 |
|
|
Renasce a energia nuclear |
|
Por Por Diego Cevallos*
Brasil,
Argentina e México anunciaram a construção de novos reatores atômicos,
para geração de energia elétrica. Ambientalistas advertem sobre
potenciais riscos de segurança.
MÉXICO, 2 de outubro (Terramérica).- Apenas
3,1% da energia elétrica da América Latina provêm de fontes nucleares,
mas, se prosperarem os planos de expansão de Brasil, Argentina e
México, essa proporção poderá mais do que duplicar em uma década,
para preocupação dos ambientalistas. Envolvidos na onda mundial
favorável à energia nuclear causada pelos altos preços do petróleo,
o Brasil pretende instalar seu terceiro reator atômico, enquanto
Argentina e México passarão de dois para quatro. O Brasil, um dos
nove países do mundo que enriquecem urânio – insumo essencial da
energia nuclear – busca tornar viável uma produção maior. E a Argentina
tenta retomar atividades de enriquecimento iniciadas nos anos 80
e paralisadas em 1992.
As centrais em funcionamento, com tecnologias de segunda geração,
tinham estimativas de vida útil entre 15 e 20 anos, no México, e
de 30 a 40 anos no Brasil e na Argentina. Porém, os planos implicam
prolongá-las até 60 anos, em alguns casos. As críticas de ecologistas,
encabeçadas pela organização Greenpeace, apontam para o perigo de
acidentes, o acúmulo inevitável de lixo perigoso e a pouca transparência
que costuma cercar a atividade nuclear. Não existe um afã no sentido
de ocultar, porém “por se tratar de indústrias estratégicas que
envolvem questões de segurança nacional, há dados que são inapropriados
para conhecimento da população em geral”, disse em entrevista o
vice-ministro de Eletricidade do México, José Acevedo.
O governo mexicano anunciou, no início de setembro, um plano para
construir reatores que estariam funcionando em 2010, e abriu uma
licitação para aumentar a capacidade de outros dois em atividade
desde os anos 90, na central de Laguna Verde, 290 quilômetros a
nordeste da capital. Estas centrais fornecem 5% do consumo mexicano
de eletricidade. Por sua vez, o governo argentino lançou um plano
semelhante em agosto, que inclui terminar a construção de uma central,
estudar a viabilidade de erguer uma nova e produzir urânio enriquecido.
As duas usinas argentinas fornecem 7% da eletricidade consumida
no país: Atucha I, a cem quilômetros da cidade de Buenos Aires,
e Embalse, na província de Córdoba, na região centro-norte. Construída
em 1974, Atucha I foi a primeira central eletronuclear da América
Latina. Sua vida útil é de 32 anos, mas as autoridades pretendem
prolongá-la para 42 anos. A de Embalse começou a operar em 1984,
devendo expirar em 2014. O plano do governo é investir US$ 600 milhões
no término de Atucha II, que começou a ser construída em 1981 e
ficou paralisada nos anos 90.
O Brasil, dono da sexta maior reserva de urânio do mundo, deseja,
inclusive, converter-se em um importante produtor desse estratégico
combustível. No país operam duas centrais instaladas na Praia de
Itaorna, município de Angra dos Reis, 130 quilômetros a oeste do
Rio de Janeiro. As usinas Angra I, inaugurada em 1985, e Angra II,
que começou a funcionar em 2000, fornecem cerca de 4% da energia
elétrica consumida. Além disso, já comprou os equipamentos para
Angra III. As centrais são de segunda geração, com vida útil original
de 40 anos, mas novos estudos a ampliaram para 60 anos. São mais
seguras do que as primeiras construídas no mundo, e serão superadas
pelas de terceira geração, que os Estados Unidos começarão a construir
nos próximos anos, disse o professor de engenharia nuclear da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Aquilino Senra.
O cientista nuclear Juan Luis François, da Universidade Nacional
Autônoma do México, considera que estas são boas notícias. “Há atualmente
534 reatores no mundo funcionando de maneira eficiente e segura,
apesar de campanhas como as do Greenpeace, grupo que maneja a informação
de maneira bastante tendenciosa e não muito limpa”, afirmou o especialista.
