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Garífunas apostam no turismo ecológico |
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Por Thelma Mejía*
Comunidades
negras que habitam as costas da América Central condenam a privatização
das praias e exigem serem beneficiadas pelo turismo.
TEGUCIGALPA, 18 de dezembro (Terramérica).-
As comunidades de afrodescendentes, localizadas ao longo da faixa
caribenha do istmo centro-americano, apostam no turismo ecológico
para superar séculos de marginalização, agravada, segundo eles,
pelas políticas de livre comércio. Os também chamados garífunas
descendem de escravos fugitivos que se mesclaram com indígenas caribenhos
na ilha de San Vicente, no mar de mesmo nome. Sua linguagem combina
palavras e gramática da África ocidental com dialeto arauak, do
Caribe, e também com francês, inglês e espanhol. Calcula-se que
vivem cerca de quatro milhões de afrodescendentes na América Central,
quase 10% dos 38,7 milhões de habitantes da região.
“A voragem do livre comércio nos prejudica e reduz cada vez mais
os espaços de inclusão e preservação cultural”, disse ao Terramérica
Celeo Alvarez Casildo, presidente da Organização Negra Centro-Americana
(Oneca). “Nos dizem que o livre comércio vai incentivar o turismo.
Mas o que vemos é uma luta pela terra e o deslocamento do turismo
ecológico para o de negócios, que inclui privatizar praias públicas,
isolando o turista da riqueza cultural garífuna”, afirma Alvarez.
Há duas semanas, a Oneca realizou sua XII Assembléia Anual, que
teve como prioridade os desafios que apresentam os tratados comerciais
e a discriminação. Nessa oportunidade, os centro-americanos afrodescendentes
decidiram realizar gestões e promover projetos turísticos amigáveis
com o meio ambiente, que lhes permitam ter acesso a títulos de terras,
educação superior de qualidade, geração de microempresas e preservação
de sua cultura. “A cultura garífuna não depreda o meio ambiente.
Acreditamos que um mecanismo para sobreviver com dignidade aos tratados
comerciais é capacitar nossa gente no turismo ecológico”, disse
Alvarez.
Embora em Honduras a privatização de praias não seja legalizada,
é quase impossível para o turista nacional desfrutar das públicas,
pois a maioria é usada por complexos hoteleiros. Na América Central,
o turismo gera US$ 4,203 bilhões, segundo o Instituto Hondurenho
de Turismo. Os países com maior fluxo turístico são Costa Rica,
com ganhos superiores a US$ 1,342 bilhão, El Salvador (US$ 425 milhões),
Guatemala (US$ 770 milhões), Honduras (US$ 410 milhões), Nicarágua
(US$ 167 milhões) e Panamá (US$ 906 milhões).
Desses países, a Costa Rica é o que mais desenvolveu o turismo ecológico.
Também em Honduras, há dois anos o Banco Mundial impulsiona um projeto
de Turismo Costeiro Sustentável, particularmente no departamento
de Atlântida, onde mais se concentra a população negra. Desde que,
em meio a disputas com os franceses, em 1797, os britânicos deportaram
os garífunas para a desabitada ilha de San Vicente, estes rapidamente
se espalharam pela costa atlântica da América Central, onde permanecem
hoje. Geralmente, dedicam-se à pesca, venda de comida, turismo e
trabalham como marinheiros. E seus índices de desenvolvimento são
dos mais precários.
Em Honduras, o Instituto Nacional de Estatística informa que os
garífunas e os negro-ingleses apresentam altas taxas de analfabetismo:
entre 4% e 9%. Na Nicarágua, dos 5,3 milhões de habitantes, cerca
de 300 mil são garífunas que vivem nas zonas mais isoladas da costa
atlântica, onde o uso de eletricidade varia entre 4% e 17%, em comparação
com a média nacional de 49%, segundo dados do Banco Mundial. “É
urgente garantir a propriedade da terra dos garífunas, já que há
comunidades que tiveram de vender suas terras nas praias a preços
baixos, por ignorância e discriminação”, disse o advogado comunitário
Gautama Fonseca. “Gradualmente, alguns aventureiros vão se apropriando
das terras dos garífunas, pelas quais pagam quantias ridículas,
que depois transformam em verdadeiros tesouros ao vendê-las aos
investidores, as redes hoteleiras estrangeiras”, disse Fonseca.
Miriam Miranda, da Organização Fraternal Negra de Honduras, disse
que os garífunas centro-americanos deveriam participar ativamente
“dos tratados comerciais que tratam de políticas alternativas para
o turismo, para não ficarem à margem, como estão agora. Em muitos
países centro-americanos, a participação política dos afrodescendentes
é altamente excludente”, disse Miranda ao Terramérica. Na Costa
Rica, por exemplo, a Câmara Legislativa não teve representação garífuna
este ano, ao contrário de outras legislaturas, segundo a Oneca.
Já em Honduras, pela primeira vez em meio século, há cinco garífunas
no Parlamento, apesar de terem chegado ao país há mais de 203 anos.
Dos sete milhões de hondurenhos, mais de 300 mil são garífunas,
considerando-se as sete etnias autóctones do país. Concentram-se
principalmente nos departamentos de Atlântida – no Caribe hondurenho
–, Cortés e Colón, na costa norte. Do total da população, embora
98% tenha o ensino primário, apenas 17% conseguiu completar seus
estudos secundários e, destes, apenas 3% chega à universidade, segundo
dados oficiais.
* A autora é colaboradora do Terramérica. |