 |
|
|
Um assentamento inflamável |
|
Por Marcela Valente*
Depósitos
químicos potencialmente explosivos ameaçam a vida de milhares de
pessoas na bacia Matanza-Riachuelo, na Argentina. As autoridades
estudam o reassentamento dos moradores.
BUENOS AIRES, 11 de setembro (Terramérica).-
Três mil pessoas vivem sob as chaminés de refinarias de petróleo
e depósitos químicos, entre lixo, lama e cursos de água pestilentos,
em Vila Inflamável, um assentamento na região baixa da bacia Matanza-Riachuelo,
ao sul de Buenos Aires. “Aquele é o centro de Buenos Aires”, disse
ao Terramérica Maria Del Carmen Brite, apontando para as torres
da cidade. “Se isto voar, voamos todos”, alertou a mulher, membro
da Sociedade de Fomento de Vila Inflamável.
Toda a bacia, de 2 mil 240 quilômetros quadrados, está contaminada.
Desde a nascente, a oeste da capital argentina, até sua desembocadura,
no Rio da Prata, a falta de rede de esgoto e as três mil empresas
instaladas na área afetaram gravemente o recurso. A zona baixa é
a mais crítica. Brite é uma das 144 pessoas que, há dois anos, processaram
por dano ambiental o Estado e as 44 empresas do complexo industrial
vizinho, o Pólo Petroquímico Dock Sud. O caso chegou à Suprema Corte
de Justiça, que em junho intimou o governo e as companhias a apresentarem
um plano de saneamento.
No dia 5, em audiência judicial pública, a secretária de Meio Ambiente
e Desenvolvimento Sustentável, Romina Picolotti, admitiu que o Dock
Sud abriga “uma combinação potencialmente explosiva” de instalações
industriais e adiantou que os 11 depósitos de químicos serão transferidos
em um ano. Também prometeu que a população afetada será “uma prioridade”
do plano. Disse ainda que, enquanto são implementadas medidas de
longo prazo. será distribuída água segura aos moradores e um reforço
dietético para neutralizar os efeitos da contaminação. “Pensam que,
por sermos pobres, somos estúpidos”, protestou Brite, desempregada
que vive com um subsídio para chefes da família sem emprego. de
US$ 50 mensais.
A Vila está localizada em Avellaneda, no limite sul da capital.
O Rio Riachuelo nesse local é “uma cloaca imunda”, afirmou o advogado
de Brite, Jorge Iturraspe. A água é quase negra, é opaca e oleosa.
As garrafas de plástico flutuam como camalotes e as margens estão
cheias de lixo urbano. “Aqui pode aparecer de tudo. Até um cadáver”,
afirmou a moradora. Segundo Picolotti, não há estudos epidemiológicos
que atestem a relação entre a atividade industrial e a saúde, mas
admitiu que há contaminação. Existe apenas um estudo, da Agência
de Cooperação Internacional do Japão, segundo o qual em Vila Inflamável
50% das crianças entre sete e 11 anos têm chumbo no sangue e 10%,
cloro na urina.
Brite tem 49 anos, nove filhos, e vive em Vila Inflamável desde
1976. Em 1998, grávida, teve de ser hospitalizada. “Fiquei toda
inchada, tiveram que me entubar”, contou. Penso que foi pela limpeza
de um depósito da empresa química Union Carbide – a mesma que explodiu
na Índia em 1984, deixando cerca de oito mil mortos. Sua filha Camila,
de oito anos, nasceu com sofrimento fetal. Aos cinco anos, teve
sarampo hemorrágico e perdeu capacidade respiratória. Doze crianças
morreram em Vila Inflamável por causa do vírus que transmite essa
doença, acrescentou. Outro filho seu, Emir, de dez anos, teve um
problema na pele em um dia de chuva. Os médicos diagnosticaram “intoxicação
por ácido”.
Seu filho de três anos, Yair, esteve hospitalizado durante uma semana
este ano, por problemas respiratórios e foi enviado para a unidade
de intoxicação do hospital. “Nos pedem exames para encontrar tolueno,
benzeno e chumbo, mas os reagentes são muito caros”, explicou Brite.
Ela não duvida que seus males tenham origem ambiental. E lembra
a morte de seu filho Rodrigo ao nascer – supostamente por anencefalia
– e a de seu primeiro neto por morte súbita. Maria Alejandra Sciarreta,
que também é uma das autoras do processo que chegou à Suprema Corte,
tem 34 anos e recebe subsídio semelhante ao de Brite. Três de seus
nove filhos freqüentam uma escola para deficientes. Dois têm chumbo
no sangue. Um esteve internado duas vezes no Hospital de Crianças
de La Plata. Entrou com quadro de vômito e enjôos. “Agora tem muitos
problemas de conduta na escola”, afirmou.
Segundo a Defensoria do Povo da Nação, para Vila Inflamável “não
há remédio possível”. É necessário transferir as 880 famílias residentes,
além de desmantelar o complexo industrial. Alfredo Alberti vive
em frente à Vila Inflamável, no bairro de La Boca, até onde chegam
os vapores do Riachuelo e das indústrias químicas. “Não se pode
permitir que as pessoas vivam expostas a esses níveis de contaminação.
Querem mudar a Vila para apenas dez quadras daqui, junto ao riacho
Sarandí, que é a mesma porcaria”, afirmou. “Não queremos ir para
lá”, confirmou Brite, acrescentando que “aqui as nuvens caminham.
As empresas químicas liberam gases e nós pedimos ao vento que os
leve para o Rio, porque se a nuvem pairar sobre sua casa, estará
perdido”.
* A autora é correspondente da IPS. |