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Às portas do Ano Polar |
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Por Marcela Valente*
A
cidade argentina de Ushuaia se prepara para receber centenas de
cientistas que estudarão o Pólo Sul, a partir de março de 2007.
USHUAIA, 9 de outubro (Terramérica).- Às vésperas
do Ano Polar Internacional, um acontecimento científico mundial
criado para aumentar o conhecimento sobre os pólos, a capital da
província argentina da Terra do Fogo, Ushuaia, se prepara para ser
a principal via de entrada na Antártida. Desde o dia 28 de fevereiro,
um relógio virtual marca, nessa cidade, a contagem regressiva para
o Ano Polar, na verdade um biênio que acontecerá entre 1º de março
de 2007 e 1º de março de 2009, buscando colocar as esquecidas regiões
polares no centro da atenção. Em Ushuaia, a Cordilheira dos Andes
se despede em pequenas ilhas, até se perder no Oceano Atlântico.
“O slogan de Ushuaia como 'o fim do mundo' é bom para o turismo,
mas na verdade somos parte da comunidade circumpolar e principal
porta de entrada para a Antártida”, disse ao Terramérica Daniel
Leguizamón, secretário-executivo da Comissão Organizadora do Ano
Polar Internacional na Terra do Fogo, financiada exclusivamente
pelo governo dessa província. “Para uma população – de 54 mil pessoas
– formada por imigrantes de outras regiões do país, é difícil pensar
que existe algo mais abaixo, mas estamos a três mil quilômetros
de Buenos Aires e a apenas mil quilômetros da Antártida”, ressaltou.
“Noventa e dois por cento dos turistas do mundo que vão à Antártida
partem daqui”, acrescentou Leguizamón, e os guias dos cruzeiros
já foram treinados para divulgar a importância do Ano Polar. A Comissão
que preside está integrada por funcionários governamentais, empresários,
cientistas, comerciantes, ambientalistas, educadores e guias turísticos.
Trabalham há meses para promover este acontecimento. O Ano Polar
consiste em uma campanha mundial de pesquisas e observações nos
pólos, organizada pelo Conselho Internacional de Ciência e pela
Organização Meteorológica Mundial. Estima-se que envolva cerca de
dez mil pesquisadores de 50 países, entre eles Brasil, Argentina,
Austrália, China, Nova Zelândia e Uruguai.
O objetivo é conhecer o atual estado ambiental nas regiões polares,
medir mudanças nessas áreas tão sensíveis ao aquecimento global,
melhorar observatórios, aumentar o conhecimento sobre a interação
entre os pólos e o planeta, e pesquisar processos históricos sustentáveis
em sociedades circumpolares. Os organizadores querem multiplicar
o saber sobre essas regiões e sensibilizar a opinião pública e os
tomadores de decisão sobre a importância destes ecossistemas para
a vida no planeta. “Esperamos ampliar nossos conhecimentos com projetos
novos, originais, e deixar como legado novas bases de observação”,
disse ao Terramérica Sergio Santillana, coordenador científico do
Instituto Antártico Argentino.
Segundo este centro, a Argentina é o país latino-americano que mais
projetos apresentou à comissão internacional e o que teve mais projetos
aceitos. Um deles, que será realizado em cooperação com os Estados
Unidos, é o monitoramento de um bloco que está na barreira de gelo
Larsen. Foi instalada uma câmara e uma estação meteorológica que
se perderão na medida em que o bloco se desprender, migrar para
o Norte e ir se derretendo. "Essa simulação vai permitir a elaboração
de modelos do que pode ocorrer na Antártida se a temperatura global
continuar aumentando. A Argentina é o país mais próximo da região
polar e é aqui onde serão sentidas as primeiras conseqüências da
mudança climática”, afirmou Santillana.
O especialista disse que as mudanças não serão necessariamente desastrosas,
e enfatizou que será preciso se adaptar. “No Pólo Norte, com o degelo
completo previsto para dentro de 50 anos, podem surgir novas rotas
comerciais; no Sul mudarão as correntes, que ficarão mais doces
com o derretimento, o que trará modificações nas cadeias alimentares”,
adiantou. Os cientistas locais do Centro Austral de Pesquisas Científicas
(Cadic) e do Instituto Antártico realizam múltiplos projetos de
pesquisa na Antártida e estarão envolvidos em, pelo menos, 30 programas
para o Ano Polar, a maioria em cooperação com outros países. Além
do que foi mencionado por Santillana, estão previstas observações
da camada de ozônio, censos para medir o impacto do aumento da temperatura
na fauna marinha e estudos sobre a função dos blocos como depósitos
de carbono.
Este Ano Polar será o quarto Ano Polar desde o final do século XIX.
O primeiro foi entre 1882 e 1883. Para o segundo foi preciso esperar
até 1932-33. O terceiro, entre 1957 e 1958, foi chamado Ano Geofísico
Internacional e deu lugar à redação do Tratado Antártico (1959),
que congelou reclamações de soberania e comprometeu os países na
preservação desse continente. “Não sabemos quais conseqüências pode
ter este novo Ano Polar, mas sem dúvida, elas existirão”, previu
Santillana, aventurando a possibilidade de que esse Tratado, do
qual a Argentina faz parte, seja revisado pelos signatários.
Ushuaia busca ser a ante-sala das campanhas, uma função que no momento
está concentrada no porto chileno de Punta Arenas, mais distante
da Antártida. “Queremos ser um elo para cientistas de todo o mundo”,
disse Leguizamón. Isso significa colocar a logística à disposição
dos pesquisadores: aeroporto, portos, depósitos, quebra-gelos, combustíveis,
guias treinados para se orientar no gelo, equipamentos para se movimentar
na neve, ferramentas, roupa polar e víveres. “O Ano Polar precisa
de um ponto de apoio em Ushuaia e nós queremos ser parte dele. É
uma atividade que reforça nossa identidade como comunidade polar”,
afirmou Leguizamón.
* A autora é correspondente da IPS. |