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A OMC morreu, longa vida ao livre comércio |
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Por Vandana Shiva*
A
Organização Mundial do Comércio, talvez, esteja na UTI para salvar
sua vida, mas o “livre comércio” está vivo e agitado, escreve nesta
coluna exclusiva para o Terramérica a ativista indiana Vandana Shiva.
NOVA DÉLHI, 19 de agosto (Terramérica).- A
Rodada de Doha de negociações comerciais globais sofreu novo colapso
na Reunião Ministerial de Genebra, no dia 23 de julho. Quando lhe
perguntaram se a Rodada está morta, Kamal Nath, ministro de Comércio
da Índia, respondeu que está entre a terapia intensiva e o crematório.
Peter Mandelson, Comissário Comercial da União Européia, disse depois
da suspensão das negociações da Organização Mundial do Comércio
que “passamos da última saída da estrada”. Todos identificaram os
Estados Unidos como o responsável pelo fracasso das conversações,
por negar-se a reduzir seus subsídios agrícolas.
Esta nação e suas grandes corporações foram a força condutora dos
dois acordos da Rodada do Uruguai, que causaram os maiores impactos
negativos sobre os pobres do Terceiro Mundo. O acordo sobre Direitos
de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio (Trips),
por exemplo, aumentou o custo das sementes e dos remédios ao favorecer
os monopólios. Milhares de pequenos agricultores se suicidaram por
causa das dívidas contraídas com a nova dependência do caro e pouco
confiável algodão Bt híbrido e geneticamente modificado, vendido
pela multinacional Monsanto e seus sócios indianos. Por outro lado,
o Acordo sobre Agricultura destruiu os meios de vida de milhões
de camponeses e a segurança alimentar dos pobres do mundo.
Foi a atitude dos Estados Unidos que provocou o fracasso das negociações,
já que mostrou inflexibilidade ao rejeitar a proposta para reduzir
os efeitos de seus subsídios agrícolas em troca de um maior acesso
aos mercados. A negativa norte-americana não se deve tanto ao fato
de já não ter interesse no acesso aos mercados agrícolas. Ocorre
que a superpotência não tem motivo para ceder nada multilateralmente
nesse sentido, pois está conseguindo acesso a esses mercados de
forma bilateral, com o acordo com a Índia que promove os organismos
geneticamente modificados (OGM), as importações agrícolas e a entrada
da empresa norte-americana Wal-Mart no mercado varejista.
Além disso, Washington interfere diretamente nas políticas da Índia
e financia a comercialização do Bt Brinjal, que pode ser o primeiro
cultivo geneticamente modificado aprovado para distribuição em grande
escala e para produção de sementes. Entre as normas vigentes na
Índia para a avaliação em questões de biosegurança não há referência
alguma ao anticientífico princípio de “equivalência substancial”,
que se introduziu nos Estados Unidos para evitar que se leve em
conta os impactos dos alimentos modificados geneticamente.
Entretanto, essa “equivalência substancial” é a base dos dados sobre
o Bt Brinjal submetidos pela Monsanto-Mahyco ao Comitê para a Aprovação
de Métodos de Engenharia Genética (GEAC), o corpo estatutário indiano
para a concessão de autorizações com vistas à produção e venda de
OGM. Deste modo, o vírus da desregulamentação da biosegurança foi
sutilmente introduzido na Índia, os OGM estão sendo divulgados bilateralmente
sem a intervenção da OMC, o que é usado em prejuízo da Europa na
disputa entre Estados Unidos e União Européia sobre OGM.
As grandes agroempresas como Cargill e ADM não precisam mais das
regras de acesso aos mercados da OMC para capturar o mercado da
Índia. Como parte do acordo Bush-Singh, a Índia se converteu em
importadora de trigo, apesar de ter quantidade suficiente desse
grão. E os mercados domésticos também foram capturados por multinacionais
como Cargill, Canagra, Lever e ITC. A segurança alimentar indiana
foi desmantelada de forma sistemática. Os preços dos alimentos aumentaram
dramaticamente e, com isso, cresceram a fome e a desnutrição. Embora
esteja sendo apresentada como uma potência econômica e um novo exemplo
positivo da globalização, na Índia sobrevive um terço de todas as
crianças desnutridas do mundo.
Por outro lado, grandes corporações como Wal-Mart procuram arrebentar
o mercado varejista da Índia, constituído por comércios de pequena
escala que empregam mais de 200 milhões de pessoas. Está, inclusive,
tentando associar-se à Reliance Industry, que planeja construir
novos supermercados em 784 cidades e 1,6 mil centros de fornecimento
agrícola. A OMC talvez esteja na UTI para salvar sua vida, mas o
“livre comércio” está vivo e agitado. As iniciativas bilaterais
e unilaterais são os novos profetas da globalização e do livre comércio
que devemos enfrentar para deter o domínio das grandes corporações.
* A autora é escritora e ativista da Índia.
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