Por outro lado, Guilherme Leonardi, coordenador da campanha de Clima
e Energia do Greenpeace no Brasil, afirma que as falhas e os acidentes
são “inerentes à tecnologia nuclear”.
Embalse e Atucha I apresentaram imperfeições e acidentes ao longo
dos anos. A mexicana Laguna Verde tem falhas administrativas e de
segurança, bem como algumas rachaduras em suas instalações, segundo
relatórios da Organização Mundial de Operadores Nucleares, citados
pelo Greenpeace. Entretanto, o governo afirma que foram apenas observações
menores e já corrigidas. O lixo das centrais será sempre um problema,
com o risco de acidentes ou roubo, o que para Leonardi define a
indústria como “suja, perigosa e superada por fontes alternativas
como a eólica e a solar”, além de ser “muito cara”.
Nos três países o lixo vai sendo acumulado em depósitos instalados
nas próprias centrais, e não está definida sua disposição final,
pois os governos afirmam contar com capacidade de armazenamento
para várias décadas. Porém, há casos, como o da mexicana Laguna
Verde, “uma central muito insegura”, onde os depósitos estão saturados,
disse Arturo Moreno, do Greenpeace México. O subsecretário de Energia
desse país assegurou que “em todo o mundo o lixo é mantido em depósitos
vizinhos às centrais, até que seja desenvolvida uma política definitiva”,
que ainda não existe “em parte alguma do mundo”, ressaltou.
Por sua vez, François mencionou estudos “muito avançados” para transmutar
o lixo (reduzir e até eliminar sua radioatividade), com tecnologias
que poderão estar disponíveis em 15 ou 20 anos. Porém, isso não
convence os ecologistas. Juan Casavelos, coordenador da campanha
de Energia e Clima do Greenpeace Argentina, afirmou que na “área
nuclear tudo é muito preocupante” há falta de transparência na informação
oficial e as evidências de falhas e acidentes nas usinas são escondidas,
afirmou.
Além do inevitável vínculo com seus usos bélicos, o desenvolvimento
nuclear caiu em descrédito em 1986, quando houve vazamento em um
reator da central ucraniana de Chernobyl, causando o pior acidente
da indústria nuclear com uma seqüela de centenas de milhares de
vítimas e a contaminação da água e do solo em uma ampla área. A
partir de então, o ativismo ambiental cerrou fileiras contra a energia
atômica. Mas agora esse movimento mostra rachaduras. Patrick Moore,
um dos fundadores do Greenpeace, e o falecido Hugh Montefiore, que
foi fideicomissário da rede internacional Amigos da Terra, se pronunciaram
nos últimos anos a favor da energia nuclear como alternativa aos
combustíveis fósseis ligados à alteração do clima.
A Agência Internacional de Energia, que reúne os países ricos e
grandes consumidores de petróleo, vai propor o fim à virtual suspensão
mundial do desenvolvimento nuclear em seu próximo informe anual
de novembro, disseram em entrevista fontes próximas à organização.
Vários países europeus e os Estados Unidos se voltaram para esta
tecnologia a fim de enfrentar os custos dos hidrocarbonetos e reduzir
emissões de gases causadores do efeito estufa, argumento também
apresentado na América Latina pelo Chile, cuja presidente, Michelle
Bachelet, decidiu estudar a viabilidade dessa fonte.
Dezesseis por cento da eletricidade do mundo procedem de usinas
nucleares, enquanto os seis reatores que operam na América Latina
proporcionam 31% da energia elétrica da região, segundo a Organização
Latino-Americana de Energia. Para Francisco Carlos Rey, vice-presidente
da estatal Comissão Nacional de Energia Atômica da Argentina, as
reações negativas obedecem a mitos, semeados, em parte, pelo caso
de Chernobyl. O grau de segurança das centrais agora é de 100%,
afirmou.
* Com as colaborações de Maricel Drazer
(Buenos Aires) e Mario Osava (Rio de Janeiro). Este artigo é parte
de uma série sobre o desenvolvimento sustentável produzida em conjunto
pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (sigla em inglês da Federação
Internacional de Jornalistas Ambientais). |