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Mosquito
transgênico contra a malária |
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Por Mario Osava*
Em
uma década, poderiam render frutos as investigações para erradicar
esse sofrimento, que afeta 40% da população mundial concentrada
em 90 países.
RIO DE JANEIRO, 17 de julho (Terramérica).-
O brasileiro Centro de Pesquisa René Rachou modificou geneticamente
um mosquito para retirar sua capacidade de transmitir o parasita
da malária. Se esse mosquito conseguir se multiplicar na natureza,
tomando o lugar dos originais, ajudará a controlar uma doença que
afeta entre 300 milhões e 500 milhões de pessoas por ano, 90% delas
na África, provocando um milhão de mortes por ano. Esta é uma perspectiva
de longo prazo – “no mínimo, dez anos” – disse ao Terramérica Luciano
Andrade Moreira, que coordena a pesquisa, iniciada em 2003, no Centro
Rachou, da Fundação Oswaldo Cruz, em Belo Horizonte, capital do
Estado de Minas Gerais.
A modificação genética consiste em introduzir no genoma do mosquito
uma proteína que produz uma enzima para bloquear o parasita da malária.
Há cinco anos, pesquisadores norte-americanos descobriram essa enzima
no veneno de abelhas. Sua função é impedir que o parasita saia do
intestino do inseto. No momento, somente se conseguiu alterar o
mosquito Aedes fluviatilis, vetor da malária em galinhas, e não
o do gênero Anopheles, que provoca a doença em humanos. Essa escolha
inicial se deveu à facilidade de multiplicar esse mosquito em laboratório
e a semelhanças entre os parasitas, além de questões de segurança,
já que uma possível fuga não seria perigosa para a saúde humana,
explicou o pesquisador. O próximo passo será fazer o mesmo com o
Anopheles aquasalis, que vive onde existe água salobra.
Entretanto, para que a estratégia seja efetiva, será necessário
modificar o mosquito que mais propaga a enfermidade no Brasil, o
Anopheles darlingi, que ainda não pode ser multiplicado em laboratório.
Depois de criar os insetos transgênicos adequados em laboratório,
será necessário comprovar se sobrevivem na natureza e se reproduzem
normalmente. Terão de proliferar com um desempenho no mínimo idêntico
para irem substituindo a população normal de mosquitos e, assim,
reduzir o contágio, observou Moreira. O combate à malária por esse
caminho é pesquisado há cerca de 20 anos, buscando-se espécies de
mosquitos que mais transmitem o plasmódio.
Os Estados Unidos e alguns países europeus desenvolveram a técnica,
concentrando-se nos vetores africanos, mais mortíferos. Moreira
a aprendeu durante seu doutorado nos Estados Unidos e a aplicou
aos mosquitos brasileiros, no primeiro projeto desta característica
em países em desenvolvimento. Contudo, esta não será a solução definitiva
para a malária, que exige combinação de “diferentes estratégias”,
incluindo as convencionais, como melhor assistência médica, saneamento
e redução dos mosquitos, admitiu. É difícil uma vacina que resulte
plenamente eficiente, porque o plasmódio “é versátil, se modifica
e é diferente no Brasil, na África e na Ásia”, afirmou.
A malária ameaça a saúde pública em 90 países, onde vivem 40% da
humanidade. Em 2005, foram registrados 591 mil novos casos no Brasil.
O parasita mais comum no país é menos letal do que o africano, e
causou 88 mortes. A quase totalidade dos infectados vive na Amazônia.
Um estudo semelhante, mais voltado para a dengue, se desenvolve
na Universidade de São Paulo. Essas pesquisas contribuem para o
conhecimento da fisiologia dos mosquitos, seus anticorpos, ciclos
de desenvolvimento e a interação entre eles e os parasitas. Isso
pode ter outros benefícios, como uma vacina para bloquear a transmissão,
se for identificada alguma proteína com essa propriedade, explicou
Moreira.
Essa vacina, aplicada a uma pessoa, não impede que ela se infecte,
mas o mosquito que a pica perde sua capacidade de contágio. Um obstáculo
será a resistência de ativistas antitransgênicos. Toda modificação
genética preocupa, porque envolve riscos, principalmente quando
se trata de um inseto, que se move, assinalou Gabriel Fernandes,
coordenador da Campanha por um Brasil Livre de Transgênicos. “Há
outros métodos mais seguros de controle da malária”, disse ao Terramérica.
E o transgênico “não é uma panacéia”. Aplicado na agricultura, gerou
somente dois tipos de produtos efetivos, resistentes a herbicidas
e a insetos, depois de 30 anos de pesquisas e dez de uso comercial,
acrescentou.
Quando chegar a fase de testes no campo serão adotadas todas as
medidas de segurança e controle, como liberar os mosquitos transgênicos
em uma área restrita e com um cinturão de inseticidas para exterminá-los,
explicou Moreira. No momento, a questão não é de segurança biológica,
“porque o produto ainda não existe” nem se comprovou sua viabilidade,
e o experimento limita-se a laboratórios de contenção, afirmou Silvio
Valle, coordenador do curso de Biossegurança da Fundação Oswaldo
Cruz do Rio de Janeiro. Antes é preciso avaliar se foram esgotadas
as medidas convencionais de combate à malária – que compreendem
dimensões econômicas, ambientais, sociais e éticas – e se não há
alternativas mais baratas e de maior benefício, disse ao Terramérica.
* O autor é correspondente da IPS.
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