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Artigo


Crianças pagam caro pela falta de água limpa

Por Diego Cevallos*

A diarréia, por falta de água segura, mata mais crianças na América Latina do que a tuberculose ou o HIV/aids, alerta a ONU. Milhões de meninos e meninas, sobretudo indígenas e afrodescendentes, estão em perigo.

MÉXICO, 13 de outubro (Terramérica).- Na América Latina e no Caribe, um terço das mortes de crianças tem origem em diarréias. O problema poderia ser revertido com água limpa e saneamento adequado, mas amplos setores da região, especialmente indígenas e afrodescendentes, não os têm. Segundo as estatísticas, a cobertura média em água e saneamento da região está entre as melhores do mundo. Entretanto, esses dados podem levar a um engano.

Embora 91% da população tenha acesso a água potável, 50 milhões de pessoas continuam sem contar com esse serviço, e 34 milhões destas vivem no campo. Em matéria de saneamento, a cobertura é de 77%, mas 103 milhões ainda não o têm. Essas carências causam a maioria das doenças diarréicas, que hoje são a segunda causa de mortalidade infantil na região, atrás das infecções respiratórias. No planeta, 1,8 milhão de crianças morrem por ano vítimas de diarréia, que são muito mais mortais do que a tuberculose, a malária ou o HIV/aids (síndrome da deficiência imunológica adquirida).

“Para as crianças que não têm água nem saneamento, o futuro é de morte, pobreza e doenças, e isso provavelmente os seguirá pelo resto de suas vidas”, disse ao Terramérica Liliana Carvajal, uma das redatoras do Informe sobre Desenvolvimento Humano 2006, apresentado, no dia 9 de novembro, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O documento diz que “a água limpa e o saneamento estão entre as medidas preventivas mais poderosas para reduzir a mortalidade infantil. Representam para a diarréia o mesmo que a imunização representa para as doenças mortais”.

Reduzir pela metade a proporção de pessoas sem acesso a água potável e saneamento básico é um dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio para 2015. A América Latina e o Caribe avançam bem nesse objetivo. Entretanto, será apenas em números médios pois milhões de pessoas continuarão sem acesso a esses serviços. “Não se pode cantar vitória, pois há casos particulares muito difíceis”, ressaltou Carvajal.

“Já não é nem ética nem politicamente aceitável usar médias como indicadores do estado de cumprimento dos Objetivos do Milênio, porque escondem realidades muito difíceis”, disse ao Terramérica Nils Katsberg, diretor para a América Latina e o Caribe do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). É um fato que os que vivem no campo e são indígenas ou afrodescendentes, condições nas quais se encontram cerca de 200 milhões dos aproximadamente 523 milhões de habitantes da região, enfrentarão sérias dificuldades para atingir os níveis de desenvolvimento previstos, disse Katsberg. “Há muito a ser feito, especialmente com as crianças”, acrescentou.

Um terço dos que vivem em zonas rurais da América Latina não conta com fontes seguras de água potável e mais da metade não usa instalações adequadas de saneamento, segundo estudos do Unicef. Na Bolívia, 95% da população urbana usa fontes seguras de água potável, e no campo apenas 68%. Quanto ao saneamento, a relação é de 58% para 23%, respectivamente, segundo dados do Pnud. Ali, somente 54% dos menores de cinco anos que sofrem de diarréia recebem reidratação oral. No Brasil, com maior cobertura sanitária (75%) e de água potável (90%), esse tratamento chega a apenas 28% das crianças.

Na Guatemala, onde 95% da população tem acesso a fontes de água melhorada, apenas 22% das crianças com diarréia se beneficiam com reidratação. A situação é inversa no Haiti, onde 54% da população dispõe de água potável e apenas 30% de saneamento, enquanto 41% dos menores de cinco anos com diarréia recebem reidratação. “Uma criança que nasce sem água e saneamento terá constantes casos de diarréia que afetarão seu sistema imunológico. Terá anemia e isso a afastará da escola e, assim, aprenderá menos”, afirmou Carvajal. “Desse modo, entrará em um círculo de pobreza que a seguirá por toda sua vida”, acrescentou.

O Informe Sobre Desenvolvimento Humano, que o Pnud divulga anualmente desde 1990, enfatiza que investir em água e saneamento salvaria milhões de vidas, e, além disso, afirma que isso seria de grande utilidade econômica. O acesso universal a serviços de água e saneamento reduziria a carga financeira dos sistemas de saúde nos países em desenvolvimento em cerca de US$ 1,6 bilhão ao ano. Em países como a Noruega, a água limpa reduziria em mais de 20% os casos de diarréia; no Peru 15% e na Guatemala cerca de 40%, segundo o Pnud.

A América Latina e o Caribe “têm de fazer um esforço muito maior pela água e pelo saneamento nos setores rurais, e pôr um ponto final à discriminação contra indígenas e afrodescendentes no acesso a esses serviços”, recomendou Katsberg, do Unicef.

* O autor é correspondente da IPS.


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