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A
água é um direito ou um negócio? |
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Por Leonardo Boff*
Os
Estados deveriam garantir a todos os seres humanos pelo menos 50
litros de água potável gratuita por dia, afirma neste artigo exclusivo
para o Terramérica o teólogo brasileiro Leonardo Boff.
RIO DE JANEIRO.- No mundo contemporâneo não
existe um assunto mais importante do que o da água doce. Dela depende
a sobrevivência da cadeia da vida e, por conseguinte, do nosso futuro.
A água pode ser motivo de guerras, mas também de solidariedade e
cooperação entre os povos. A água é extremamente abundante e, ao
mesmo tempo, extremamente escassa. Há 97% de água salgada e 3% de
água doce. E desta, somente 0,7% é acessível ao uso humano. A renovação
das águas é estimada em 43 mil quilômetros cúbicos anuais, enquanto
o consumo total é de seis mil quilômetros cúbicos. Embora isto indique
superabundância, a distribuição da água é desigual: 60% se concentra
em nove países, enquanto 80 nações sofrem escassez. Um pouco menos
de um bilhão de pessoas consomem 86% da água disponível, que, por
outro lado, é insuficiente para outros 1,4 bilhão.
Calcula-se que, até 2032, cerca de cinco bilhões de pessoas estarão
afetadas pela crise da água. O problema não é a escassez, mas seu
manejo em relação às necessidades humanas e dos demais seres vivos.
O certo é que a água se converteu em um bem caro. Como vivemos em
uma economia de mercado que transforma tudo em mercadoria, assistimos
a uma corrida mundial pela privatização da água. Nela competem corporações
multinacionais como as francesas Veolia (antiga Vivendi) e Suez,
a alemã RWE, a inglesa Thames Water e a norte-americana Bechtel,
entre outras. Assim, surgiu um mercado da água estimado em US$ 100
bilhões.
O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial só aceitam o financiamento
das dívidas e a concessão de novos empréstimos a 40 países, desde
2000, sob a condição de privatizarem a água e seus serviços. O grande
debate atual ocorre nos seguintes termos: a água é fonte de vida
ou fonte de lucro? Comecemos por estabelecer que a água não é um
bem econômico como qualquer outro. Está tão estreitamente ligada
à vida que devemos considerá-la como parte da própria vida e como
algo sagrado. E a vida não pode ser transformada em uma mercadoria.
Para entender a riqueza da água, temos de romper com a ditadura
que o pensamento instrumental-analítico e utilitarista impõe a toda
a sociedade. Segundo este arrazoado, a água é um recurso hídrico
com o qual se pode fazer negócios. Porém, o ser humano também tem
a razão sensível, a razão emocional e a razão espiritual. São razões
ligadas ao sentido da vida. São razões não para lucrar, mas para
viver e dar excelência à vida. A água deve ser vista nesta perspectiva,
como um bem natural e como o nicho onde há 3,8 bilhões de anos surgiu
a vida na Terra.
As dimensões de fonte da vida e de recurso hídrico não se excluem,
devem ser diretamente relacionadas. Fundamentalmente, a água pertence
ao direito da vida, mas exige uma complexa estrutura de captação,
conservação, tratamento e distribuição, o que implica uma inegável
dimensão econômica. Esta não deve prevalecer sobre a primeira, e
deve assegurar que a água seja acessível a todos. Deveria-se garantir
a todos os seres humanos pelo menos 50 litros de água potável gratuita
por dia. É tarefa do Estado, junto com a sociedade organizada, a
criação de um financiamento público para cobrir os custos necessários
para garantir esse direito. As tarifas para o fornecimento devem
contemplar os diversos usos da água: doméstico, industrial, agrícola
e recreativo. Para os usos industrial e agrícola o fornecimento
de água deve estar condicionado ao pagamento pelo serviço.
A Organização das Nações Unidas consagrou nas reuniões de Mar del
Plata (1997), Dublin (1992), Paris (1998) e Rio de Janeiro (1992)
o “direito de todos ao acesso a água potável em quantidade suficiente
e com qualidade para as necessidades essenciais”. Para discutir
sobre estes assuntos vitais criou-se em Florença (2003) o Fórum
Mundial Alternativo da Água, que propõe a instituição da Autoridade
Mundial da Água. Seria uma instância de governo público para cuidar
da água no âmbito das bacias hídricas internacionais e de uma distribuição
mais eqüitativa de acordo com as demandas regionais.
Paralelamente, formou-se um movimento que propõe um Contrato Mundial
da Água e pressiona governos e empresas para que a água não seja
considerada como uma mercadoria. Procura-se incentivar a cooperação
pública para evitar os efeitos letais da falta de água e da água
contaminada. Diariamente morrem de sede seis mil crianças, que não
são noticia. E aproximadamente 18 milhões de crianças deixam de
ir à escola porque devem buscar água a distâncias entre cinco e
dez quilômetros de suas casas. O Fome Zero Mundial, previsto nas
Metas de Desenvolvimento do Milênio, deve incluir o Sede Zero, pois
a água é um alimento e não há nada que possa viver e ser consumido
sem água. Pois a água é vida, geradora de vida e um dos símbolos
mais potentes de vida eterna.
* O autor é teólogo e ambientalista brasileiro.
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