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Em defesa da despensa da humanidade |
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Por Jacques Diouf*
O
planeta deverá dar de comer a mais 1,5 bilhão de pessoas em 2050.
É urgente otimizar a produção de alimentos.
ROMA, 10 de julho (Terramérica).- Acabar com
o flagelo da fome é um dos maiores desafios que a humanidade deve
enfrentar na entrada do século 21. Com uma população mundial que
está prevista chegar aos oito bilhões em 2050, a Terra terá de alimentar
mais 1,5 bilhão de pessoas. Isto exige um aumento proporcional da
produção alimentar para não piorar a situação. Assim, se faz necessário
intensificar e otimizar a produção de alimentos. Entretanto, os
recursos naturais sobre os quais se baseia a agricultura são limitados
ou estão sendo submetidos a um processo de erosão crescente.
As possibilidades, por exemplo, de incrementar a extensão de terras
cultiváveis ou o uso de recursos hídricos já são reduzidas. Uma
das chaves para enfrentar o futuro com êxito é a conservação e o
uso sustentável dos recursos genéticos vegetais, a matéria-prima
que os agricultores e pesquisadores utilizam para melhorar constantemente
a qualidade e a produtividade de nossos cultivos. Os recursos genéticos
agrícolas permitem à humanidade fazer frente a potenciais desafios
naturais e socioeconômicos, como as novas pragas, a mudança climática
e a melhora da dieta alimentar.
Ao longo dos últimos cem anos, ocorreu uma enorme perda de diversidade
genética. Estima-se que nesse período cerca de três quartos da diversidade
genética agrícola se perderam, e esta tendência continua. Atualmente,
pouco mais de uma centena de espécies cultivadas constituem a base
de nossa alimentação. Para garantir a conservação de um patrimônio
de vital importância para a humanidade, a Organização das Nações
Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) elaborou o Tratado
Internacional sobre os Recursos Fitogenéticos, que, sem dúvida,
pode ser considerado o primeiro grande acordo internacional do terceiro
milênio e uma pedra miliar na cooperação Norte-Sul.
Negociado pelos países-membros sob patrocínio da FAO, entrou em
vigor em junho de 2004, ao término de um longo processo iniciado
na década de 70. Trata-se de um instrumento juridicamente vinculante,
pelo qual cada país que o ratificou deverá elaborar a legislação
e os regulamentos que necessite para aplicá-lo em nível nacional.
Este tratado é crucial na luta contra a fome e a pobreza e essencial
para atingir a erradicação da fome e da pobreza extrema (o primeiro
dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio) e garantir a sustentabilidade
do meio ambiente (a sétima meta). A FAO calcula que a interdependência
média dos países é de 70%: todos dependem da diversidade genética
das plantas de outros países e regiões para garantir a segurança
alimentar de seus povos.
O tratado oferece um contexto normativo para as políticas nacionais
e a cooperação internacional, incluindo a conservação, coleção e
avaliação dos recursos fitogenéticos para a alimentação e a agricultura,
com a criação de uma rede internacional e um sistema de informação
mundial. O acordo reconhece pela primeira vez os direitos dos agricultores
como guardiões da diversidade biológica agrícola e estabelece um
sistema multilateral, que facilita o acesso aos recursos fitogenéticos
para as partes contratantes, ao mesmo tempo em que assegura a distribuição
de benefícios em nível multilateral.
A primeira reunião do órgão reitor do tratado aconteceu em junho,
na cidade de Madri, com a participação de mais de uma centena de
países que o ratificaram. A reunião contou com um grande consenso
para tornar o acordo operacional, por exemplo, no tocante à transferência
de germoplasma, regulando o acesso aos recursos genéticos de 64
cultivos que constituem 80% dos alimentos que a humanidade consome.
Podemos afirmar que no competitivo contexto internacional de hoje
o Tratado supõe uma notícia extraordinariamente boa. Em seu desenvolvimento,
toda a sociedade deveria se beneficiar de diversas maneiras:
- Os agricultores e suas comunidades, por seus direitos. O Tratado
reconhece em nível internacional, pela primeira vez, a enorme contribuição
que os agricultores deram e continuam dando à conservação e ao desenvolvimento
dos recursos fitogenéticos;
- Os consumidores, devido à maior variedade de alimentos disponíveis,
bem como de produtos agrícolas, junto com o aumento da segurança
alimentar;
- A comunidade científica, por terem acesso aos recursos fitogenéticos,
de importância fundamental para a pesquisa e a melhoria das plantas;
- Os centros internacionais de pesquisa agrícola, a cujas coleções
o Tratado oferece uma base jurídica de longo prazo;
- Os setores público e privado, aos quais se assegura o acesso a
uma ampla gama de diversidade genética para melhorar o desenvolvimento
agrícola; e
- O meio ambiente e as futuras gerações, já que o Tratado ajudará
a conservar a diversidade genética necessária para enfrentar as
mudanças imprevisíveis do meio ambiente e as necessidades humanas
futuras.
Temos o imperativo moral de fazer o acordo funcionar, já que os
recursos fitogenéticos constituem uma autêntica “despensa” da humanidade.
Um legado acumulado por gerações de agricultores durante milênios,
que devemos defender e que é decisivo para a segurança alimentar.
Ao fazê-lo, pretendemos alcançar um dos objetivos que figura nas
bases da carta de fundação da FAO: erradicar a fome da face da Terra.
* O autor é diretor-geral da FAO. Direitos
reservados IPS.
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