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Ilha inexplorada fornece chaves da biodiversidade tropical |
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Por Julio Godoy*
Cerca
de cem novas espécies foram catalogadas em menos de um mês na ilha
Espírito Santo, no Pacífico Sul, ameaçada pela mudança climática.
PARIS, 16 de outubro (Terramérica).- Desde
o começo de setembro, 170 cientistas de 25 países exploram pela
primeira vez a ilha Espírito Santo, no arquipélago de Vanuatu, na
Oceania, para realizar um inventário da biodiversidade tropical.
A riqueza desta zona insular é tão vasta que em menos de um mês
já se conseguiu catalogar uma centena de espécies. A missão multidisciplinar,
denominada Santo 2006, busca listar espécies ainda desconhecidas,
antes que a mudança climática as dizime definitivamente. As variações
climáticas, derivadas do uso de combustíveis fósseis (petróleo,
carvão e gás), produzem aumento no nível do mar, colocando em risco
regiões insulares - como Espírito Santo – em todo o mundo.
“Por esta razão, devemos nos apressar”, disse ao Terramérica Philippe
Bouchet, naturalista de 53 anos e diretor da Unidade de Taxonomia
e Coleções do Museu de História Natural de Paris (MHN). “A esta
altura de nossa civilização, continuamos desconhecendo a existência
de numerosas espécies”, acrescentou Bouchet, que coordena a missão,
em cooperação com cientistas do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento
da França e da União Mundial para a Natureza (UICN). Junto com o
MHN, estes dois organismos escolheram Espírito Santo como eixo da
expedição multinacional porque permanece praticamente inexplorada
e, ao mesmo tempo, possui florestas tropicais e arrecifes de corais,
os dois ecossistemas mais ricos e mais ameaçados pela mudança climática.
Além disso, Espírito Santo é a maior e mais alta ilha do arquipélago
de Vanuatu, uma cadeia montanhosa no Pacífico Sul de mais de 1,7
mil metros de altitude, coroada pelo Monte Tabwemasana, de 1.879
metros. Ao seu relevo se acrescenta sua idade geológica, do Mioceno,
época anterior à última glaciação. O isolamento geográfico e ecológico
da ilha é um fator importante na evolução e vulnerabilidade das
espécies. As ilhas constituem reservas particularmente ricas em
espécies endêmicas, e também microcosmos ameaçados por espécies
invasoras.
Segundo Bouchet, estes microorganismos constituem a essência do
mundo vivo, pelo número de espécies, seu peso no conjunto destas
e o papel que têm na manutenção da integridade do planeta. “Hoje,
temos apenas uma visão fragmentada da biodiversidade”, disse Bouchet,
e sua afirmação se confirma ao se comparar o número de espécies
já inventariadas (1,8 milhão) com as estimativas cientificas de
que existiriam dezenas de milhões.
A ilha também é interessante do ponto de vista demográfico e étnico.
Seus apenas 30 mil habitantes falam mais de 40 idiomas e dialetos.
A pesquisa para elaborar o inventário constitui um salto qualitativo
em um mundo inexplorado. “Colocar o pé em um território virgem de
toda presença humana é muito intrigante”, disse ao Terramérica Vincent
Prié, biólogo do MHN de Paris. “Tem-se a impressão de se presenciar
o balbuciar inicial da vida”. Nas primeiras semanas da pesquisa,
os cientistas já classificaram uma centena de espécies cuja existência
era até então ignorada.
“Devido à riqueza ecológica de Espírito Santo e seus arredores,
era evidente desde o princípio da missão que aqui descobriríamos
espécies desconhecidas”, disse Bouchet. “Estimamos que será possível
catalogar cerca de 3,5 mil espécies de moslucos somente na região
sul da ilha, quase o dobro do total de espécies presentes em todos
os mares europeus”. Uma destas espécies, descoberta no dia 13 de
setembro, é o Scandarma sp., um caranguejo capaz de subir em mangues.
Outra tarefa da missão Santo 2006 é estabelecer a origem geográfica
das espécies assentadas na ilha. Michel Pascal, Etnobiólogo do Instituto
Francês de Pesquisa Agrícola, encontrou um caracol gigante invasor.
“Este tipo de caracol procede da África. É exótico na Oceania; seguramente
chegou à ilha durante a Segunda Guerra Mundial, escondido em um
vaso de flores. O certo é que o caracol é devastador para a vegetação
de Espírito Santo”, afirmou.
O programa compreende cinco grandes módulos de exploração e classificação,
unificados em torno de um hábitat particular: os grandes fundos
marinhos, os arrecifes de corais, as regiões formadas por grutas
terrestres e submarinas e as de florestas, tanto no litoral quanto
na montanha e nos rios. Estes módulos serão estudados de uma perspectiva
única, para estimar a magnitude real da biodiversidade e ponderar
o peso de espécies muito raras na composição das populações totais.
“Catalogar as espécies de Espírito Santo permitirá identificar organismos
para prevenir os efeitos negativos das atividades humanas sobre
a biodiversidade”, afirmou Bouchet. As espécies descobertas em Espírito
Santo serão indexadas no MHN de Paris, e o resultado estará à disposição
do Centro de Informação do Convênio sobre a Diversidade Biológica,
assinado em 1992 durante a Cúpula da Terra, realizada no Rio de
Janeiro.
* O autor é correspondente da IPS. |