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Poluição da água à espreita |
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Por Mario Osava*
As
duas principais regiões metropolitanas do Brasil enfrentam sérios
problemas de abastecimento de água potável. Observadores recomendam
investir mais em obras de saneamento.
RIO DE JANEIRO, 30 de outubro (Terramérica).-
Quase 30 milhões de brasileiros são afetados pela contaminação dos
recursos hídricos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na primeira,
isto contribui com a escassez de água. Na segunda, não reduz a oferta,
mas ameaça inutilizar o líquido, por não se poder torná-lo potável.
Por isto, as duas cidades – as maiores regiões metropolitanas do
país – vivem ameaçadas por cortes periódicos em seu abastecimento
de água. Para os 18,5 milhões de pessoas que vivem na Região Metropolitana
de São Paulo, se trata de “uma bomba de tempo que pode explodir
a qualquer momento”, disse Maria Luisa Ribeiro, coordenadora da
Rede das Águas, iniciativa da Fundação SOS Mata Atlântica para dinamizar
a comunicação e participação social na gestão dos recursos hídricos
nacionais.
Em seu limite de capacidade, os oito sistemas que abastecem a cidade
captam 65 mil litros de água. A população vive dependente da “boa
vontade de São Pedro”, disse Ribeiro ao ser entrevistada. Durante
muitos anos, o fornecimento de água era suspenso em diferentes bairros,
em dias alternados. O racionamento, que durou até 2002, foi superado
graças a um ajuste de distribuição e boas chuvas, mas “sem ampliar
a disponibilidade de água”, destacou a ativista. São Paulo foi fundada
em um lugar de limitados recursos hídricos, nas nascentes do Rio
Tietê, que cruza o Estado. Depois, o desmatamento e a ocupação humana
das margens limitaram a capacidade dos mananciais, cada dia mais
ameaçados por assentamentos ilegais.
O censo de 2000 permitiu estimar que 1,6 milhão de pessoas residem
nessas áreas, segundo o não-governamental Instituto Socioambiental,
que estuda e controla as fontes locais de água. A população, que
aumentou muito nos últimos anos, é tanta que não é possível transferi-la
para outro lugar. Além disso, joga seus esgotos e seu lixo em represas
e rios. A rigidez da Lei de Proteção de Mananciais, de 1975, que
restringe os assentamentos nas bacias, teve um feito contrário ao
desejado: a área foi ocupada ilegalmente, o que gerou um despejo
de esgoto desordenado, disse Ribeiro. E a crescente contaminação
encarece a água.
Nos últimos cinco anos, a necessidade de produtos químicos para
torná-la potável aumentou 51%. Também aumentaram os custos do transporte,
porque metade da população metropolitana depende do sistema Cantareira,
a 70 quilômetros do centro de São Paulo. Além disso, suas águas
vêm da bacia do Rio Piracicaba, compartilhado com grandes cidades
do interior, gerando disputas e “conflitos de gestão”, acrescentou
a ativista. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo
(Sabesp), hoje reconhecida como a melhor do Brasil, implementou
medidas para ampliar os mananciais e o tratamento de esgoto, melhorar
a distribuição e promover o uso racional da água. Isto somou-se
ao combate contra os vazamentos. Hoje, estima-se que um terço da
água fornecida se perca na rede de distribuição.
Já a Região Metropolitana do Rio de Janeiro vive uma situação mais
cômoda. Até 2025, está assegurada a disponibilidade de água – não
necessariamente potável – para seus mais de 11 milhões de habitantes
e para a instalação de novas indústrias, assegurou, ao ser entrevistado,
Fridrich Hermes, presidente do Comitê da Bacia do Rio Guandu, fonte
de 85% do fornecimento. O sistema se beneficia de um conjunto de
cinco represas construídas há décadas para gerar eletricidade, aproveitando
o Rio Paraíba do Sul, que nasce perto de São Paulo e cruza todo
o Estado do Rio de Janeiro. Suas águas constituem a principal fonte
do sistema Guandu, que dispõe de 120 mil litros por segundo de água
não processada, dos quais 90 mil são usados para o abastecimento,
explicou Hermes. O restante permite prever que não haverá escassez
até 2025.
A quantidade permite certa tranqüilidade, o que não garante qualidade.
“Não há risco de desabastecimento a curto prazo. O Rio Guandu, engrossado
pela transposição artificial das águas do Paraíba do Sul, oferece
um volume mais do que suficiente”, afirmou Edes Fernandes de Oliveira,
da Companhia Estadual de Águas e Esgoto (Cedae). “Entretanto, se
não cessarem as agressões ao meio ambiente, no longo prazo poderá
haver problemas”, admitiu ao ser entrevistado. Entre eles, o principal
é o esgoto, sem tratamento, gerado pela população que proliferou
na bacia do Guandu nas últimas décadas, diante da expansão da Região
Metropolitana do Rio de Janeiro para oeste.
A Cedae, que busca proteger o meio ambiente local e promove o reflorestamento
de margens de rios e represas da bacia, também proibiu a extração
de areia do leito do Rio Guandu, o que antes não era controlado.
Hoje, são 1,5 milhão de habitantes, mas o fluxo perdeu ritmo e “não
deve crescer tanto nas próximas décadas”, disse Hermes. Além disso,
há o lixo jogado nas margens dos rios e as indústrias atraídas pela
abundância de água e por outros fatores favoráveis na região, como
o Porto de Sepetiba. José Roberto Araújo, assessor parlamentar e
funcionário do órgão ambiental do Rio de Janeiro, ensaiou outra
explicação.
Por ficar perto do Rio Paraíba do Sul, a cidade tem assegurada abundante
água, bem como a desvantagem de receber a contaminação do Estado
de São Paulo, onde o Rio percorre uma área muito povoada e industrializada,
acrescentou. Além disso, recebe o esgoto de outras grandes cidades
do próprio Estado, sem nenhum tratamento, lamentou. As indústrias
instaladas ao longo da bacia também contaminam, mas permitem um
controle melhor. E algumas delas, como a gigantesca Companhia Siderúrgica
Nacional, realizaram um recente programa de redução de poluentes,
afirmou.
A situação ultrapassa as fronteiras estaduais. Para Paulo Canedo,
especialista em águas da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
o problema geral de todo o Brasil é a escassa atenção com o esgoto
urbano e seu tratamento, com décadas sem os investimentos necessários.
Os governos “gastam muito para ter água potável” e em assistência
médica, e não priorizam o saneamento básico, o que seria mais econômico,
por reduzir o custo de obtenção de água e melhorar a saúde pública,
criticou Canedo.
* O autor é correspondente da IPS. |