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Moradores dizem basta à fumigação |
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Por Marcela Valente*
Lançada
na Argentina campanha contra herbicidas usados para o cultivo de
soja transgênica, principal produto de exportação do país.
BUENOS AIRES, 13 de novembro (Terramérica).-
Os cultivos de soja transgênica se expandem na Argentina, e com
eles a utilização de herbicidas. A campanha “Parem de Fumigar” pretende
alertar contra sua aplicação sobre áreas urbanas e reunir informação
de impactos para apresentar denúncias. A iniciativa é do Grupo de
Reflexão Rural (GRR), do Centro de Proteção da Natureza e de grupos
de moradores. Jorge Rulli, do GRR, disse ao Terramérica que, este
ano, a campanha – que começou em janeiro e inclui todas as zonas
rurais – recebeu mais de 60 denúncias.
Ele explicou que “não é casual” o fato de a maioria proceder das
províncias de Córdoba (centro) e Santa Fé (centro-oeste), que junto
com Buenos Aires constituem o epicentro do cultivo de soja, associada
ao herbicida glifosato. “Queremos formar um mapa que mostre que
o uso intenso de agrotóxico é um modelo sistemático de desenvolvimento
rural que produzirá uma catástrofe sanitária”, disse Rulli. Nos
últimos 15 anos, a soja modificada ampliou sua zona de influência
e hoje é o principal cultivo da Argentina, além de primeiro produto
da pauta de exportações.
A última colheita, de 15,5 milhões de hectares, consumiu 160 milhões
de litros de glifosato, seis vezes mais do que há uma década. O
grave, segundo a denúncia, é que esse produto – que mata todo o
verde menos o cultivo transgênico – chega a metros dos povoados.
Tradicionalmente, florestas, currais e fazendas rodeavam os povoados
e atenuavam o impacto da fumigação. Agora, não há barreiras protetoras.
“Temos soja ao norte, ao sul e a leste”, disse ao Terramérica Sofía
Gatica, do bairro Ituzaingó Anexo, na cidade de Córdoba, capital
da província de mesmo nome.
Com cinco mil habitantes, Ituzaingó fica no limite entre a cidade
e o campo. “Atravesso a rua e aí começa a soja. E é evidente que,
se há plantação, há fumigação”, disse Gatica. Segundo a Lei de Agrotóxicos
(2005), o limite de pulverização é de 1,5 quilômetros das áreas
povoadas. Em 2002, Ituzaingó foi declarado em estado de emergência
sanitária, após um estudo do Ministério da Saúde provincial que
registrou elevadas porcentagens de leucemia, lupus, púrpura e más-formações
genéticas.
Outro informe, apresentado em março, estudou 30 crianças de sete
a 14 anos nesse bairro, revelando a presença de cinco agrotóxicos
no sangue, e em 25 delas em doses maiores do que as permitidas.
Depois desta pesquisa, feita pelo epidemiologista Edgardo Schneider,
a pedido do grupo Mães de Ituzaingó, o governo da cidade “concluiu
que é preciso evacuar o bairro”, disse Gatica. Contudo, os moradores
e as plantações continuam ali, enquanto os aviões passam fumigando.
A lei também cria um registro de aplicadores e ordena sua capacitação
no manejo de produtos químicos. Segundo os moradores, há excessos.
Também circulam veículos vazando líquidos, que esvaziam e limpam
seus depósitos em locais dentro dos povoados. Alguns municípios
utilizam glifosato para combater as ervas daninhas. Certos governos
locais aprovam medidas para reduzir as fumigações em áreas próximas
ao perímetro urbano, mas os moradores afirmam que faltam os controles
do cumprimento das normas e que as autoridades cedem à pressão dos
produtores rurais.
O GRR recebeu denúncias de outras zonas urbanizadas de Córdoba,
como Montecristo, Mendiolaza, Río Quarto e San Francisco. Também
das localidades de San Lorenzo, San Justo, Las Petacas, Piamonte,
Alcorta ou Máximo Paz, em Santa Fé. E, mais recentemente, da província
de Buenos Aires. Um estudo financiado pelo Ministério da Saúde,
feito em cinco povoados do sul da província de Santa Fé, apresentou
dados alarmantes. Segundo o Centro de Pesquisa em Biodiversidade
e Meio Ambiente, a Universidade Nacional de Rosário, o Instituto
Nacional de Tecnologia Agropecuária e o Hospital Italiano de Rosário,
existe uma “incidência muito significativa” desses casos de câncer
e más-formações na região analisada.
A pesquisa, apresentada em janeiro, mostra que nos povoados de Alcorta,
Bigand, Carreras, Máximo Paz e Santa Teresa, em Santa Fé, há dez
vezes mais casos de câncer de fígado do que a média nacional, o
dobro de câncer de pâncreas e de pulmão e três vezes mais câncer
gástrico e de testículos. Também foram registrados múltiplos casos
de hipospadias (orifício da uretra na parte inferior do pênis) e
criptorquidias (testículos que não desceram), associados ao uso
de agrotóxicos.
Noventa por cento das patologias estão ligadas a fontes fixas de
contaminação ou fatores ambientais de risco, dizia o informe, confirmando
que algumas delas, nessas zonas rurais, superam as médias. Hoje,
há 200 doentes com câncer no bairro, segundo o Mães de Ituzaingó,
que realizou um levantamento casa por casa e levou o assunto à Suprema
Corte de Justiça, cujo pronunciamento é aguardado.
* A autora é correspondente da IPS. |