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“As crianças sabem amar” |
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Por Francesca Colombo*
A
pediatra cubana Aleida Guevara, filha do mítico “Che”, viaja pelo
mundo promovendo os direitos infantis à saúde. O Terramérica conversou
com ela na Itália.
MILÃO, 11 de dezembro (Terramérica).- Aleida
Guevara March tem os olhos parecidos com os de seu famoso pai, o
ícone da revolução cubana Ernesto “Che” Guevara. Fala com energia,
como se quisesse convencer um auditório. Mas também sorri com doçura
ao recordá-lo. Esta pediatra alergista cubana, de 46 anos, que continua
chamando de “tio” o enfermo presidente Fidel Castro (em cujo pronto
restabelecimento confia), foi militante da União de Jovens Comunistas.
Agora, combina seu trabalho em um hospital infantil de Havana com
freqüentes viagens pelo mundo, promovendo o que considera como benefícios
do regime socialista da ilha, entre eles o acesso à saúde. “Creio
na solidariedade e no amor. E na possibilidade de homens e mulheres
expressarem sentimentos e criar um mundo mais justo para todos nós”,
disse em entrevista ao Terramérica, em Milão, cidade italiana que
visitou recentemente.
Terramérica: O que herdou de seu pai e o que aprendeu com ele?
Aleida Guevara: Dele tenho tudo. Herdei um pouco de seu sorriso,
a forma de seus olhos e, talvez, um pouco de sua rebeldia. Quando
era criança minha vida girava em torno do meu pai. Quando cresci,
me dei conta de que gostava desse homem porque minha mãe havia tornado
possível esse amor. Apesar de ele não conviver conosco, ela conseguiu
fazer com que o tivéssemos presente.
- Teve privilégios por ser filha de Che Guevara?
- Nenhum. Pelo contrário, procurei me esforçar um pouco mais.
- Seu pai era médico. Isso influiu em sua decisão de estudar medicina?
- Inicialmente é possível que sim, mas não posso garantir se mais
tarde também. A carreira médica em Cuba permite estar muito perto
da dor e da necessidade do ser humano. Exercê-la era uma maneira
de agradecer o que me deram.
- Você fala muito de como as crianças morrem por não viverem em
um ambiente são.
- Sou pediatra e defendo muitíssimo as novas gerações. José Martí
dizia que as crianças são a esperança do mundo, são os que sabem
amar. Então, é preciso defendê-los, têm de ser fortes e sãos para
poderem ser adultos livres. Em Cuba, apesar do bloqueio criminoso,
conseguimos fazer muitas coisas lindas por nossas crianças, as protegemos,
garantimos seu desenvolvimento físico e mental.
- Você estudou em Havana, mas se formou na Nicarágua. O que aprendeu
com os nicaragüenses?
- Foi uma experiência muito dura. Certa vez, eu estava com a tampa
de uma incubadora em uma mão e um laringoscópio na outra. Precisava
de um tubo endotraqueal para passar em um bebê e pedi a uma enfermeira.
Ela me disse: “Por que tanta ansiedade? Não vê que o Senhor o está
pedindo?”. Me senti muito mal, eu trabalhava para salvar a vida
do bebê e ela via sua morte como algo natural. A Nicarágua me ensinou
que existem muitas coisas na América Latina que não compreendo,
e que tenho de procurar entender e ter paciência.
- Você esteve em Angola de 1986 a 1988, em uma missão internacional
de médicos. Que marcas essa experiência lhe deixou?
- Me senti muito realizada como ser humano, embora tenha trabalhado
muito. Chorei muitos dias e noites, porque morriam crianças que
poderiam ter sido salvas se houvesse remédios suficientes. Em certa
ocasião, havia três crianças com meningoencefalite e somente uma
caixa de medicamento. Tive que decidir qual das três viveria. É
uma das coisas mais horríveis que fiz em minha vida. Mas não tinha
alternativa. Desde então luto e continuarei lutando contra o racismo
e a desigualdade social. Angola foi o início de uma rebeldia que
irá até o fim da minha vida.
- Você combina sua profissão com a de Embaixadora da Boa Vontade
de seu país.
- Sim, mas antes me casei e tive duas filhas. Quando cresceram um
pouco comecei a trabalhar com o Instituto Cubano de Amizade com
os Povos e viajei por meio mundo levando a mensagem da revolução
cubana e da realidade que vivem nossos povos. Agora, também me sinto
porta-voz do Movimento dos Sem-Terra do Brasil. E faço tudo o que
posso pelo nosso continente.
- O que pensa da controvérsia surgida em razão das missões de médicos
cubanos na Bolívia e na Venezuela?
- São problemas com as entidades médicas locais que se sentem ameaçadas
pelos médicos cubanos. Só que nós vamos às regiões onde elas nunca
foram. A Bolívia não paga os dois mil médicos cubanos, o fazem Cuba
e Venezuela. A Bolívia tem cerca de dez mil profissionais da saúde
desempregados, é um problema que o país terá de resolver.
* A autora é colaboradora do Terramérica. |