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Reclamações territoriais reavivadas no Ártico |
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Por Stephen Lehay*
Começa a expedição que ajudará Canadá e Dinamarca a provarem sua soberania sobre áreas desta gelada região, rica em petróleo e gás.
TORONTO, Canadá.- Canadá e Dinamarca lançaram, no início de abril, uma expedição conjunta que busca traçar um mapa do subsolo do Ártico e que ajudaria a provar suas reclamações de soberania sobre áreas com potenciais recursos em petróleo e gás. Enquanto a escuridão do inverno se levanta sobre a vasta região ártica canadense, helicópteros e aviões transportam cientistas e equipamentos de pesquisa sísmica dos dois países para este projeto, que tem custo entre US$ 50 milhões e US$ 60 milhões.
Ninguém sabe onde acaba o Canadá. Sua fronteira setentrional nunca foi estabelecida em um mapa porque todo o ano fica coberta por uma camada de gelo de cinco a dez metros de espessura. Embora esteja na Europa setentrional, a Dinamarca considera como seu território a Groenlândia, que se localza a poucas dezenas de quilômetros das ilhas árticas do Canadá. “A expedição é um esforço único de cooperação, embora os dois países tenham reivindicações territoriais sobrepostas”, disse Rob Huebert, professor do Instituto Ártico da América do Norte, ligado à Universidade de Clagary, na província canadense de Alberta.
“Trabalhando juntos, os dois países podem dividir os custos e coincidir na ciência”, disse Huebert ao Terramérica. Nas próximas duas semanas os cientistas realizarão 11 perfurações no gelo ao longo de uma cadeia montanhosa submarina no Oceano Ártico, chamada Lomonosov Ridge. Ela divide o Oceano Ártico pela metade e se estende ao longo de 1,8 mil quilômetros, desde as Novas Ilhas Siberianas da Rússia, passando pela parte central do Oceano, pelo Pólo Norte, até a ilha canadense Ellesmere e a Groenlândia. A largura do Lomonosov Ridge varia de 60 a 200 quilômetros e a altura fica entre 3,3 mil e 3,7 mil metros acima do nível do mar, mas mil metros, ou mais, são submarinos.
Como foi descoberto em 1948 por Mikhail Lomonosov, um cientista da ex-União Soviética, a Rússia alega que é uma extensão da Sibéria. Funcionários canadenses e dinamarqueses discordam, alegando que é uma continuação de suas massas continentais. E esperam demonstrar isso dinamitando dentro das perfurações feitas no gelo. As fortes ondas submarinas derivadas dessas explosões serão rastreadas por cerca de 150 sismógrafos digitais instalados ao longo da cadeia montanhosa. Os ângulos e a velocidade dessas ondas podem ser usados para criar um mapa tridimensional do solo oceânico e do Lomonosov Ridge.
Sob a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, os países controlam os recursos submarinos em uma zona de exclusão econômica de 200 milhas náuticas (370 quilômetros) a partir de sua costa. Se Canadá e Dinamarca puderem demonstrar que sua plataforma continental se estende para além dessa distância, podem reivindicar direitos sobre os recursos do solo marinho em até 350 milhas náuticas (cerca de 650 quilômetros), disse Huebert. “Os altos preços do petróleo e do gás geram este novo interesse pela região ártica”, acrescentou. Tradicionalmente, o Canadá ignorou seu norte gelado, que abrange 40% de seu território, mas tem relativamente poucos habitantes e um clima extremamente severo.
Com o aquecimento do planeta, o clima do ártico está se suavizando: é dois graus mais quente, em média, e pode chegar entre seis e oito graus antes de 2100. O gelo marinho derrete, tornando a região muito mais acessível. De acordo com Michael Byers, especialista canadense em Política Global e Direito Internacional da Universidade de Colúmbia Britânica, o Ártico poderia abrigar cerca de 25% das últimas reservas potenciais de petróleo e gás do mundo. Tanto Canadá quanto Dinamarca reivindicam a diminuta ilha Hans, perto da Groenlândia. Embora vá demorar anos de negociação, Byers espera que os dois países resolvam amigavelmente suas questões de soberania.
As da Rússia podem ser mais problemáticas. Entretanto, a reivindicação mais difícil de todas implica os Estados Unidos, em particular, uma histórica disputa pela soberania da Passagem Nordeste, que vai do Atlântico ao Pacífico através do arquipélago ártico do Canadá. Washington o considera internacional desde a década de 50. “Será um grande desafio conseguir que mude sua posição”, disse Byers. A União Européia e o Japão mantiveram posições semelhantes quando a Passagem ficou praticamente sem gelo, no verão, devido ao aquecimento global. As rotas da Europa para o Distante Oriente são reduzidas em quatro mil quilômetros através da Passagem, em comparação com as rotas atuais através do Canal do Panamá.
Para o Canadá se trata de uma hidrovia interna que não pode ser usada sem autorização expressa. Esta semana, 46 soldados canadenses realizaram uma viagem de 4,5 mil quilômetros pelo gelo ao longo da Passagem, na primeira missão oficial do que será uma expedição anual. “Esta terra é nossa, e esta (outra) também”, disse o líder da expedição, tenente-coronel Drew Artus.
* * O autor é colaborador do Terramérica.
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