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Milionário
esforço para estudar o degelo polar |
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Por Stephen Leahy*
Em
março terá início o Ano Polar Internacional, quando 50 mil cientistas
esquadrinharão o impacto da mudança climática nos pólos. O Canadá
é o maior contribuinte desse programa, com US$ 160 milhões.
TORONTO, 15 de janeiro (Terramérica).- O recente
colapso de uma plataforma de gelo do Ártico canadense ilustra porque
o Canadá é o principal contribuinte do Ano Polar Internacional,
um dos maiores programas de investigação científica do mundo, focado
na mudança climática. Mais de 60 nações – do Chile à China – e 50
mil cientistas e pesquisadores estarão envolvidos no quarto Ano
Polar Internacional (IPY, sigla em inglês), que, na realidade, é
um biênio que se estenderá de 1º de março deste ano a 1º de março
de 2009.
Há pouco, cientistas canadenses informaram sobre o colapso da barreira
de gelo Ayles, com idade entre três mil e 4,5 mil anos e uma das
seis que restam no Canadá. Com 66 quilômetros quadrados e 44 metros
de espessura, essa nova ilha de gelo é pequena comparada com as
gigantes barreiras geladas antárticas, como a Larsen B, de 2,7 mil
quilômetros quadrados, que se desprendeu em 2002. Entretanto, seu
colapso é o maior em 25 anos. As barreiras geladas do Ártico estão
se desfazendo em pedaços silenciosamente, e são 90% menores em relação
ao que eram há cem anos.
O IPY estudará as regiões ártica e antártica, com ênfase nos efeitos
do aquecimento global, provocado pelos gases causadores do efeito
estufa, contando com investimento de US$ 500 milhões, dos quais
US$ 160 milhões procedentes do Canadá. “As mudanças nas regiões
polares estão se acelerando. Estas zonas são as primeiras a sofrer
os impactos da mudança climática, e é importante saber o que está
acontecendo para nos adaptarmos”, disse ao Terramérica o biólogo
David Hik, presidente do IPY Canadá. “Há uma previsão de que dentro
de 40 anos poderá haver um Ártico sem gelo durante os meses de verão,
o que causará impacto na região e em seus habitantes”, assegurou.
“O sistema climático global é um balanço entre as regiões frias
e as quentes do planeta”, explicou ao Terramérica David Carlson,
diretor do Escritório do Programa do Ano Polar Internacional, em
uma entrevista, da cidade britânica de Cambridge. As mudanças nas
regiões frias afetam modelos climáticos globais que têm um forte
impacto no restante do planeta, acrescentou. O último esforço internacional
importante para estudar as regiões mais frias do mundo aconteceu
há 50 anos e se chamou Ano Geofísico Internacional. Consistiu em
uma histórica colaboração científica que envolveu 57 nações. E os
dados que produziu ainda são usados atualmente.
Essa foi uma era de exploração e descobertas de regiões remotas
e proibidas que haviam mudado pouco em milhões de anos. Hoje, os
cientistas do IPY consideram urgente compreender os vínculos entre
o mutante gelo polar, os oceanos e o permafrost com o resto do planeta,
devido aos impactos potencialmente maciços, disse Carlson. Por isso,
também participam do IPY países não-polares, como China e Malásia.
Como este é o maior projeto científico internacional dos últimos
50 anos, representará uma grande oportunidade para a colaboração
científica.
O Ano Polar é organizado pelo Conselho Internacional de Ciência
e pela Organização Meteorológica Mundial, sob patrocínio do Programa
das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Também há muito interesse
público, como resultado da ampla atenção que a imprensa deu aos
ursos polares, pingüins e à mudança climática. Um interesse que
continuará nas próximas semanas, com a iminente divulgação do Quarto
Informe de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança
Climática. Produto de seis anos de estudos dos 2,5 mil cientistas
de 130 nações, o documento incluirá nova informação sobre as modificações
do gelo polar.
Os pesquisadores do IPY não estudam apenas as mudanças geofísicas,
mas também a ecologia marinha e terrestre das regiões polares. E,
no Ártico, temas sociais e econômicos. “Também há quatro milhões
de pessoas que vivem na região do Ártico que já estão enfrentando
condições de mudanças que afetarão o restante do planeta”, disse
Carlson. As mudanças econômicas têm um impacto importante na região,
já que o clima mais quente, somado ao aumento dos preços de recursos
como petróleo, gás e minerais, converteu partes da região ártica
nas comunidades de crescimento mais acelerado do Canadá, segundo
Hik.
“Em apenas 15 anos, o norte do Canadá se transformou em um dos maiores
produtores mundiais de diamantes”, prosseguiu Hik. A bacia ártica
possui 25% das reservas mundiais não descobertas de petróleo e gás.
Apesar das duras condições, a exploração e o desenvolvimento estão
no auge na região. Um gasoduto de US$ 10 bilhões, que partirá do
Oceano Ártico e passará pelo Vale do Rio Mackenzie, no Canadá, para
abastecer o sul, encontra-se no final de sua fase de planejamento,
acrescentou.
Organizações ambientalistas criticaram os projetos de pesquisa dos
Estados Unidos no IPY, que colaboram com empresas petrolíferas para
procurar reservas de combustíveis fósseis no Ártico. “Já estamos
nos aproximando de um limite crítico do aquecimento global, e a
busca de mais depósitos de petróleo e gás vai piorar esse problema”,
afirmou Tony Juniper, diretor britânico da Amigos da Terra, à agência
de notícias Associated Press, em abril. Tratados internacionais
impedem a exploração econômica de recursos na Antártida. Porém,
a realidade no Ártico é que “no futuro poderá haver uma plataforma
petrolífera em pleno Pólo Norte”, afirmou Hik.
* O autor é correspondente da IPS.
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