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Brasil experimenta transporte movido a hidrogênio

Por Mario Osava*

Os primeiros ônibus movidos com esta energia alternativa estarão circulando no Brasil em 2007. Porém, não serão competitivos antes de 15 anos, segundo especialistas.

RIO DE JANEIRO, 19 de agosto (Terramérica).- O Brasil se colocou ao lado dos países industrializados na corrida pelo uso do hidrogênio, ao anunciar o desenvolvimento de ônibus movidos por essa fonte de energia limpa. Entretanto, especialistas alertam que os novos veículos terão viabilidade comercial somente no final da próxima década, ou na seguinte. Cinco ônibus com células de combustível de hidrogênio serão colocados em teste no ano que vem, em São Paulo e cidades vizinhas. A experiência de quatro anos prevê que serão percorridos um milhão de quilômetros. Se forem aprovados, a frota será ampliada para cem a 200 veículos. Um projeto semelhante também começará em 2007 no Rio de Janeiro.

O hidrogênio permite fabricar veículos mais duradouros e que produzem menos barulho, além de ser uma opção atraente frente à estratosférica alta dos preços do petróleo e da necessidade de preservação do meio ambiente. O hidrogênio apresenta “um salto em eficiência de 20% a 30% em relação aos atuais motores a explosão, que são ineficientes e aproveitam apenas um terço da energia gerada pelos combustíveis líquidos”, explicou ao Terramérica Jayme Buarque de Hollanda, diretor-geral do Instituto Nacional de Eficiência Energética (INEE). O hidrogênio é produzido por eletrólise da água, do gás natural ou do álcool.

O projeto de ônibus movido a hidrogênio em São Paulo, que conta com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), optou pela eletrólise, a tecnologia mais prática e disponível. O problema é o investimento inicial. “O protótipo desses veículos custa quase dez vezes o preço de um ônibus movido a óleo diesel”, disse ao Terramérica Márcio Schettino, coordenador do projeto, desenvolvido por uma associação entre a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU) de São Paulo e o Ministério de Minas e Energia. “Serão necessários cerca de 15 anos para que essa tecnologia seja competitiva com os demais veículos”, acrescentou.

Viabilizar economicamente o hidrogênio exige tempo. “Sua produção (seja a partir da água, do gás ou do álcool) ainda é muito cara. Além disso, há problemas de transporte e armazenagem, porque se trata de um produto inflamável e volátil”, destacou Antônio Nunes Júnior, presidente da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE). Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, um projeto em consórcio com várias parcerias (Petrobrás, fabricantes de ônibus e instituições científicas) produzirá hidrogênio a partir do gás natural, para abastecer um ônibus que deverá circular, também a partir de 2007, nas proximidades da Universidade. O objetivo desse projeto é “desenvolver a tecnologia e a pesquisa”, distinguindo-se do de São Paulo, que é voltado a testar os ônibus na prática”, destacou Nunes.

De acordo com Hollanda, no Brasil não haveria grande problema em dispor de eletricidade para a eletrólise, e também parece promissor obter hidrogênio do etanol, que já é produzido em grande quantidade no país e apresenta grande eficiência energética e importantes vantagens ambientais. “A energia limpa não existe”, já que todas as fontes produzem alguma contaminação, embora em quantidades e tipos diferentes, afirmou Hollanda, minimizando os argumentos que apresentam o hidrogênio como fonte de “contaminação zero”. O que se deve fazer “é buscar a que prejudica menos o meio ambiente e a solução mais adequada em cada lugar”, acrescentou.

No momento, diante da incerteza em torno do hidrogênio, o Brasil aposta nos veículos elétricos híbridos (VEH). Essa tecnologia, usada em 43 ônibus que já circulam pela Grande São Paulo, combina a geração de eletricidade a partir de um combustível e baterias que acumulam a energia não consumida em determinados momentos e que é aproveitada em outros, quando se exige mais potência, como nas subidas. O VEH serve de transição, já que “não está claro o horizonte do hidrogênio”, disse Nunes. Pode usar diesel, gasolina, gás natural ou etanol, mantendo suas vantagens ambientais e a economia de combustíveis, além de ter uma vida útil mais longa. Um motor elétrico pode rodar 1,5 milhão de quilômetros, enquanto os convencionais começam a apresentar problemas com rodagem dez vezes menor, explicou Nunes.

No entanto, os ônibus elétricos híbridos custam entre 30% e 40% mais do que os movidos a óleo diesel, reconheceu Nunes. Esse custo de aquisição poderia ser compensado a longo prazo, economizando combustível, freios e outros itens, e, ainda, por meio de estímulos oficiais. Maiores restrições ambientais, como ocorre em algumas partes dos Estados Unidos, bem como políticas governamentais para o transporte público, poderiam incentivar a mudança da base tecnológica, ressaltou o especialista. A partir de determinada escala, que tornaria os VEH baratos, essa alternativa seria competitiva, superando limitações do mercado.

* O autor é correspondente da IPS.




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