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do “príncipe da maconha” |
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Por Stephen Leahy*
Os
Estados Unidos pedem a extradição do canadense Marc Emery, que vendeu
sementes da erva pela Internet durante 11 anos. “Não sou narcotraficante,
e sim um ativista político a favor da legalização das drogas”, disse
Emery ao Terramérica.
TORONTO.- O canadense Marc Emery, chamado de
“príncipe da maconha”, diz que o pedido de extradição, apresentado
pelos Estados Unidos, e que pende sobre ele por vender sementes
de maconha pela Internet, é uma manobra “sádica” do governo Bush
para calar o movimento pró-legalização das drogas. “É uma tentativa
cruel e sádica do governo (dos Estados Unidos) para castigar os
livre-pensadores”, disse Emery ao Terramérica. “A DEA (agência antidrogas
norte-americana) age como um todo-poderoso esquadrão da morte que
abarrota prisões e desperdiça milhares de dólares”, afirmou.
A audiência sobre sua extradição pode acontecer em dezembro e é
provável que seja concedida, devido à clara inclinação a favor da
política antidrogas dos Estados Unidos por parte do novo governo
conservador do Canadá. Se isso ocorrer, Emery enfrentará mais de
20 anos de prisão. Sempre no centro dos refletores, Emery comercializou
via Internet sementes de maconha (Cannabis sativa) durante 11 anos,
com vendas anuais de até US$ 3 milhões, segundo suas próprias informações.
Porém, nunca vendeu maconha, embora agentes da DEA freqüentemente
tentassem armar uma armadilha para ele se fazendo passar por compradores.
Seu negócio ruiu em julho de 2005, quando a DEA e a Real Polícia
Montada do Canadá (RCMP) confiscaram suas propriedades e praticamente
tudo o que estava vinculado à sua empresa de venda de sementes.
Emery assegura, entretanto, não ser um vendedor de drogas, e sim
um ativista político que luta para acabar com a proibição que paira
sobre a maconha. Ele é editor da revista Cannabis Culture e líder
do Partido da Maconha no Estado canadense de Colúmbia Britânica.
Nos últimos anos, doou cerca de US$ 4 milhões para pagar advogados
de plantadores de maconha que são levados aos tribunais e para organizar
conferências em favor de legalização.
A última, intitulada “Podemos falar?”, aconteceu na cidade de Montreal,
na segunda semana de maio, coincidindo com a XXIV Conferência Internacional
sobre Repressão das Drogas, organizada pela DEA e pela RCMP, da
qual participaram representantes policiais e de agências antidrogas
de mais de 80 países. Os dois organizadores foram convidados a participar
da reunião alternativa de Emery, mas rejeitaram o convite. Também
se negaram a dar entrevista para esta matéria do Terramérica. Do
contra-simpósio participaram destacados oradores, como o juiz argentino
Martín Vázquez Acuñas, o juiz canadense Jerry Paradis, vários professores
de Direito, advogados e ativistas pelos direitos civis.
“A guerra contra as drogas não está funcionando”, disse Terry Nelson,
policial do Texas que durante 30 anos prendeu muitos vendedores
de drogas na fronteira entre Estados Unidos e México. O melhor é
legalizar tudo, da maconha às drogas mais pesadas, como cocaína
e heroína, disse aos jornalistas. Marc-Boris St-Maurice, diretor-executivo
da NORML-Canadá, uma organização pró-legalização da maconha que
participou da reunião, concordou com Nelson: “A proibição das drogas
foi um fracasso. Deve-se explorar novos caminhos. A maioria em nossa
reunião acredita que a legalização e regulamentação governamental
das drogas é o caminho a seguir”, afirmou St-Maurice.
Muitos concordam que o julgamento de Emery busca calar o movimento
pró-legalização. Emery foi detido 21 vezes e encarcerado 17. Sua
última prisão foi a pedido de Washington, em julho de 2005, e coincidiu
com o confisco de sua empresa. “A Marc Emery Direct foi o maior
negócio de sementes de maconha do mundo, com vendas anuais entre
US$ 1,5 milhão e US$ 3 milhões”, informou Emery com orgulho. Seu
catálogo de sementes chegou a incluir até 540 variedades de maconha
de todo o mundo. “Tínhamos todos os tipos que agradavam as pessoas:
com folhas de cores diferentes, variedades longas e curtas, resistentes
ao gelo e ao frio”, disse.
Uma rede de plantadores independentes, principalmente canadenses,
obteve sementes de outros países e as plantou para obter características
únicas. Os clientes de Emery faziam sua seleção pelo catálogo e
mandavam uma ordem de pagamento. As sementes, tratadas com óleo
para evitar odores, eram enviadas pelo correio em pequenos envelopes
convencionais forrados de plástico corrugado por dentro. “Os funcionários
de aduanas nunca encontraram um único envelope e eu quase nunca
ouvi que alguém tenha sido preso pela polícia por comprar sementes
pela Internet”, contou Emery.
O “príncipe da maconha” não apresentou registros de seus 140 mil
clientes nem dos plantadores de sementes, mas não escondeu que as
vendia para sobreviver. Pagou cerca de meio milhão de dólares em
impostos sobre suas vendas, embora estas sejam ilegais no Canadá.
Emery garante que quando o uso medicinal da maconha foi legalizado,
há poucos anos, funcionários da área de saúde do governo o recomendaram
como fonte de sementes. Agora, o governo cultiva suas próprias sementes.
Embora Emery tenha sido multado por vendê-las, “ninguém jamais foi
para a cadeia no Canadá” por isso. As coisas são diferentes nos
Estados Unidos. Um amigo de Emery cumpre 30 anos no Estado de Oklahoma
por cultivar 200 pés de maconha. No outono passado, uma pesquisa
independente revelou que 58% dos canadenses eram contrários à extradição
de Emery e, segundo ele, hoje o número dos que se opõem é maior.
“Minha prisão teve motivo político”, assegurou.
* O autor é correspondente do Terramérica.
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