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Verdes querem Chiloé livre de transgênicos |
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Por Daniela Estrada*
A
ilha é centro de origem da batata e cerca de 200 variedades devem
ser protegidas da contaminação com sementes geneticamente modificadas,
afirmam ecologistas.
SANTIAGO, 16 de outubro (Terramérica).- Ambientalistas
exigem que as autoridades chilenas declarem zona livre de transgênicos
o austral arquipélago de Chiloé, que fica 1,19 mil quilômetros a
sudoeste de Santiago e é reconhecido como centro de origem da batata
(Solanum tubesorum), junto com Bolívia e Peru. No Chile, é proibido
o cultivo de alimentos geneticamente modificados, mas é permitido
multiplicar sementes transgênicas para exportação. Em 2005, estas
ocupavam 12.928 hectares, sendo 93,7% de milho, 4,85% de colza e
1,28% de soja.
Na décima região de Los Lagos, onde fica o arquipélago de Chiloé,
há poucos hectares dedicados à multiplicação de sementes de batatas
transgênicas, e na ilha e suas ilhotas esta biotecnologia ainda
não entrou. Maria Isabel Manzur, da não-governamental Fundação Sociedades
Sustentáveis (FSS), disse ao Terramérica que o principal risco de
liberar transgênicos no território insular é a eventual contaminação
que seus produtos autóctones podem sofrer, principalmente a batata,
o que levaria ao desaparecimento de variedades milenares.
A batata foi domesticada há dez mil anos e introduzida na Europa
pelos conquistadores espanhóis no século XVI. Atualmente, é o quarto
cultivo alimentar mais importante do mundo, com produção anual de
aproximadamente 300 milhões de toneladas. “As batatas são a base
da cultura de Chiloé e muitas de suas variedades foram melhoradas
em países europeus”, disse ao Terramérica o diretor do Centro de
Tecnologia de Chiloé (CET), Carlos Venegas.
O conhecimento sobre as batatas foi passado através das gerações
de chilotes, a maioria regida por ritos e superstições. Muitos somente
a semeiam na lua minguante, acreditando que assim conseguirão melhor
produção. Além disso, “existe uma diversidade tão grande de batatas,
de diferentes formas, cores e sabores, que é possível preparar inúmeros
pratos diferentes”, acrescentou Venegas, que defende uma política
governamental de promoção da gastronomia chilota que possa incentivar
ainda mais o turismo e a economia locais.
Tonta, colorada, guapa, clavela branca e azul, zapatona, noventa-dias,
cabeça-de-santo e cachimba são alguns dos curiosos nomes das variedades
de batatas. Algumas servem para a alimentação e outras para a medicina,
já que algumas receitas serviriam para problemas de fígado ou vesícula.
Nos dias 17 e 18 de outubro, acontecerão os seminários “Cultivos
transgênicos e batatas autóctones de Chiloé”, organizado pela FSS
e pelo CET, em duas cidades da décima região, Castro e Puerto Montt.
Manzur explicou que o objetivo é reforçar a consciência da sociedade
civil sobre as batatas nativas e colher assinaturas para pressionar
as autoridades a declararem o arquipélago zona livre de transgênicos.
A ambientalista alertou que atualmente não existe uma figura legal
que possa ser usada para estabelecer esta categoria, e ressaltou
que é uma demanda da sociedade que deve ser atendida pelo governo
e pelos parlamentares.
Os habitantes da Ilha Grande de Chiloé voltaram a valorizar suas
batatas nativas graças ao importante trabalho feito por diferentes
organizações da região, com o CET, que em 1987 criou um banco de
espécies que hoje mantém mais de 200 variedades. As sementes são
colhidas pelos próprios camponeses, que trocam variedades para cultivar
em suas terras, que, em geral, não superam os 15 hectares, disse
Venegas. A experiência teve tamanho sucesso que os agricultores
criaram outros três bancos de batatas.
Em abril, a Universidade Austral do Chile iniciou um projeto patrocinado
pelo governo para resgatar, proteger, sanear e comercializar variedades
de batatas nativas de Chiloé, que contempla a descrição e inscrição
das espécies chilotas no Registro de Variedades de Batatas do governamental
Serviço Agrícola e Pecuário. Além disso, o CET e outras instituições
locais reivindicam três locais do arquipélago para o projeto “Sistemas
Engenhosos de Patrimônio Agrícola Mundial”, lançado em 2002 pela
Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação
(FAO) e outras agências de desenvolvimento.
Segundo Venegas, a proposta do CET foi aprovada e deve ser implementada
no final deste ano ou início de 2007. Pretende-se estimular a sustentabilidade
social, econômica e ambiental, por meio da criação de capacidades
locais, promoção global de seus valores e difusão dos conhecimentos
tradicionais. Dados do Centro Internacional da Batata mostram que,
desde a década de 60, a superfície cultivada nos países em desenvolvimento
cresceu mais rapidamente do que a de qualquer outro cultivo para
alimentação.
* A autora é correspondente da IPS. |