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A refinaria avança, apesar das críticas |
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Por Diego Cevallos*
Contra
o ceticismo de analistas, o México leva adiante a refinaria mesoamericana,
que é a estrela de um plano de integração energética sustentável
com a América Central e a Colômbia.
MÉXICO.- O projeto mexicano, de construir uma
refinaria na América Central, enfrenta obstáculos que o tornam inviável,
segundo observadores. Entretanto, os governos dessa região, bem
como a administração do presidente Vicente Fox, asseguram que é
uma excelente idéia e que se concretizará. A quatro meses das eleições
para escolher o sucessor de Fox e a nove do final de seu mandato,
o governo não baixa a guarda em sua proposta. A refinaria, com custos
estimados de US$ 4 bilhões, deve ser abastecida com petróleo mexicano
e produzir derivados para o México e vizinhos centro-americanos,
onde a produção petroleira é mínima.
“Apostamos que a refinaria – que será basicamente privada – acontecerá,
pois convém a todos nós”, disse ao Terramérica Salvador Beltrán
Del Rio, diretor de Assuntos Internacionais da Secretaria de Energia
do México. O governo Fox não desanima com as sombrias perspectivas
futuras de seu país como exportador de petróleo, nem com a drástica
queda de suas vendas petrolíferas para a América Central, nem com
a desqualificação do plano pelo esquerdista Andrés Manuel López
Obrador, o candidato presidencial que está na frente, segundo as
pesquisas.
As vendas de petróleo pelo México, cujas reservas estão em queda
e no momento asseguram cerca de 13 anos mais de produção, abastecem
apenas 12% do consumo anual de petróleo da América Central, onde
a Venezuela é a maior vendedora de petróleo e derivados, seguida
de Estados Unidos, Equador e Chile. Entre março e final de maio,
uma empresa de consultoria privada, contratada pelo Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID), estudará em qual país centro-americano
e sob quais condições a refinaria poderia ser construída.
Beltrán del Río disse acreditar que a consultoria dará boas notícias
e afirmou que o governo vai contribuir com a construção da refinaria,
mas para deixar sua administração em mãos privadas. “É um projeto
que ficará blindado contra qualquer mudança política”, afirmou.
A refinaria é a estrela de um projeto de integração energética sustentável
entre México, América Central e Colômbia, que inclui interligações
elétricas, construção de gasodutos e incentivos a energias renováveis
e à eficiência energética, ao custo de US$ 9 bilhões e com apoio
do BID.
Segundo o governo Fox, o projeto vai liberar seus sócios de problemas
de abastecimento, levará à integração, reduzirá a poluição, baixará
os custos do transporte, fortalecerá a cooperação e fará da América
Central uma região mais atraente para os investimentos. Porém, o
que mais entusiasma, no momento, é a refinaria. O chefe da Unidade
de Energia da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal),
Fernando Cuevas, disse ao Terramérica que a unidade vai gerar empregos
e atrair investimentos em empresas ligadas ao fornecimento de bens
e serviços.
“O principal benefício de sua construção será a entrada de um novo
fornecedor de produtos derivados de petróleo na região centro-americana,
o que permitiria incrementar a competição. Isso poderia se traduzir
em reduções de preços no âmbito de cada país, sempre e quando o
número de atores e o nível de competição for forte”, disse Cuevas.
E acrescentou que “hoje existe uma capacidade muito limitada de
refino no mundo, o que poderia se tornar crítico nos próximos cinco
a dez anos, se não forem construídas novas refinarias”. O México
promete abastecer essa nova refinaria com uma média diária de 250
mil barris de petróleo pesado.
Em 2005, o México produziu 3,3 milhões de barris/dia, número ligeiramente
inferior ao do ano anterior. Segundo diversos estudos e especialistas,
este seria seu teto, pois, de agora em diante, sua produção começaria
a cair. Por trás da promoção da refinaria mesoamericana está o fato
de o México, onde o petróleo é administrado pela estatal Pemex,
ter pouco dinheiro para construir uma nova refinaria em seu território
e limitações legais de associação a empresas privadas. A Pemex pode
receber recursos privados e se associar com outras companhias somente
se o negócio for no exterior. Por isso, e diante de seus problemas
financeiros, nos últimos anos grande parte do petróleo local passou
a ser refinado em outros países.
O especialista David Shields, que dirige no México uma publicação
especializada em energia, disse ao Terramérica que o plano mexicano
de instalar uma refinaria na América Central não tem “nenhuma lógica”.
Nesse projeto “tudo é mais ou menos um engano”, afirmou. O petróleo
atual do México é muito pesado para ser transportado para essa região
e dentro de uns cinco ou seis anos, quando a refinaria estiver pronta,
se não ocorrer nada de extraordinário, a Pemex já não terá petróleo
suficiente para abastecê-la, advertiu. “Contudo, sempre se pode
fazer um projeto (que parece) inviável se há apoio político ou econômico
como o do BID”, acrescentou.
Roger Cerda, ex-diretor do Instituto Nicaragüense de Energia e atual
assessor do Banco Central do país, também questiona a construção
da refinaria. “É uma proposta tirada do bolso do colete”, com o
afã de contrapor-se aos crescentes negócios na área do petróleo
por parte da Venezuela na América Central, disse Cerda ao Terramérica.
“O problema é que se trata de um projeto bastante ambicioso e caro
e que, no fundo, só está inspirado em uma conjuntura difícil, o
que pode fazer com que fracasse”, afirmou. Os governos da América
Central vêem na proposta mexicana uma tábua de salvação para seus
problemas de abastecimento e esperam que se chegue a um acordo ao
final da reunião que os presidentes da região manterão, no final
de maio, para afinar o projeto.
Na América Central, somente a Guatemala produz petróleo, enquanto
instalações de refino existem unicamente na Costa Rica, El Salvador
e Nicarágua. Nos demais países, esse tipo de atividade foi encerrada
por problemas financeiros e técnicos. Em 2004, a região importou
94,7 milhões de barris, dos quais 83,5% corresponderam a derivados
e somente 16,5% a petróleo. O valor total dessa importação foi de
US$ 3,948 bilhões, 23,3% superior ao de 2003. Beltrán del Río, da
Secretaria de Energia do México, assegurou que o plano não tem volta,
a menos que a consultoria que atualmente o analisa o rechace. “O
México e a Pemex garantem que a refinaria terá os recursos e o petróleo
suficientes para garantir seu funcionamento, e, se em um dado momento,
houver a possibilidade de se processar petróleo de outros países,
não nos oporemos”, afirmou.
* O autor é correspondente da IPS.
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