valor monetário não é o único, nem o mais importante,
para muitos milhões de pessoas. Para os povos indígenas é a base
de sua identidade, é sua casa e a de seus antepassados, sua farmácia,
seu lugar de trabalho e de descanso. Na maioria das sociedades a
terra pode significar status, poder, pertinência a uma classe social.
E para muitas mulheres é a base de sua autonomia. A terra significa,
em definitivo, pertencer a um lugar, a uma cultura. Por isso, quando
falamos de homens e mulheres sem-terra, falamos de pessoas sem passado,
sem presente e sem futuro.
Algumas das reformas agrárias realizadas nos últimos anos procuraram
oferecer soluções para estes problemas, com maior ou menor êxito,
mas estamos longe de ter resolvido a questão agrária. Novos desafios
mundiais, como a globalização do comércio, o êxodo maciço para as
cidades, a degradação do meio ambiente ou os conflitos civis (causados,
muitas vezes, pela falta de acesso e controle dos recursos naturais),
demandam respostas urgentes no âmbito global.
Restam apenas dez anos para alcançar a meta fixada pela comunidade
internacional nas Metas de Desenvolvimento do Milênio de reduzir
pela metade a porcentagem de pessoas que sofrem fome. Apenas um
renovado compromisso em favor do desenvolvimento das zonas rurais
pobres permitirá romper o círculo vicioso de pobreza e fome em que
vivem mais de 840 milhões de pessoas no mundo. A Organização das
Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), com apoio
do governo do Brasil, decidiu assumir a liderança neste processo
e realizar a Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento
Rural.
O encontro, que acontecerá entre os dias 7 e 10 de março, em Porto
Alegre, pretende promover o intercâmbio de experiências a partir
da análise de vários processos de reforma agrária realizados em
todos os continentes. Em definitivo, se trata de preencher de conteúdos
renovados conceitos “malditos”, como o da reforma agrária, refletir
sobre o futuro do desenvolvimento rural e conseguir resultados concretos
que se materializem em alianças para a ação. Por isso, em Porto
Alegre a discussão se organizará em torno de grupos temáticos, a
partir de documentos e estudos de caso, e a Conferência concluirá
com uma declaração e um plano de ação, cujo cumprimento será acompanhado
por um painel de observadores internacionais.
A lista de temas a serem discutidos é tão longa quanto substancial:
como combinar a justiça social com o desenvolvimento sustentável,
como legislar as necessidades específicas de grupos nômades e sedentários,
quais devem ser os papéis do Estado e do mercado nos processos de
reforma agrária, como promover energias renováveis para revitalizar
as economias rurais e como avaliar o papel fundamental desempenhado
pelas mulheres na agricultura e na conservação dos recursos naturais.
* O autor é diretor-geral da FAO desde 1994.
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